As eleições ganham-se nas urnas, não em artigos de opinião. O que podemos fazer, no entanto, é mapear as questões, as nuances e as influências que moldam os atos eleitorais. E isso é muito mais importante do que correr atrás da bola de cristal
Viana sem o outro lado do espelho
Viana do Castelo é uma cidade de espelhos partidos: envelhecimento acentuado nas freguesias rurais, saída contínua de jovens, pressão imobiliária no centro histórico e bairros sociais onde a habitação e a insegurança dominam as prioridades. Ainda há pouco mais de um mês foi noticiado que só existe um carro-patrulha e dois agentes da PSP disponíveis durante o período noturno, e a população sente uma contínua guetificação da malha urbana, com divisões cada vez mais marcadas entre ricos e pobres - um enorme retrocesso em si mesmo. Ao mesmo tempo, a capital de distrito tornou-se demasiado cara para quem pouco tem e demasiado pequena para segurar os jovens que procuram futuro noutros lugares.
O eleitorado é, além disso, fragmentado: mais fiel e estável nos meios rurais; mais volátil e reivindicativo nos subúrbios e periferias - se esses termos se podem aplicar inteiramente a uma cidade e concelho que, embora capital de distrito, é relativamente pequeno. Ainda assim, a geografia eleitoral dá um dado relevante: nas autárquicas de 2017 e 2021, em Viana do Castelo, a participação eleitoral foi sistematicamente mais baixa na zona urbana (Santa Maria Maior, Monserrate e Meadela), rondando os 50-51%, do que nas freguesias não urbanas, onde a afluência às urnas foi mais elevada, variando entre 57% e 58%.
Um distrito com vários campeonatos
Alargando o olhar ao distrito, é possível identificar quatro campeonatos diferentes:
- Campeonato Alemão: No futebol diz-se que “são 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha”. Em Paredes de Coura, Ponte de Lima, Monção e Arcos de Valdevez o mote é semelhante. São concelhos de menor volatilidade, onde dificilmente se esperam grandes surpresas - e, a acontecer, seriam verdadeiros terramotos sociológicos. A tradição partidária e a solidez das lideranças locais funcionam como garantias de continuidade.
- Campeonato dos politólogos: Melgaço, Valença e Vila Nova de Cerveira são casos a observar com atenção, pelo menos para os “nerds” da política. A razão resume-se numa palavra: Chega. Nas últimas legislativas, Valença e Cerveira registaram votações expressivas neste partido, o que levanta a dúvida sobre a sua capacidade de transformar esse capital em mandatos autárquicos. Todos estes concelhos têm executivos PS, pelo que os resultados poderão ser um teste à resistência socialista em zonas de fronteira. O mesmo se aplica a Melgaço - o único concelho afetado, nestas eleições, pela lei da limitação de mandatos. Mais do que uma mudança de cor política, Melgaço destaca-se por ter como candidato, pelo Chega, Diogo Pacheco de Amorim, frequentemente visto como um dos mais influentes ideólogos do partido.
- Campeonato João Pinto: “Prognósticos só no fim do jogo”, disse o craque português. Caminha e Ponte da Barca são os mais permeáveis a surpresas. Em Caminha, realizam-se as primeiras autárquicas após a saída polémica de Miguel Alves. A dúvida é: será Rui Lage visto como “o miúdo que segurou o barco” ou como o “delfim que carrega o passado do pai”? Já em Ponte da Barca, depois do período de nojo legal, assiste-se a um confronto entre o atual presidente da câmara e o seu antecessor - um possível ajuste de contas, ainda mais com notícias de buscas recentes à sede da autarquia.
- A “final” distrital: Viana do Castelo, a capital, é o palco principal. É aí que se jogam as questões estruturais, onde o tabuleiro é um campo aberto e onde partidos ainda minoritários - PCP/CDU ou Chega - podem influenciar, e muito, o resultado final.
Um caminho até às urnas
Quando forem votar, o que passará pela cabeça dos eleitores do concelho de Viana? Quais serão as suas dúvidas e dilemas? Há uma certeza: não serão, em grande medida, as grandes opções ideológicas. A realidade é mais prosaica.
