Frederico Lucas foi um dos criadores do projeto Novos Povoadores que conseguiu fixar 173 empresas no interior e ajudar cerca de duas mil famílias a migrar de áreas metropolitanas para regiões de baixa densidade populacional. Em entrevista à CNN Portugal, o empreendedor rural conta como o poder local, recorrentemente, funciona como um travão para o desenvolvimento empresarial no interior. Aquilo que os autarcas nos diziam era: “se vocês implementarem isso no meu território os municípios deixam de vir comer à mão”
(CNN Autárquicas 2025) - À mesa de um jantar, Frederico Lucas percebeu que as estratégias para fixar empresas e trabalhadores qualificados no interior estavam a falhar. Tinha então 30 anos e, com dois amigos, fundou o projeto Novos Povoadores, que começou por levar famílias urbanas para Carrazeda de Ansiães e Alfândega da Fé. Quase duas décadas depois, o balanço é de 173 empresas criadas e perto de duas mil famílias apoiadas na mudança da cidade para o campo. No entanto, como admite à CNN Portugal, o projeto nunca conseguiu “mudar a mentalidade do elefante”: “Os autarcas de territórios rurais sabem que, se existir de facto desenvolvimento nos seus territórios, deixam de ter acesso a subsídios e apoios.”
O que o levou a trocar Oeiras por Trancoso e a iniciar o projeto Novos Povoadores?
Esteve relacionado com um processo de separação: a mãe dos meus filhos arranjou emprego em Trancoso e para não obrigar as crianças a viagens diárias em transportes públicos, mudei-me também. No caso da Ana Linhares, outra cofundadora, foi pela relação conjugal com o outro cofundador, Alexandre Ferraz, que já vivia em Trancoso e trabalhava na Associação de Desenvolvimento Local. Conhecemo-nos depois num evento da ANIMAR.
Como nasceu a ideia de criar os Novos Povoadores?
Em novembro de 2005 jantei pela primeira vez com o Alexandre, fora do contexto profissional. Nesse encontro percebemos que, embora todos estivéssemos envolvidos em estratégias de desenvolvimento regional, isoladamente elas não estavam a produzir resultados. O Alexandre, então ligado à abordagem LEADER (financiamento de pequenos negócios em territórios periféricos), sentia que estava a criar “novos dependentes”: apoiava-se a abertura de uma pastelaria, mas quando avariava a câmara frigorífica ou era preciso substituir a esplanada, sem novo apoio o negócio não seguia. Surgiam empresários dependentes dos fundos comunitários, tal como há dependentes do rendimento mínimo. Da minha parte, ligado a infraestruturas de transporte e a outros projetos de desenvolvimento regional, acreditava que bastaria construir autoestradas: com melhor acessibilidade num raio de 30–40 km, um padeiro teria mais clientes. Mas isso não aconteceu: foram feitas muitas estradas naquela região e as empresas continuaram a faturar o mesmo — talvez com custos menores, mas sem mudanças significativas no tecido empresarial. Em suma, os acessos não resolviam o problema; e, como o Alexandre via, as empresas apoiadas num quadro comunitário precisavam do seguinte para se renovar, porque não geravam receitas suficientes para manter as novas estruturas. Foi desta constatação que nasceu a ideia.
Ou seja, os apoios não conseguiam servir de rampa de lançamento.
Não gerava uma ignição. Sem a injeção contínua de capital, os negócios morriam e, no fundo, nunca deixavam de estar ligados ao oxigénio dos fundos. A Ana Linhares trazia uma experiência de Barcelos: antes dos fundos comunitários, a aldeia unia-se para construir um ATL — cada pessoa marcava férias e contribuía conforme o seu ofício (pedreiro, carpinteiro, pintor, etc.). Com a chegada dos fundos, instalou-se uma grande disputa para ver quem geria o milhão de euros para o infantário. Ou seja, o dinheiro, em vez de consolidar o território, produziu o efeito inverso: colocou vizinhos uns contra os outros e criou incentivos para quem controlasse a verba beneficiar dela.
E, nesse jantar, chegaram à conclusão de que eram precisas novas estratégias para fixar empresas no interior?
