opinião
Jornalista. Diretor do jornal Notícias de Viana

Nos estaleiros da política: Viana por 200 votos

29 set 2025, 09:00
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As eleições ganham-se nas urnas, não em artigos de opinião. O que podemos fazer, no entanto, é mapear as questões, as nuances e as influências que moldam os atos eleitorais. E isso é muito mais importante do que correr atrás da bola de cristal

Viana sem o outro lado do espelho

Viana do Castelo é uma cidade de espelhos partidos: envelhecimento acentuado nas freguesias rurais, saída contínua de jovens, pressão imobiliária no centro histórico e bairros sociais onde a habitação e a insegurança dominam as prioridades. Ainda há pouco mais de um mês foi noticiado que só existe um carro-patrulha e dois agentes da PSP disponíveis durante o período noturno, e a população sente uma contínua guetificação da malha urbana, com divisões cada vez mais marcadas entre ricos e pobres - um enorme retrocesso em si mesmo. Ao mesmo tempo, a capital de distrito tornou-se demasiado cara para quem pouco tem e demasiado pequena para segurar os jovens que procuram futuro noutros lugares.

O eleitorado é, além disso, fragmentado: mais fiel e estável nos meios rurais; mais volátil e reivindicativo nos subúrbios e periferias - se esses termos se podem aplicar inteiramente a uma cidade e concelho que, embora capital de distrito, é relativamente pequeno. Ainda assim, a geografia eleitoral dá um dado relevante: nas autárquicas de 2017 e 2021, em Viana do Castelo, a participação eleitoral foi sistematicamente mais baixa na zona urbana (Santa Maria Maior, Monserrate e Meadela), rondando os 50-51%, do que nas freguesias não urbanas, onde a afluência às urnas foi mais elevada, variando entre 57% e 58%.

Um distrito com vários campeonatos

Alargando o olhar ao distrito, é possível identificar quatro campeonatos diferentes:

  • Campeonato Alemão: No futebol diz-se que “são 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha”. Em Paredes de Coura, Ponte de Lima, Monção e Arcos de Valdevez o mote é semelhante. São concelhos de menor volatilidade, onde dificilmente se esperam grandes surpresas - e, a acontecer, seriam verdadeiros terramotos sociológicos. A tradição partidária e a solidez das lideranças locais funcionam como garantias de continuidade.
  • Campeonato dos politólogos: Melgaço, Valença e Vila Nova de Cerveira são casos a observar com atenção, pelo menos para os “nerds” da política. A razão resume-se numa palavra: Chega. Nas últimas legislativas, Valença e Cerveira registaram votações expressivas neste partido, o que levanta a dúvida sobre a sua capacidade de transformar esse capital em mandatos autárquicos. Todos estes concelhos têm executivos PS, pelo que os resultados poderão ser um teste à resistência socialista em zonas de fronteira. O mesmo se aplica a Melgaço - o único concelho afetado, nestas eleições, pela lei da limitação de mandatos. Mais do que uma mudança de cor política, Melgaço destaca-se por ter como candidato, pelo Chega, Diogo Pacheco de Amorim, frequentemente visto como um dos mais influentes ideólogos do partido.
  • Campeonato João Pinto: “Prognósticos só no fim do jogo”, disse o craque português. Caminha e Ponte da Barca são os mais permeáveis a surpresas. Em Caminha, realizam-se as primeiras autárquicas após a saída polémica de Miguel Alves. A dúvida é: será Rui Lage visto como “o miúdo que segurou o barco” ou como o “delfim que carrega o passado do pai”? Já em Ponte da Barca, depois do período de nojo legal, assiste-se a um confronto entre o atual presidente da câmara e o seu antecessor - um possível ajuste de contas, ainda mais com notícias de buscas recentes à sede da autarquia.
  • A “final” distrital: Viana do Castelo, a capital, é o palco principal. É aí que se jogam as questões estruturais, onde o tabuleiro é um campo aberto e onde partidos ainda minoritários - PCP/CDU ou Chega - podem influenciar, e muito, o resultado final.

Um caminho até às urnas

Quando forem votar, o que passará pela cabeça dos eleitores do concelho de Viana? Quais serão as suas dúvidas e dilemas? Há uma certeza: não serão, em grande medida, as grandes opções ideológicas. A realidade é mais prosaica.

