Pandemia aumentou as mortes por AVC em Portugal. “Os médicos de família foram desviados para a covid e não puderam fazer prevenção"

Agência Lusa , FCT
17 mai, 16:04
Intervenção Hospital (BSIP/ Getty)

Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral diz que a mortalidade por AVC estava em decréscimo em Portugal nos últimos anos. No entanto, em 2020, registou-se um aumento de 4,2%, morrendo 11.439 pessoas, mais do que por covid-19

A Sociedade Portuguesa de Acidente Vascular Cerebral afirmou, esta terça-feira, que o aumento das mortes por AVC (Acidente Vascular Cerebral) no primeiro ano da pandemia deveu-se ao atraso na procura de cuidados, reorganização de serviços e desvio de meios dos cuidados de saúde primários.

“O grande fator deste aumento de óbitos por AVC é a pandemia, direta ou indiretamente. Davam-nos números diários dos óbitos por covid-19 e nós alertávamos que esses números, ainda assim, seriam menores do que as mortes por AVC”, disse à agência Lusa o vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Acidente Vascular Cerebral (SPAVC).

João Sargento Freitas, médico neurologista nos Hospitais da Universidade de Coimbra, comentava os dados da mortalidade de 2020 revelados na segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), que indicam um aumento de 4,2% nas mortes por acidentes vasculares cerebrais, com um total de 11.439 óbitos, mais do que por covid-19 (7.125), que foi a segunda causa de morte em Portugal.

Segundo o INE, em 2020 as doenças do aparelho circulatório foram as que mais mataram em Portugal, com 34.593 óbitos (+2,9%). Destas, o INE destaca a subida nas mortes por AVC (11.439) e, em contrapartida, a descida nos óbitos por doença isquémica do coração (6.838) e por enfarte agudo do miocárdio (4.086).

Para o vice-presidente da SPAVC, o impacto negativo da pandemia – no caso das mortes por AVC – é multifactorial. “Por um lado, na primeira vaga, as pessoas recorriam menos às urgências dos hospitais, mas houve igualmente um desvio da atenção nos cuidados de saúde para a covid-19, deixando de parte outras doenças”, explicou.

“Pode ter havido receio de ir as urgências, (…) as pessoas estavam mais relutantes e esperavam para ver se havia reversão e os atrasos nestas doenças são um ponto crítico. Por outro lado, o ónus está também nos cuidados de saúde, pois houve uma reorganização a nível hospitalar e igualmente um desvio de meios na prevenção, nos cuidados de saúde primários.”

“Os médicos de família foram desviados para a covid e não puderam fazer prevenção, como controlar a tensão, a diabetes e outros fatores de risco aos seus doentes”, insistiu o especialista, sublinhando: “Todas as nossas opções na saúde têm um preço."

Principal causa de morte em pandemia "não foi a covid-19"

O especialista apontou igualmente a reorganização de serviços intrahospitalares, com a criação de circuitos próprios para doentes covid-19, considerando que os outros circuitos “sofreram um bocado”.

“Houve um grande esforço nas unidades de AVC para que a covid as afetasse o menos possível, mas sei que há centros que tiveram grandes dificuldades e outros em que as unidades de AVC foram transformadas em unidades para doentes covid”, adiantou.

Estes números, sublinhou, “vêm reforçar a ideia de que não nos podemos esquecer destas doenças porque a principal causa de morte não foi a covid”.

João Sargento Freitas disse ainda que os dados relevados pelo INE “desanimam um pouco”. "Em Portugal, nos últimos anos, estava a decrescer a mortalidade por AVC e nós estávamos contentes com isso.”

“A prevenção e os tratamentos tinham vindo a melhorar, as técnicas cada vez são melhores, houve desenvolvimentos na prevenção e estávamos igualmente melhor em termos de armas, mas houve muita dificuldade para que essas armas chegassem à população”, explicou o vice-presidente da SPAVC, insistindo, contudo, que os valores agora revelados “têm de ser analisados e compreendidos ao pormenor”.

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