Os aventais utilizados na série "The Bear", como pode ver na imagem de capa deste artigo, eram réplicas daqueles que eram utilizados no elegante restaurante The French Laundry, no condado de Napa, nos Estados Unidos da América (Matt Dinerstein/FX)
Desprezado, familiar, caseiro. Estas são palavras que costumamos associar ao avental, uma peça de vestuário quotidiana, removível, que tem funcionado ao longo da história “quase como uma capa de invisibilidade”. A expressão é de Carol Tulloch, professora de Vestuário, Diáspora e Transnacionalismo no Chelsea College of Arts, numa entrevista telefónica com a CNN.
É algo que nao devemos dizer a Carmy Berzatto, personagem interpretada por Jeremy Allen White na série “The Bear”, cujo avental azul, bem atado, - que é uma réplica dos usados no chiquíssimo The French Laundry, restaurante que fica no condado de Napa, nos Estados Unidos da América – acentua a energia da personagem principal.
Tulloch e a colega Judith Clark, professora de Moda e Museologia no London College of Fashion, juntaram-se recentemente para uma residência de três meses na galeria Chelsea Space. A mesma servia para refletir sobre os valores sociais e culturais do avental – na forma como é desenhado, como é utilizado e ainda no seu papel no que diz respeito às questões de raça, classe e identidade de género.
Trata-se de uma reflexão oportuna, já que o avental está a renascer na cultura popular. Apareceu, por exemplo, em coleções recentes da Hermès, da The Row, da Dior, da Phoebe Philo ou da Ganni. Outro exemplo é o de Kaia Gerber, que usou um vestido chique estilo avental na sua passagem por Nova Iorque em abril. Por isso, a capacidade desta peça de abranger histórias e experiências inéditas começa agora a ser avaliada de uma forma crítica.
“Os aventais têm sido uma parte inconsciente das nossas vidas, das nossas infâncias”, considera Tulloch. “Embora tenham apena a função de proteger a roupa, existem de muitas outras formas”.
O avental como talismã
Quando Tulloch começou a olhar para os aventais de uma forma crítica, estes revelaram ser uma fascinante visão sobre as pessoas de vários estratos sociais, diz. “As pessoas que eu não esperava que tivessem uma relação próxima com os aventais, como os académicos, ficavam bastante pensativas quando começavam a pensar nesta peça”. Tulloch recorda uma exposição, há uns anos, chamada “Pinnies from Heaven”, no museu The Makers Guild, no País de Gales, onde se exibiam obras criadas a partir da relação dos artistas com as recordações que tinham desta peça de vestuário. Um artista mostrou a forma como o avental absorvia todos os detritos daquilo que acontecia em casa, não apenas a confusão de cozinhar ou limpar, mas também as consequências emocionais. “Marcou-me mesmo”, conta Tulloch.
Para Clark, o avental é uma espécie de “talismã”. Numa entrevista telefónica com a CNN Portugal, observa que a residência artística acabou por criar uma imediata sensação de nostalgia em várias pessoas. “Entravam e, dois minutos depois, estavam a contar um pouco da história das suas famílias”, recorda.
Tulloch olhou ainda para os aventais como uma ferramenta de proteção e de ativismo para as mulheres. Fê-lo através da perspetiva das mulheres afro-jamaicanas que trabalhavam em mercados, conhecidas como “Higglers”. “É uma figura que ainda faz parte da identidade jamaicana”, refere. “Estas mulheres eram definidas visualmente pelos seus aventais, que fosse atado à cintura ou completo. Também eram usados por mulheres que colhiam ananás ou banana, bem como por empregadas domésticas”.
Tulloch faz referência à artista contemporânea sul-africana Mary Sibande, que explora as ligações entre raça, género e trabalho naquele país. A criadora recorre a recorre às representações escultóricas de “Sophie”, o seu alter ego, que, usando avental, “encarna as fantasias das mulheres da sua família que foram mães”.
“Da bisavó à mãe de Sibande eram todas empregadas domésticas”, conta Tulloch.
“O avental também servia como código visual nos filmes: as mulheres afro-americanas eram frequentemente apresentadas como empregadas domésticas pelo uso de aventais em filmes e em desenhos animados. Além disso, as sufragistas recuperaram os aventais nas suas lutas, usando-os estampados com mensagens, muitas vezes depois de terem saído da prisão, aonde tinham ido parar à custa do seu ativismo”.
Contudo, os aventais nem sempre foram signos do lado doméstico, da servidão, da simplicidade, da pertença à classe trabalhadora. E nem sempre foram usados, na sua maioria, por mulheres. Há investigações que sugerem que vestes triangulares, semelhantes a aventais, foram usadas pela primeira vez por nobres no Antigo Egito, como se pode ver em pinturas da época. Já na Idade Média, aventais feitos de couro e lona grossa eram usados por ferreiros, sapateiros, talhantes, ferreiros e outros comerciantes que desejavam uma proteção reforçada face aos perigos dos seus ofícios. Depois, no Renascimento, havia “mulheres abastadas” na Europa a usar aventais elaborados, adornados com rendas e bordados, laváveis, que serviam para manter limpos os seus luxuosos vestidos. Os aventais foram uma presença constante em muitos empregos durante a Revolução Industrial, com códigos rígidos a definir que estilo podiam usar os funcionários (simples, quotidianos) e que estilo podiam usar as mulheres de alta sociedade (elaborados, bordados, feitos de tecidos mais caros).
Na década de 1950, o avental tornou-se um símbolo da mulher dona de casa, especialmente nos Estados Unidos da América — basta pensar na personagem Lucy Ricardo, interpretada por Lucille Ball, na série de comédia "I Love Lucy" ou, mais recentemente, na interpretação de Betty Draper pela atriz January Jones em "Mad Men".
Um futuro mais diverso e sem género
Apesar de o vestuário ser uma parte muito importante da nossa consciência coletiva, os aventuais foram alvo de poucos estudos, refere Clark. "As coleções, como a do Fashion Museum, em Bath, Inglaterra, são enormes, com grande valor e significado cultural, mas não há de facto nenhuma investigação sustentada sobre estas peças", explica.
Embora a exposição de aventais em museus traga grandes desafios, uma vez que é dificultada pela sua construção plana, Clark suspeita que os aventais "não foram considerados algo com importância cultural devido à sua relação com o trabalho doméstico, que é tradicionalmente feminino".
Contudo, isso é algo que estará a mudar, dado que o avental continua a ser modernizado e a consolidar-se cada vez mais na cultura popular. À custa do interesse crescente da Geração Z pelo universo da gastronomia e da culinária, o uso do avental está a encontrar um novo público, mais diversificado e sem género. Se os chefs do passado não gostavam de ser vistos com avental, encarado como um utensílio do “cozinheiro”, a verdade é que essa visão está a mudar. Até a revista Vogue decretou o regresso desta peça na sua edição de junho de 2025.
“Há lindas imagens de Anna Piaggi, falecida jornalista e musa da moda, com Karl Lagerfeld, a usar uma capa da Chanel como avental”, exemplifica Clark. “Adoro o formato, a mobilidade, o facto de não serem justos. Por isso, são uma peça verdadeiramente inclusiva. Adoro também a facilidade com que esta peça pode ser subvertida. É uma peça que pura e simplesmente se recusa a ser colocada numa gavetinha”.