Uma delas será certamente sobre se o “clientelismo” continua a ser positivo ou se já resvala para “absolutismo”. Num concelho pequeno, onde toda a gente se conhece, o município não é simplesmente um árbitro neutro - e isto tem de ser visto, dentro de certos limites, com naturalidade e sem grandes pudores. Apesar das denúncias de favoritismos e do ressentimento face a um alegado “autoritarismo autárquico” - críticas abraçadas quase umbilicalmente pelo candidato do PSD/CDS, Paulo de Morais, habituado a mergulhar nestes temas -, resta saber se os apelos à justiça pesarão mais do que “o primo que trabalha na câmara e que me facilita umas coisas lá dentro”. Muitos eleitores com quem contactei nos últimos dias falam em “males menores” contra “saltos no escuro” e parecem mais seguros do que não querem fazer do que da escolha que irão tomar.

Outro fator é a cor partidária do governo central. Nas últimas autárquicas, houve quem afirmasse que o Partido Socialista beneficiou de estar alinhado com o executivo em Lisboa, sendo percecionado como mais capaz de garantir fundos europeus e investimentos, numa altura em que o PRR era o tema central e a maioria absoluta socialista estava prestes a chegar. Entretanto, muita coisa mudou. Os munícipes sabem que, com uma autarquia distante dos centros de decisão, com orçamento reduzido e com a sua saúde financeira em causa, pode não ser desinteressante ter alguém nos Paços do Concelho cuja chamada para um ministro ou secretário de Estado seja atendida à primeira.

Se houver mudança de cor partidária, será a primeira desde 1993, quando o PS, liderado por Defensor Moura - que chegou a ser candidato presidencial e que vinha do PRD -, retirou a câmara ao PSD, que a governava desde as primeiras autárquicas. O caso é curioso e mostra como a ideologia é frequentemente secundária nos atos eleitorais. Entre 1992 e 1993, o executivo envolveu-se em polémicas. A mais sonante foi a imperdoável subtração do atributo “do Castelo” ao nome da cidade, que gerou uma enorme revolta social e identitária. Outra polémica foi a liberalização do mercado de retalho, com a abertura do primeiro hipermercado no concelho, que fez temer pelo fim do comércio local. O resultado foi inesperado: o PS ganhou por escassos 200 votos, com um programa que se resumida a “duas folhas de papel”, e que estragou o sonho de uma carreira médica a Defensor Moura. Entre a população, o desfecho foi sintetizado assim: “demos tantos amarelos ao PSD que, sem querer, acabámos por lhes dar um vermelho”. A pergunta é: será que hoje o PSD não vai ganhar a câmara, mas o PS, acaso, a vai perder?

No entanto, há três nuances que podem influenciar resultados apertados.

  1. Os partidos minoritários: CDU e Chega. Num concelho marcado pela presença sindical nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, um vereador eleito pela coligação de esquerda pode ser o “danoninho” que falta para a governabilidade à esquerda. Mas o candidato da CDU é novo nestas lides e parece pouco carismático, algo que o BE - com um candidato muito presente na cidade - pode aproveitar para conquistar terreno. Já o Chega apresenta Eduardo Teixeira, que nas últimas eleições encabeçava a lista do PSD e que nunca escondeu o sonho de ser presidente da câmara. Apesar de ter perdido várias vezes para o PS e de ter sido desdenhado por Rui Rio - que, em plena arruada nas legislativas, e em direto, disse que a sua ida para o Chega tinha sido “um alívio” porque “há muito que nos queríamos livrar dele e não sabíamos como” , Eduardo Teixeira tem vários contatos ativos na cidade e pode, de tanto ser subestimado, surpreender dando oxigénio à direita numa eventual vitória da AD.
  2. As tensões sociais localizadas: Em algumas freguesias, investimentos em habitação social, sobretudo dirigidos à comunidade cigana, geraram ressentimento entre a população maioritária, que sente as suas próprias necessidades secundarizadas. Estes “microterritórios de conflito” podem funcionar como verdadeiros swing states dentro do concelho, onde pequenos movimentos de voto se tornam decisivos.
  3. A influência da comunicação social local: Desde 2021, a autarquia investiu centenas de milhares de euros em dois grupos de comunicação que dominam o distrito - jornais e rádios de maior circulação. Isto suscitou críticas sobre a independência editorial e levantou a questão de saber se a população está realmente informada sobre a verdade da gestão camarária.

O ditado popular é antigo: “O avô junta, o pai gasta, o neto destrói”. Cabe a Luís Nobre - que nem sempre parece herdeiro do carisma do seu avô autárquico e que não goza de um executivo tão eclético como o do seu “pai municipal” - escapar à sina da sabedoria popular.

 

João Basto é diretor do diário NOTÍCIAS DE VIANA. Consulte o site do jornal aqui.

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