Uma tripla é a aposta mais segura para não falhar sobre quem vai conquistar o município capital da nova região de Setúbal
Setúbal (CNN Autárquicas 2025) - CDU, PS ou Dores Meira, qualquer uma destas três candidaturas pode, em teoria e pelo que se percebe no terreno, vencer as eleições autárquicas em Setúbal. O município, governado há 25 anos pela CDU após quase outro tanto tempo de gestão socialista, chega a este ato eleitoral com uma ‘intrusa’ a meter-se pelo meio das opções tradicionais.
A candidatura de Maria das Dores Meira, que geriu os destinos do concelho entre 2016 e 2021 à frente de executivos CDU, vem baralhar as contas a comunistas e socialistas. A antiga autarca, após um mandato, incompleto, como vereadora da oposição em Almada, desvinculou-se do PCP no ano passado e apresentou-se como candidata independente a Setúbal, onde conquistou a última maioria absoluta, para a CDU, em 2017, com sete mandatos no total de 11 que compõem o executivo municipal.
Vitoriosa durante mais de duas décadas, a CDU aposta na recandidatura do ecologista André Martins – curiosamente o único presidente de câmara do país que é militante do Partido Ecologista ‘Os verdes’ (PEV) – que obteve, em 2021, uma maioria relativa, com cinco eleitos, tendo o PS ficado com quatro e o PSD com dois.
O PS renova a aposta no mesmo cabeça-de-lista que apresentou há quatro anos, o deputado Fernando José, que tem sido o líder da oposição municipal neste mandato.
Aritmeticamente, qualquer destas três forças políticas pode ganhar a Câmara Municipal de Setúbal com apenas três eleitos. Num executivo com 11 mandatos, se três candidaturas obtiverem três mandatos, e as restantes tiverem menos do que isso, a mais votada conquista a presidência e a governação do município.
Como NUT 2, a Península de Setúbal é a região mais promissora do país em expectativas de crescimento do financiamento comunitário e do investimento público e privado
Além da incerteza sobre qual destas três opções será a preferida dos setubalenses e azeitonenses, há uma outra incógnita em Setúbal, comum ao resto do território nacional: quanto vale o Chega em eleições autárquicas? O partido de André Ventura não elegeu ninguém para a câmara sadina em 2021, mas chegou à assembleia municipal e nas últimas legislativas foi o partido mais votado, ultrapassando olimpicamente socialistas, comunistas e social-democratas.
Prós e contras
Para as eleições do próximo dia 12, todas as três principais forças concorrentes apresentam prós e contras.
A CDU, além incumbente, tem obra feita, um mandato que executou o maior volume de investimento municipal de sempre, com um desempenho no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para o pódio nacional e uma liderança da agenda política local. André Martins resolveu ou enfrentou os maiores problemas políticos dos últimos anos, alguns criados ou mantidos no mandato anterior, como a gestão da água, que regressou à esfera pública ou o usufruto do Parque da Comenda, na Arrábida, que estava capturado por interesses privados, e “rasgou” o contrato de concessão do estacionamento pago na cidade.
O autarca comunista é visto, no entanto, como alguém demasiado sério, sem o carisma de outros autarcas e que levou mais de metade do mandato para começar a ultrapassar as dificuldades em adoptar uma postura mais popular.
Maria das Dores Meira, a candidata com maior notoriedade, é reconhecida pela sua dinâmica e capacidade de trabalho. Deixou obra, tanto de imagem como estrutural, mas as finanças da autarquia, que vinham de um contrato de reequilíbrio financeiro – um resgate – após a gestão socialista de Mata Cáceres, ressentiram-se fortemente.
A agora candidata independente é a ‘mãe’ da concessão do estacionamento tarifado em quase toda a cidade, contratada por 40 anos e fortemente penalizadora para os setubalenses, e ficou conhecida por manter os impostos municipais no máximo permitido por lei. Tem agora a vantagem ou a desvantagem – não se consegue perceber – de ser apoiada pelo PSD. A estrutura nacional do partido ama-a e a estrutura local odeia-a, tem protestado e promete não fazer campanha.
A antiga presidente está a ser investigada por suspeitas de uso indevido de cartões de crédito da autarquia e recebimento abusivo de ajudas de custo, mas diz que tudo não passa de perseguição por parte dos adversários políticos.
A cisão entre comunistas, com a possível divisão de votos entre a candidatura da CDU e a lista de Dores Meira, pode, teoricamente, melhorar as hipóteses dos socialistas. Fernando José, além de ser candidato pela segunda-vez, tem tido uma campanha forte, em meios e em mensagem. O PS tem destacado propostas concretas para o território e procurado mobilizar eleitores de outros quadrantes. Conseguiu mobilizar independentes e nomes de outros partidos, como o antigo comunista e autarca de Setúbal e Palmela, Carlos Sousa, que é agora mandatário da candidatura socialista.
Perante estas opções, o que se pensa é que qualquer uma destas três forças pode vencer as eleições, no entanto há já uma área em que todas as candidaturas poderiam fazer muito melhor.
A ambição de fazer de Setúbal a capital, assumida e combativa, da mais nova região “administrativa” do país não é visível no discurso dos candidatos. A criação da Comunidade Intermunicipal (CIM) de Setúbal, órgão político e administrativo da nova Nomenclatura de Unidade Territorial (NUT) 2 tem estado ausente do debate político, como se esta não fosse urgente e a mais relevante transformação com que o concelho e a região se vão confrontar no futuro próximo.
Como NUT 2, a Península de Setúbal é a região mais promissora do país em expectativas de crescimento do financiamento comunitário e do investimento público e privado.
Lamentavelmente, nenhum dos candidatos tem dado a este tema a devida importância, numa linha que, aliás, continua um alheamento colectivo antigo. A Península de Setúbal perdeu o estatuto de NUT 3 sem que os agentes políticos locais contestassem verdadeiramente a decisão, do governo de Passos Coelho, em 2013, e a passividade manteve-se durante quase uma década. Enquanto presidente da câmara capital da região, Dores Meira era “alérgica” a este tema. Não gostava de apresentar a Península de Setúbal como uma região pobre pelo que nunca liderou esta causa.
Esperemos que com o novo mandato autárquico, que coincide com o arranque da futura CIM Setúbal, o município se assuma novamente como a capital da região e lidere um novo ciclo de desenvolvimento regional.
Francisco Alves Rito é diretor do diário O SETUBALENSE. Consulte o site do jornal aqui.