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Esta ave regressou do abismo da extinção. Outras não tiveram a mesma sorte

CNN , Tom Page
3 mai, 12:00

Será que as aves que foram extintas na Nova Zelândia podem ajudar a salvar as que estão vivas? Esta fotógrafa capta espécies que "assombram" a história desta nação

A primeira vez que Fiona Pardington viu um pássaro huia foi num pudim de Natal. A artista, à altura uma criança, tinha mordido uma fatia de bolo feito pela sua tia Nelly quando encontrou uma antiga moeda de seis pence, de prata, com a ilustração da espécie extinta.

Pardington cuspiu a moeda e olhou para a ave. Era uma fêmea com um bico longo e curvo, assim como uma barbela pronunciada. A rapariga pouco sabia sobre o huia, sobre o seu canto característico, ou sobre as valiosas penas da sua cauda. Já adulta, aprendeu que a ave era sagrada para o povo Māori da Nova Zelândia, possuindo grande "mana", ou seja, força vital. Contudo, este pássaro foi atingido de uma forma dura pela perda de habitat, que se acelerou após a chegada dos colonizadores europeus - até ser extinto no século XX.

Hoje, a artista, que tem ascendência Māori e escocesa, vê a ironia presente naquele primeiro encontro: libertando o pássaro de um símbolo da cultura que provocou o seu desaparecimento. O huia, tal como outras espécies de aves nativas, "assombra a nossa história", diz.

Desde início dos anos 2000, Pardington tem trabalhado para reintegrar as aves raras e extintas da Nova Zelândia no seu contexto cultural. Fá-lo por meios invulgares: fotografa, em estúdio, retratos de espécimes taxidermizados. Espera que as aves mortas possam ajudar a proteger as que ainda vivem em Aotearoa - o nome maori para a Nova Zelândia.

Na Bienal de Veneza desta primavera, a fotografia de Pardington ocupará o Pavilhão Aotearoa Nova Zelândia. A sua série “Taharaki Skyside” (“O Céu das Multidões”) apresenta 17 retratos de aves, incluindo espécies extintas como o huia e o whēkau, também conhecido como “coruja-risonha”. Juntam-se ainda espécies de papagaios vulneráveis ​​e ameaçadas de extinção, como o kākā (habitantes da floresta) e o kea (o único papagaio alpino do mundo).

As aves são provenientes de museus da Nova Zelândia e da Austrália. Algumas viajaram até mais longe, como parte de coleções da era colonial — até ao Museu Britânico —, e acabaram devolvidas. É uma história à parte sobre a pilhagem do mundo natural na era dos impérios e as instituições que confrontam a sua herança.

Fotografar animais taxidermizados “não é tarefa para os fracos de coração”, diz a artista. Cada exemplar da exposição é um “espécime imperfeito. Estamos a lidar com aves que têm centenas de anos, muitas em estado de deterioração”. Os danos e a anatomia imprecisa são apenas dois dos fatores que Pardington enfrenta.

Uma whēkau, ou coruja-risonha morta, em exposição no Museu da Nova Zelândia Te Papa Tongarewa, em Wellington. A espécie extinguiu-se há mais de um século, devido à predação e à perda de habitat, segundo o museu. As terras foram desmatadas para a criação de gado. Animais invasores como arminhos, furões e gatos eram predadores desta coruja (Fiona Pardington)

Fiona Pardington fotografa os animais em fundos de estúdio, numa parceria com o irmão, o diretor criativo Neil Pardington. Alguns pássaros olham para a objetiva da câmara, outros inclinam a cabeça em direção ao céu. Os retratos estáticos de animais mortos, paradoxalmente, transbordam vida.

