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Diretor de Assuntos Públicos na ALL Comunicação e ex-adjunto nos Governos de António Costa

PS: não basta ganhar, é preciso ter uma história para contar

2 out 2025, 13:19

O Partido Socialista chega às autárquicas de 12 de outubro em estado de sobrevivência. Não há volta a dar: depois de uma dupla derrota legislativa em 2024 e 2025 – esta última a mais humilhante da sua história, atrás da AD e do Chega – o PS precisa desesperadamente de um balão de oxigénio. Disso e de uma narrativa que permita evitar a depressão. Não basta ganhar mais câmaras. O PS tem de ter um resultado que permita começar a contar uma história de superação – ou, pelo menos, de recuperação.

Atualmente, o PS tem vantagem no mapa autárquico. Tem mais 34 câmaras do que o PSD. E, embora tenha municípios de peso, a contabilidade pode ser enganadora. Para os grandes partidos, ganhar Sintra ou Gaia não compensa uma derrota em Lisboa. Em política, os números contam, mas contam menos do que as histórias que permitem contar. E é sobretudo desta segunda parte que José Luís Carneiro precisa para poder contrariar a narrativa de que o partido caminha para a irrelevância – expressão usada, aliás, pelo próprio Primeiro-Ministro no debate quinzenal da semana passada.

Em resumo: o PS precisa de sair da noite eleitoral com uma história que não seja a de um partido em lenta agonia, destinado a acabar esmagado pelo dilema de ser engolido por um abraço de urso da direita tradicional ou responsabilizado por empurrá-la para os braços da outra direita, mais extremada e populista. Esta atrofia identitária, que tem paralisado o PS desde maio, tem de ficar enterrada definitivamente no dia 12 de outubro, sob pena de se tornar uma profecia autorrealizável.

O problema é que o PS vem de um ciclo de derrotas consecutivas, interrompido apenas pelas europeias de 2024, que foi uma vitória circunstancial de uma boa cabeça de lista perante um adversário estreante nas lides políticas e um Chega em mínimos. A verdade é que a ressaca da maioria absoluta está a ser brutal: o partido caiu para terceira força no Parlamento, perdeu a liderança da oposição e está a atravessar um período de convalescença enquanto Portugal se confronta pela primeira vez com um sistema tripartido.

A tarefa de Carneiro não tem sido – nem será – nada fácil. Chegou a Secretário-Geral sem oponentes internos. Não ganhou o partido por força, mas por falta de alternativas – ou, dirão os mais céticos, por falta de disponibilidade (ou coragem) dos seus adversários internos. Ninguém, senão ele, quis segurar o partido no seu pior momento. Tal como aconteceu nas ressacas de momentos difíceis com António José Seguro em 2011 e, em parte, com Almeida Santos em 1985, José Luís terá de fazer a parte mais difícil do caminho sem o glamour do poder ou a aura de líder nato.

Por tudo isto, estas autárquicas não são apenas sobre a conquista de câmaras. São também sobre a sobrevivência do sistema como o conhecemos. Se o PS perder algumas das grandes que hoje detém – como Gaia, Sintra ou Almada – e não ganhar nenhuma autarquia de peso, pode até ficar em primeiro no somatório nacional que a noite eleitoral será de derrota. Ao contrário, se conquistar alguns dos grandes concelhos ou capitais de distrito ao PSD – Lisboa, Porto, Braga, Coimbra ou Faro –, pode salvar a noite e começar a escrever a narrativa de resistência.

É isto que estará em jogo para os socialistas: ou o PS sai das autárquicas com uma história para contar, ou arrisca-se a entrar num círculo vicioso de declínio. Até porque, logo a seguir, será tempo das eleições presidenciais – que o partido não ganha há duas décadas, podendo ficar arredado de Belém por mais cinco anos.

Por isso, se nestas eleições autárquicas não encontrar essa história, o PS corre mesmo o risco de deixar de ser protagonista do sistema político. E isso, com a atual tripartidarização do regime, não é muito diferente de ser um mero figurante.

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