Legislativas e Autárquicas não são a mesma coisa e os eleitores votam de forma diferente. Agora pode não ser bem assim
O que vou escrever de seguida já não será uma novidade: nestas eleições Autárquicas há um novo fator a ter em conta - o efeito Chega.
E este novo fator terá de ser tido em conta em especial no Algarve, onde o partido de André Ventura se afirmou, nas recentes eleições Legislativas, como o mais votado, ganhando em 11 dos 16 concelhos algarvios e elegendo quatro dos nove deputados possíveis.
Dir-se-á que Legislativas e Autárquicas não são a mesma coisa e que os eleitores, nestas últimas, votam sobretudo nas pessoas e nos projetos. Tem sido assim até agora, mas duvido que este cenário se mantenha.
É preciso ter em conta que o Chega colhe os seus votos sobretudo entre as pessoas que se sentem abandonadas pelo poder. E isso é reforçado no Algarve, região que é vista, de fora, como um paraíso, mas que só o é para quem não vive cá. Para os algarvios, é um inferno: temos a mais baixa média de salários do país, a mais alta taxa de abandono escolar, as rendas de casa mais altas, emprego precário e sazonal, nível de vida cada vez mais caro. Há ainda outras questões apercebidas por muitos algarvios como um problema - ainda que o não sejam - como os imigrantes e a segurança.
Por isso tudo, e porque, em alguns concelhos, se está a chegar ao fim de ciclos políticos, poderá haver mudanças. Nos concelhos de Faro, Portimão, Loulé, Olhão, Silves e Castro Marim, os presidentes a eleger serão necessariamente outros (em relação às Autárquicas de 2021), ainda que possam continuar os mesmos partidos. Mas, em alguns destes, há a expectativa de mudança total, não só dos nomes, como dos protagonistas.
Os casos mais flagrantes são Faro e Portimão. Mas poderá haver alterações em Olhão e Silves.
E, não fazendo parte do lote dos municípios onde os atuais presidentes terão de ceder lugar a outro devido ao limite de mandatos, a incógnita é muito grande sobre o que acontecerá em Albufeira. A continuação do atual edil, José Carlos Rolo, do PSD, poderá ser posta em causa pela candidatura do PS, mas, sobretudo, pela do partido de André Ventura. A perceção de insegurança - sobretudo causada pelos episódios nas zonas dos bares e pela presença de muitos imigrantes - tem sido aproveitada pelo Chega para capitalizar a simpatia dos albufeirenses.
O Chega, aliás, apostou forte em três concelhos - Faro, Portimão e Albufeira - apresentando como candidatos três dos seus quatro deputados eleitos pelo Algarve.
Na capital algarvia, todos os grandes apostam forte: o PSD (que detém a Câmara, mas agora surge aliado ao CDS e também à IL) apresenta Cristóvão Norte, deputado histórico e conhecido farense, o PS candidata António Miguel Pina, até agora presidente da vizinha Câmara de Olhão e da Comunidade Intermunicipal do Algarve (AMAL), e o Chega apresenta o seu líder parlamentar, Pedro Pinto, que não é da região, nunca cá viveu, mas tem feito um trabalho de sapa minucioso nos últimos anos.
Há, por isso, a expectativa de que o partido de Ventura possa ganhar uma ou mais Câmaras Municipais no Algarve, alterando por completo o cenário autárquico regional.
E, mesmo que não ganhe, poderá tornar algumas Câmaras algarvias completamente ingovernáveis. Na noite de 12 de Outubro, as dúvidas irão dissipar-se.
Elisabete Rodrigues é diretora do SUL INFORMAÇÃO. Consulte o site do jornal aqui.