Em Veneza, a exposição irá assentar numa fotografia enigmática, invocando a “Divina Comédia” de Dante. O poeta italiano medieval imaginou que o Hemisfério Sul era o local da ilha montanhosa do Purgatório. Por isso, Pardington posiciona a Nova Zelândia como um “Purgatório de aves”, escreve Andrew Paul Wood num ensaio que acompanha a exposição. Os retratos, acrescenta, representam “os pecados da devastação ecológica, da extinção provocada pelo homem e da colonização. São retratos de nós e que, ao mesmo tempo, nos julgam”.

“Os pássaros são os nossos tupuna — são os nossos antepassados”, diz Pardington sobre as crenças Māori. “São extremamente importantes nos mitos. Realizaram muitos feitos, incorporaram qualidades muito poderosas e carregam histórias grandiosas”.

A artista descreve como uma “violação” o “consumo em grande escala” de aves endémicas no passado - quando eram caçadas, empalhadas e exportadas para coleções ou usadas na moda.

“Podemos olhar para um (retrato) e pensar: ‘é um pequeno pássaro branco com um bico semelhante ao de um tentilhão’, mas, para mim, por trás disso, está todo o mana e a profundidade cultural — que não será óbvio para ninguém fora da Nova Zelândia”, acrescenta.

Para colmatar esta lacuna de conhecimento, Pardington convidou especialistas, incluindo Maia Nuku, curadora da secção Oceânia do Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, para escreverem sobre o significado social dos temas da exposição, bem como sobre a sua biologia única.

Proteger um planeta alienígena

Um retrato emoldurado feito por Pardington de um kākāpō, um papagaio não voador nativo da Nova Zelândia (Fiona Pardington)

Durante milénios, a Nova Zelândia foi um “planeta alienígena”, diz a artista. A ausência de predadores naturais protegia aves com estilos de vida pouco convencionais para a maioria das espécies. Espécies como o papagaio não voador kākāpō, por exemplo, vivem, dormem e fazem os seus ninhos no solo sem qualquer problema. Contudo, a introdução de mamíferos predadores, incluindo ratos e gatos, tornou-os vulneráveis. Hoje, restam apenas 236 kākāpō, a grande maioria em ilhas inacessíveis ao público, que passaram por programas de erradicação de pragas.

O Departamento de Conservação da Nova Zelândia lista 69 espécies de aves ameaçadas, 18 das quais estão em "alto risco imediato de extinção". A mais ameaçada é a andorinha-do-mar-fada-da-Nova-Zelândia (Tara iti), com uma população inferior a 50 indivíduos, incluindo 10 fêmeas reprodutoras.

O país é conhecido pela sua imagem de estar orientado para a conservação, mas Pardington acredita que é necessário mais investimento para travar espécies invasoras como os cangurus e os opossums - ambos introduzidos a partir da Austrália. Além disso, critica aquilo a que chama de “postura limpa e verde” do governo, que, no ano passado, removeu a proibição de novas explorações de petróleo e gás, bem como as propostas para expandir as operações de mineração de carvão no biodiverso Planalto de Denniston, na costa oeste da Ilha Sul.

A obra de arte de Fiona Pardington, silenciosa e estoica, é um testemunho do que se perde, e sobretudo daquilo que ainda se pode perder, quando o consumo e a exploração têm lugar sem controlo nem contestação.

Pardington espera que as fotografias influenciem o público internacional de Veneza. “A arte não é só algo fútil. Pode afetar profundamente as pessoas e transformar culturas”, defende.

“As pessoas podem ser muito politicamente estridentes nas artes”, diz. Embora opte por um tom mais calmo, de propósito: “Estou a falar sobre assuntos difíceis, de uma forma que pode atrair as pessoas para mais perto. Por isso, quando falo com as pessoas, posso ter de sussurrar. Mas assim elas vão ouvir-me”.

“Acho que se pode alcançar muito mais com amor, respeito e beleza”, acrescenta.

A Bienal de Veneza é inaugurada a 9 de maio e decorre até 22 de novembro. O Pavilhão da Nova Zelândia estará localizado no Istituto Santa Maria della Pietà, Calle della Pietà, Castello 3703.

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