Trump associa o consumo de paracetamol na gravidez ao autismo

CNN Portugal , MJC
22 set 2025, 21:58
Medicação

Até agora, as diretrizes das principais sociedades médicas sobre o uso do paracetamol identificam-no como um analgésico e antipirético (para aliviar a dor e a febre) seguro para uso durante a gravidez

O presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou esta segunda-feira que os Estados Unidos vão recomendar que as mulheres reduzam significativamente o consumo de paracetamol durante a gravidez, devido ao receio de que este fármaco possa estar estar relacionado com o autismo.

"Tomar Tylenol [uma das marcas com que este fármaco é comercializado nos EUA] não é bom. Por esta razão, vamos recomendar que as mulheres reduzam significativamente o consumo de paracetamol durante a gravidez, a menos que medicamente aconselhado em casos de febre extrema", afirmou o presidente norte-americano, durante uma conferência de imprensa na Casa Branca.

Até agora, as diretrizes das principais sociedades médicas sobre o uso do paracetamol identificam-no como um analgésico e antipirético (para aliviar a dor e a febre) seguro para uso durante a gravidez, mas aconselham as mulheres grávidas a consultar os seus profissionais de saúde antes de tomá-lo, como acontece com todos os medicamentos durante esse período sensível.

Mas as autoridades optaram por valorizar uma revisão de investigações liderada pelo reitor da Escola de Saúde Pública Chan da Universidade de Harvard que, em agosto, concluiu que as crianças podem ser mais propensas a desenvolver autismo e outros distúrbios do desenvolvimento neurológico quando expostas ao Tylenol durante a gravidez. Os investigadores argumentaram que deveriam ser tomadas algumas medidas para limitar o uso do medicamento, mas afirmaram também que o analgésico ainda é importante para tratar a febre e a dor maternas, que também podem ter efeitos negativos para as crianças.

A conclusão não é consensual no meio médico e foram apontadas várias incongruências e insuficiências a este trabalho. 

Um outro estudo, que tinha sido publicado em 2024, não encontrou nenhuma relação entre a exposição ao Tylenol e o autismo. "Não há evidências robustas ou estudos convincentes que sugiram qualquer relação causal", disse Monique Botha, professora de psicologia social e do desenvolvimento na Universidade de Durham, acrescentando que o alívio da dor em mulheres grávidas era "lamentavelmente insuficiente", sendo o Tylenol uma das únicas opções seguras para essa população.

O Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia sublinhou que médicos de todo o país têm consistentemente identificado o Tylenol como um dos únicos analgésicos seguros para mulheres grávidas. "Estudos realizados no passado não mostram evidências claras que comprovem uma relação direta entre o uso prudente de paracetamol durante qualquer trimestre e problemas de desenvolvimento fetal", afirmou em comunicado.

Por seu lado, a Kenvue, fabricante do Tylenol, argumentou que "estudos científicos independentes e confiáveis mostram claramente que tomar paracetamol não causa autismo": "Discordamos veementemente de qualquer sugestão em contrário e estamos profundamente preocupados com o risco para a saúde que isso representa para as gestantes." O paracetamol é a opção mais segura de analgésico para mulheres grávidas, defendeu a farmacêutica numa declação à BBC, e sem ele as mulheres enfrentam uma escolha perigosa entre sofrer com condições como febre ou usar alternativas mais arriscadas.

O autismo na agenda política

O espectro do autismo é uma perturbação do neurodesenvolvimento que se caracteriza por dificuldades nas competências sociais e de comunicação, podendo afetar o desenvolvimento da linguagem e também causar comportamentos repetitivos. Os diagnósticos de autismo aumentaram acentuadamente desde 2000 e, em 2020, a taxa entre crianças de 8 anos atingiu 2,77%, de acordo com os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA .

O presidente Donald Trump há muito tempo expressa preocupação com o aumento das taxas de autismo nos EUA e encarregou os seus assessores de encontrar respostas ainda este ano. A iniciativa contou com a participação do secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., do comissário da Food and Drug Administration, Marty Makary, do diretor do National Institutes of Health, Jay Bhattacharya, e de outros altos funcionários.

No passado, Kennedy já tinha apresentado teorias infundadas sobre o aumento das taxas de autismo, culpando as vacinas, apesar da falta de evidências. Em abril, Robert F. Kennedy Jr. fez do autismo um tema principal da sua agenda “Make America Healthy Again” (Tornar a América Saudável Novamente) e prometeu "um enorme esforço de testes e investigação" para determinar a causa do autismo em cinco meses - ou seja, até setembro.

Os especialistas alertaram que descobrir as causas do autismo - uma síndrome complexa que é investigada há décadas - não seria simples. A opinião generalizada dos investigadores é que não existe uma causa única para o autismo, que se pensa ser o resultado de uma combinação complexa de fatores genéticos (mais de 100 genes estão implicados) e ambientais, nos quais se incluem o estilo de vida.

Os cientistas atribuem ainda parte do aumento dos casos diagnosticados à maior consciencialização, quer dos médicos quer das famílias, sobre o autismo; a meios de diagnóstico mais eficazes e a uma definição mais ampla do que é o autismo.

Os executivos da Tylenol reuniram-se com o governo nas últimas semanas para expressar as suas dúvidas sobre a iniciativa federal e discutir os próximos passos. 

A leucovorina pode tratar o autismo?

Além disso, as autoridades norte-americanas planeiam promover um medicamento menos conhecido, chamado leucovorina, como um potencial tratamento para o autismo. A leucovorina - ou ácido folínico - é normalmente prescrita para neutralizar os efeitos colaterais de alguns tratamentos, sobretudo como um antídoto para os efeitos nocivos do metotrexato (um medicamento contra o cancro). Pode também ajudar a suprir a deficiência de vitamina B9.

Os primeiros ensaios, controlados por placebo, em que foi administrada leucovorina a crianças com autismo, mostraram o que alguns cientistas descrevem como melhorias consideráveis na sua capacidade de falar e compreender os outros, segundo o Washington Post. No entanto, vários especialistas chamaram a atenção para a falta de estudos significativos que provem de facto a eficácia da leucoverina no tratamento do autismo.

Relacionados

Saúde

Mais Saúde