O que percebemos foi que não falta dinheiro ao território rural. O dinheiro chega através de estradas, chega através de apoios aos negócios locais, portanto, não é uma questão de dinheiro, tal como é defendido por todos os autarcas — que insistem que precisamos de mais apoio de Lisboa e de Bruxelas — o problema não era um problema de dinheiro, era um problema de estratégias erradas.
Qual foi a vossa abordagem?
Tentar que famílias urbanas que na altura já podiam trabalhar online — enfim, sendo que estávamos nos primórdios do online — pudessem vir para estes territórios desenvolver ou negócios locais ou trazer os seus negócios, que não dependiam de uma localização, para os territórios rurais. O objetivo inicial era apoiarmos essas famílias.
Como correu esse primeiro teste-piloto?
Começámos com um financiamento da Fundação EDP. Na altura, estava em construção a Barragem do Baixo Sabor e a Barragem do Tua. E, como muitos daqueles territórios agrícolas iriam ser alagados, muita gente iria ficar sem trabalho. E, portanto, a empresa tinha um programa para dinamizar esses territórios e minimizar os impactos da instalação dessas barragens. Assim, o desafio que nos fizeram na altura foi: nós neste território temos esta responsabilidade e, portanto, se vocês quiserem nós apoiamos a vossa organização a fazer aqui um piloto para testarem a vossa abordagem. E, portanto, começámos o nosso projeto em Carrazeda de Ansiães e em Alfândega da Fé.
Que avaliação faz desse teste hoje, passados quase 20 anos?
Hoje tenho 50 anos, na altura tinha 30. Olho com carinho numa lógica de “era tão inocente”. Acho que éramos, na prática, três jovens muito bem-intencionados que acreditavam muito naquilo que estavam a defender, mas que estavam a lutar contra um elefante. E não tivemos a capacidade de mudar a mentalidade do elefante. O elefante tinha uma força que a nossa organização nunca teve e, portanto, nunca nos foi possível, intervir de forma real na mudança de mentalidade na altura.
O que é o “elefante” de que fala? Mentalidade? Burocracia?
Não, o elefante é real, existe, e estamos a falar de um princípio que é: os autarcas de territórios rurais sabem que se existir, de facto, desenvolvimento nos seus territórios eles deixam de ter acesso a subsídios e a apoios. Portanto, porque os apoios que existem para os territórios periféricos estão dependentes do seu nível de subdesenvolvimento. Se houver objetivamente desenvolvimento nesses territórios deixa de haver subsídios, deixa de haver dinheiro gerido pela parte pública. Passa a existir pela parte privada porque é um negócio que se gera. Deixam de ser os autarcas a gerir esse dinheiro.
E acabaram por esbarrar nesse círculo vicioso?
Claramente, sim, claramente. Aquilo que os autarcas nos diziam era: “se vocês implementarem isso no meu território os municípios deixam de vir comer à mão”. Esta é a mentalidade que ainda hoje perdura.
No pós-pandemia o número de famílias que se inscreveram no projeto aumentou 500%. A que se deveu esse sucesso?
Deveu-se ao facto de as pessoas que tinham capacidade de empreender e até de ser melhor remuneradas poderem viver fora das áreas metropolitanas. Mas este conceito, que para nós era óbvio e que, na prática, só se implementou nessa altura, em 2009, quando tornámos público o projeto, o impacto foi praticamente residual.
Ao mesmo tempo, o Governo, em 2020, lançou o programa “Trabalhar no Interior”. Isso ajudou-vos de alguma forma?
A nossa perspetiva era uma perspetiva de criação de próprio emprego. Não era uma perspetiva de trabalhar no interior para as empresas que já existem e que agora decidiram vir para o interior. Agora, há uma coisa que sentimos que é o facto de um projeto social como o nosso foi transformado em política pública e isto é o que acontece a todos os projetos de sucesso de empreendedorismo social. Infelizmente não sentimos esse sucesso na pele. Mas o Governo o que fez foi pegar naquilo que sabiam, daquilo que viram relativamente à nossa atividade, adaptaram, tinham obviamente recursos que nós jamais teríamos, e implementaram. Também, a partir daí, a nossa atividade ficou esvaziada.
Que setores acabaram por ter mais sucesso com os Novos Povoadores?
