"Não existe qualquer evidência científica" de que tomar paracetamol durante a gravidez aumenta o risco de autismo no bebé

23 set 2025, 20:57
Paracetamol (GettyImages)

Donald Trump associou o consumo de paracetamol na gravidez ao autismo. As suas declarações provocaram já duras críticas por parte das comunidades científica e médica

Não existe qualquer relação entre o uso de paracetamol, conhecido como Tylenol nos Estados Unidos, durante a gravidez e um diagnóstico de autismo, garante o neuropediatra Tiago Proença Santos, uma informação, aliás, que quer que todos assimilem. 

"A Administração Trump tem feito uma serie de declarações sobre o autismo e tem feito relações que não têm a mínima evidência científica", afirma Tiago Proença Santos à CNN portugal. "É muito perigoso quando a evidência científica deixa de ser o mais importante, quando temos políticos que usam a saúde como arma política."

Existe uma "epidemia" de autismo?

O neuropediatra confirma que tem havido aumento do diagnóstico do autismo, nomeadamente nos países ocidentais, mas explica que este se deve, antes de mais, ao facto de as autoridades médicas terem alterado os critérios, e portanto, passámos a classificar dentro do espectro do autismo casos que antes não eram considerados como tal.

Além disso, "estamos muito mais preocupados e atentos" a sinais e sintomas que antes eram ignorados. E isto acontece não só com o espectro do autismo como com outras condições, como a hiperativade ou o défice de atenção. A consciencialização para as questões relacionadas com a neurodiversidade levam muitas pessoas a entender como as suas experiências podem não ser neurotípicas e a procurar ajuda médica.

E, finalmente, os métodos de diagnóstico são melhores e "temos mais formas de intervenção". Isto quer dizer que o aumento de diagnósticos "não traduz necessariamente um aumento dos casos", sublinha o neuropediatra. "Estamos muito longe de uma epidemia de autismo."

O autismo não tem uma só causa

Os cientistas são unânimes em afirmar que o autismo não tem uma causa única, mas é antes causado por uma conjugação de fatores. "A causa principal é genética, mas não há um gene único que possa ser identificado, é uma mistura de vários genes, por isso dizemos que é uma causa poligenética", explica Tiago Proença Santos. 

Além disso, existem outros fatores que, de acordo com os estudos, podem aumentar o risco de autismo. "Existem fatores ambientais, como a exposição a alguns tóxicos, que ainda não estão bem definidos. E existem fatores ligados com o estilo de vida que podem ter um impacto importante, como a estimulação da criança, a organização familiar, o tempo de ecrã." Mas, mais uma vez, é preciso sublinhar que não estamos a falar de causas mas de fatores que potenciam a predisposição para a doença.

O estudo em que se baseia Trump é um "estudo populacional", ou seja, feito com uma grande amostra da população, aleatoriamente, não é um estudo controlado. E baseia-se em entrevistas feitas a mulheres a quem é perguntado se tomaram paracetamol - e portanto tem uma margem de erro muito grande. Além disso, diz, "se as grávidas fizeram paracetamol no final da gravidez é porque poderiam ter uma infeção - gripe, covid, ou outra doença". "Sabe-se que determinadas doenças aumentam um estado inflamatório no bebé que está a desenvolver-se no útero e isso já está sinalizado como um dos fatores associados ao espectro do autismo."

Vacinas e paracetamol: os benefícios compensam qualquer risco, dizem os médicos

"Em tempos já houve uma polémica sobre a vacina do sarampo, que se disse que poderia estar relacionada com o autismo, mas rapidamente se percebeu que o autor desse estudo era um dos responsáveis por uma nova vacina e, por isso, havia interesses económicos por trás dessas declarações", recorda o neuropediatra. 

O que aconteceu, explica, é que a vacina é administrada às crianças por volta dos 12 meses de idade. As crianças começam a falar entre os 12 e os 24 meses e é também nessa altura que são diagnosticados muitos casos de autismo. Então ia-se ver o que tinha acontecido nos meses anteriores que pudesse ter provocado a doença e encontrava-se a vacina do sarampo. Mas isso não faz sentido e não há nenhuma evidência científica que relacione a vacina do sarampo com o autismo.

Infelizmente, apesar de essas alegações terem sido sistematicamente desmentidas por médicos e cientistas, "esse medo está enraizado na população" e há movimentos que pedem o fim da vacinação. "Têm existido surtos de sarampo nos EUA e, isso sim, é um problema de saúde pública, porque o sarampo nas crianças em alguns casos pode ser complicado e levar mesmo à morte", alerta o médico.

Esse é o risco que se corre agora relativamente ao paracetamol - que apesar das evidências científicas, as pessoas passem a ter medo de recorrer ao medicamento.

Marina Moucho, diretora do Serviço de Obstetrícia do Hospital São João, no Porto, recorda que "o paracetamol foi introduzido em 1955, já havia diagnóstico de autismo antes". Sendo o paracetamol um dos medicamentos mais usados em todo o mundo há tanto tempo, "se houvesse alguma relação, a incidência de autismo teria de ser muito maior", sublinha. 

"Há muitos estudos a garantir a segurança do paracetamol durante a gravidez e a aconselhar as grávidas a tomar o paracetamol para a febre e para as dores. Se não tomarem paracetamol, têm anti-inflamatórios, que, esses sim, estão contra-indicados a partir das 20 semanas. Ou então ficam sem nenhum mecanismo para combater as dores e a febre", avisa a médica. 

Infarmed e EMA não têm dúvidas: o paracetamol é seguro

"Na União Europeia (UE), o paracetamol (também conhecido como acetaminofeno) pode ser utilizado para reduzir a dor ou a febre durante a gravidez, se clinicamente necessário. Atualmente, não existem novas evidências que justifiquem alterações às recomendações da UE relativamente ao seu uso", afirma o Infarmed, numa nota emitida esta terça-feira, fazendo eco das diretivas da Agência Europeia de Medicamentos (EMA).
 
"O presidente dos EUA, Donald Trump, associou o autismo ao uso de vacinas infantis e ao consumo do popular analgésico Tylenol por mulheres grávidas, recorrendo a alegações não comprovadas por evidências científicas", diz a EMA em comunicado nesta terça-feira. "As evidências disponíveis não encontraram nenhuma ligação entre o uso de paracetamol durante a gravidez e o autismo", continua o regulador, acrescentando que o paracetamol pode ser usado durante a gravidez quando necessário, embora na dose e frequência mínimas eficazes.

"As recomendações atuais da EMA para o uso de paracetamol durante a gravidez permanecem inalteradas", assegura a agência.

Estas são as diretrizes do Infarmed:

  • Quando necessário, o paracetamol pode ser utilizado durante a gravidez. Tal como acontece com qualquer medicamento para tratamento agudo, deve ser usado na menor dose eficaz, pelo período mais curto possível e com a menor frequência necessária.
  • As mulheres grávidas devem falar com o seu profissional de saúde se tiverem dúvidas relativamente a qualquer medicamento durante a gravidez.

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