Uma delas será certamente sobre se o “clientelismo” continua a ser positivo ou se já resvala para “absolutismo”. Num concelho pequeno, onde toda a gente se conhece, o município não é simplesmente um árbitro neutro - e isto tem de ser visto, dentro de certos limites, com naturalidade e sem grandes pudores. Apesar das denúncias de favoritismos e do ressentimento face a um alegado “autoritarismo autárquico” - críticas abraçadas quase umbilicalmente pelo candidato do PSD/CDS, Paulo de Morais, habituado a mergulhar nestes temas -, resta saber se os apelos à justiça pesarão mais do que “o primo que trabalha na câmara e que me facilita umas coisas lá dentro”. Muitos eleitores com quem contactei nos últimos dias falam em “males menores” contra “saltos no escuro” e parecem mais seguros do que não querem fazer do que da escolha que irão tomar.
Outro fator é a cor partidária do governo central. Nas últimas autárquicas, houve quem afirmasse que o Partido Socialista beneficiou de estar alinhado com o executivo em Lisboa, sendo percecionado como mais capaz de garantir fundos europeus e investimentos, numa altura em que o PRR era o tema central e a maioria absoluta socialista estava prestes a chegar. Entretanto, muita coisa mudou. Os munícipes sabem que, com uma autarquia distante dos centros de decisão, com orçamento reduzido e com a sua saúde financeira em causa, pode não ser desinteressante ter alguém nos Paços do Concelho cuja chamada para um ministro ou secretário de Estado seja atendida à primeira.
Se houver mudança de cor partidária, será a primeira desde 1993, quando o PS, liderado por Defensor Moura - que chegou a ser candidato presidencial e que vinha do PRD -, retirou a câmara ao PSD, que a governava desde as primeiras autárquicas. O caso é curioso e mostra como a ideologia é frequentemente secundária nos atos eleitorais. Entre 1992 e 1993, o executivo envolveu-se em polémicas. A mais sonante foi a imperdoável subtração do atributo “do Castelo” ao nome da cidade, que gerou uma enorme revolta social e identitária. Outra polémica foi a liberalização do mercado de retalho, com a abertura do primeiro hipermercado no concelho, que fez temer pelo fim do comércio local. O resultado foi inesperado: o PS ganhou por escassos 200 votos, com um programa que se resumida a “duas folhas de papel”, e que estragou o sonho de uma carreira médica a Defensor Moura. Entre a população, o desfecho foi sintetizado assim: “demos tantos amarelos ao PSD que, sem querer, acabámos por lhes dar um vermelho”. A pergunta é: será que hoje o PSD não vai ganhar a câmara, mas o PS, acaso, a vai perder?
No entanto, há três nuances que podem influenciar resultados apertados.
- Os partidos minoritários: CDU e Chega. Num concelho marcado pela presença sindical nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, um vereador eleito pela coligação de esquerda pode ser o “danoninho” que falta para a governabilidade à esquerda. Mas o candidato da CDU é novo nestas lides e parece pouco carismático, algo que o BE - com um candidato muito presente na cidade - pode aproveitar para conquistar terreno. Já o Chega apresenta Eduardo Teixeira, que nas últimas eleições encabeçava a lista do PSD e que nunca escondeu o sonho de ser presidente da câmara. Apesar de ter perdido várias vezes para o PS e de ter sido desdenhado por Rui Rio - que, em plena arruada nas legislativas, e em direto, disse que a sua ida para o Chega tinha sido “um alívio” porque “há muito que nos queríamos livrar dele e não sabíamos como” , Eduardo Teixeira tem vários contatos ativos na cidade e pode, de tanto ser subestimado, surpreender dando oxigénio à direita numa eventual vitória da AD.
- As tensões sociais localizadas: Em algumas freguesias, investimentos em habitação social, sobretudo dirigidos à comunidade cigana, geraram ressentimento entre a população maioritária, que sente as suas próprias necessidades secundarizadas. Estes “microterritórios de conflito” podem funcionar como verdadeiros swing states dentro do concelho, onde pequenos movimentos de voto se tornam decisivos.
- A influência da comunicação social local: Desde 2021, a autarquia investiu centenas de milhares de euros em dois grupos de comunicação que dominam o distrito - jornais e rádios de maior circulação. Isto suscitou críticas sobre a independência editorial e levantou a questão de saber se a população está realmente informada sobre a verdade da gestão camarária.
O ditado popular é antigo: “O avô junta, o pai gasta, o neto destrói”. Cabe a Luís Nobre - que nem sempre parece herdeiro do carisma do seu avô autárquico e que não goza de um executivo tão eclético como o do seu “pai municipal” - escapar à sina da sabedoria popular.
João Basto é diretor do diário NOTÍCIAS DE VIANA. Consulte o site do jornal aqui.