Claramente tudo o que eram atividades que se poderiam fazer online. A nossa primeira migrante era da área da contabilidade e a empresa continuou a crescer. Também na arquitetura, nalguns serviços de engenharia. Na generalidade o primeiro grupo foi composto por serviços que não estavam dependentes de uma localização específica. O segundo grupo foi — e aqui com menos intensidade para a nossa tristeza — o grupo de empresas que iam trabalhar produtos locais, que iam transformá-los e que iam, no fundo, criar valor e emprego com base em produtos locais.
Essa dificuldade surgiu por existir falta de consumidores locais?
Tivemos uma situação dessas em Portalegre. Era uma empresária esteticista que montou um ateliê no município e aquilo que percebemos na altura foi que levou para lá um conjunto de serviços que ainda não existiam na cidade. Mas hoje tem 15 ou 20 concorrentes. Porque, entretanto, se ela está a ganhar dinheiro a fazer aquilo, então aparecem mais 15 empresárias a fazer igual. Mas acho que vivemos um momento em que a economia está muito mais globalizada e, portanto, não são os negócios que dependem da economia local que estão a crescer.
Essa realidade pode mudar com o setor do turismo?
Sabemos que o turismo pode funcionar como alavanca para captar pessoas para os territórios que as pessoas visitam. Porque, enquanto as pessoas forem turistas, são apenas turistas, não são residentes e, portanto, não contam com o negócio local. Portanto, são pessoas que vão lá comprar e vão-se embora a seguir. Mas aquilo que temos observado em alguns territórios é que o sucesso que eles estão a ter no turismo está a trazer novos residentes. Isto acontece, de forma mais clara, nos Açores e acontece no Douro. E, claro, no Algarve. Essa abordagem é certa e certeira, porque essas regiões estão unidas neste desígnio de bem receber.
E falta esse desígnio ao interior?
Não, porque, quando estamos a trabalhar turismo de autenticidade, aquilo que sabemos é que, quando ele representa mais do que 15% do PIB local, corremos o risco de transformar aquele território numa EuroDisney, levando a que tudo esteja organizado para o turista. E aquilo que sabemos hoje, nos territórios de baixa densidade, que são os territórios que, de facto, têm menos economia, os 15% já lá estão. Portanto, ou vão aparecer negócios que têm a capacidade de criar alguma riqueza local, ou, se o turismo continuar a crescer, há o risco real de, de facto, de criarmos várias Eurodisney em Portugal e perder a autenticidade. Na prática, o que estou a dizer é que falta o resto da economia. Porque se esta barreira for ultrapassada, o que vai acontecer é que as pessoas já não querem saber da economia local, só querem trabalhar para o turista. E, portanto, se o turista o que quer comer é batatas fritas com ketchup, é isso que passa a ser a gastronomia local.
Qual é hoje a principal barreira à fixação de empresas no interior?
Falta estratégia. Quando lemos os programas eleitorais para as autárquicas, encontramos coisas que nada têm a ver com aquilo que o território verdadeiramente precisa. Quando lemos ‘ampliação da área industrial’, o que é que vamos encontrar? Pavilhões pensados, se calhar, para a logística em territórios relativamente periféricos que ficam longe de tudo e há poucas empresas que conseguem tirar partido deles. Depois, lemos, por exemplo, subsídios à natalidade. Ora, nos territórios rurais o PIB per capita por trabalhador é, em geral, miserável. Não precisamos de pessoas que venham atrás de 1.000, 5.000 ou 10.000 euros para ter uma criança; precisamos de empresários que criem empresas com rentabilidade na ordem dos 60 mil euros por trabalhador. Há casos — como uma empresa de reciclagem na Serra da Estrela — que já atingem 50 e tal mil euros. Com negócios destes, os salários sobem para 25–30 mil euros anuais. É esse o tipo de empresas e empresários que precisamos de captar para o meio rural.
As linhas de financiamento atuais — como os apoios a fundo perdido para empresas em zonas de baixa densidade populacional — funcionam?
Não tem o efeito pretendido. Por exemplo, o Turismo de Portugal acabou com o fundo perdido “puro e duro” na maioria dos casos. Privilegia financiamento a custo zero e prémios por resultados — só há fundo perdido se as metas forem cumpridas. Este instrumento só faz sentido em situações de emergência social, para desempregados que precisam de arrancar sem risco de dívida; de resto, não faz sentido.
O projeto acabou por fixar 173 empresas no interior. Ao longo dos anos, sentiu que o poder local ficou mais bem preparado para essa mudança?
Não. O poder local está preparado para receber pessoas que aceitam qualquer coisa. Isto é, temos visto em algumas regiões, na Beira Baixa, na Costa Alentejana, trabalhadores nomeadamente asiáticos que chegam e as condições que lhes deram são as que são suficientes e mesmo assim, muitas vezes, infelizmente, são melhores do que aquelas que eles tinham. De alguma forma, o poder local ainda tem muito essa lógica que é acolhermos pessoas que vêm de situações muito desfavorecidas. Agora, se pensarmos num empresário que tem capacidade de criar 10 ou 15 postos de trabalho bem remunerados, eu acho que o território não está minimamente preparado para essa realidade. E de facto os exemplos que existem ainda são poucos.
Contribui para isso o facto de o Estado muitas vezes ir buscar trabalhadores qualificados a essas empresas?
Sim e isso acontece porque o Estado consegue dar uma estabilidade que os privados não dão. Imagine que trabalha para uma empresa de conservas, em que ganha bem, mas tem objetivos mensais para cumprir. Não cumpre, fica na iminência de perder o posto de trabalho, porque vai entrar outro com a mesma responsabilidade. Ao lado temos uma empresa municipal que não paga o mesmo, mas quer a pessoa trabalhe, quer não trabalhe, quer esteja o mês inteiro de baixa, quer não esteja, aquele salário é seguro e dificilmente será dispensado. A pessoa acaba por escolher o setor público. São recursos humanos que podiam estar no território, qualificados, mas que na primeira oportunidade passam do privado para o público.
E a pressão habitacional está também a dificultar a fixação de empresas no interior?
Cada vez mais. Antes era mais fácil, a pessoa quando chegava ao território havia sempre alguém que dizia ‘olhe, eu tenho um familiar que está em França, que já não vai regressar e se quiser eu vendo-lhe a casa por 25 mil euros’, por exemplo. Isto era uma coisa que me aconteceu várias vezes, ou então casas que estavam de facto em situação muito precária e que precisavam de obras e que eram quase oferecidas. Hoje começa-se a notar, do litoral para o interior, uma pressão muito grande para essas casas. Vou-lhe dar o dado que me impressiona mais, que é o da Ilha do Pico, onde neste momento qualquer ruína já vale 200 mil euros. Há uma procura nova que está a pôr em causa a economia que existia das famílias, que com um salário de 1.200 euros, mesmo que fossem brutos, lhes permitia ter uma vida bastante confortável.
O “sonho” de se mudar para o interior com uma casa grande e vida pacata ainda é real?
Já não é tão verdade. Temos mais pessoas que compram palheiros e fazem uma casa confortável, mas que tem 50 metros quadrados. E ainda vivem aquela ideia de, ok, estou aqui, portanto, tenho uma empresa que me permite ter um rendimento médio de 1.500 euros e da casa gastei no máximo 50 ou 60, isto dá-me 300 ou 400 euros por mês de renda e fiz o empréstimo a 15 anos. Isto já não acontece com casas e com moradias, acontece apenas quando são os próprios a meter as mãos à obra e, aliás, o Youtube está carregado de exemplos desses, de pessoas que compram uma ruína e metem mãos à obra, compram a ruína por 15 ou 20 mil euros, depois gastam mais 30 ou 40 mil em materiais e, no final, conseguem, de facto, viver esse sonho. Mas, neste momento, já é preciso fazer muito cimento para conseguir viver esse sonho, porque se não, a casa, em causa, já não custa 50 ou 60, já custa 200 mil.
Como imagina o interior de Portugal daqui a 10–15 anos, se as tendências atuais continuarem?
Olhe, vamos ter a Comporta a entrar pelo país adentro. Isso, para mim, é mais ou menos pacífico que vai acontecer. Vamos ter um modelo de Comporta a entrar pelo país adentro. Em que, se uma pessoa quiser comprar uma casa mais tradicional e, porventura, até mais antigas, que existem nos territórios periféricos, tem de ter um milhão de euros na conta para chegar lá. Vamos acabar por ser, como diria o Álvaro Santos Pereira, o futuro governador do Banco de Portugal, a Flórida da Europa, com tudo o que tem de bom e mau.