Há autarquias onde o resultado de 12 de outubro terá peso nacional: são populosos, têm vários candidatos a presidente e há possibilidade de troca de protagonistas. Em Setúbal, Dores Meira é favorita, mas o PS faz figas pela divisão de votos à direita
Setúbal (CNN Autárquicas 2025) - O PSD está seguro da vitória da candidata que apoia, mas o PS acredita numa chance, a de que o crescimento do Chega seja feito à custa da divisão de votos à direita, num município onde também a CDU mantém um peso relevante.
Boletim: quem é quem?
Em Setúbal, concelho que acolhe praticamente 125 mil habitantes, está mesmo tudo em aberto. E um dos cenários prováveis, segundo as sondagens, é este: os comunistas perdem este bastião e arriscam-se a ficar atrás do Chega. Para perceber porquê, vejamos o contexto político, que será determinante.
É Maria das Dores Meira, com uma candidatura independente com o apoio do PSD, quem parece estar em vantagem. Uma sondagem feita para a TVI e CNN Portugal dava-lhe mais de 30% dos votos. E é ela, vença ou não, a principal protagonista desta corrida. Vem com a bagagem carregada de experiência… e de polémicas.
Meira deixou a Câmara de Setúbal em 2021 por ter alcançado o limite de mandatos. Ainda tentou Almada, sem sucesso, perdendo para Inês de Medeiros. Acabaria por se desvincular do PCP. É suspeita de ter feito gastos abusivos com cartões de crédito da autarquia e recebido ajudas de custo indevidas. A Câmara vai enviar para a Polícia Judiciária e para a Inspeção-Geral de Finanças uma auditoria – sugerida pelo PS e que contou com o apoio da CDU - que confirma esse cenário. A visada estranha o ‘timing’ desta divulgação, a semanas das eleições. O caso alimenta também divisões no PSD: se o apoio social-democrata a Meira gera muito desconforto e críticas nas estruturas locais, a nível nacional segue inabalável.
É por demais evidente a rutura entre Meira e André Martins, o atual presidente de Setúbal, que chegou a ser seu vice-presidente. Aos 72 anos, este militante do Partido Ecologista Os Verdes conta com uma longa experiência na autarquia. Com esta cisão comunista, a avaliar pela sondagem referida acima, a CDU arrisca-se a perder outro bastião. Quem pode ficar a ganhar?
O PS, que repete a candidatura de Fernando José, surge no segundo lugar das intenções de voto. E o Chega no terceiro.
É preciso vincar que o partido de André Ventura foi o mais votado neste concelho nas últimas eleições legislativas, o que evidencia uma mudança profunda nas dinâmicas do voto em Setúbal. Mas não é certo se o facto de António Cachaço ser uma segunda escolha, à última da hora, não irá prejudicar o partido nas urnas.
A primeira candidata com o apoio do Chega era Lina Lopes, que abandonou a corrida para se defender daquilo que considerou ser uma campanha “difamatória”. Apesar de não ter clarificado a situação, a antiga deputada do PSD terá sido acusada nas redes sociais por um empresário de ter recebido dinheiro emprestado em troca de favores futuros.
Há ainda que ter em conta estas candidaturas: Iniciativa Liberal com Flávio Lança, Bloco de Esquerda com Daniela Rodrigues, Livre com André Dias, PAN com Mariana Crespo e ADN com Cláudio Fonseca.
Arsenal de campanha
A campanha tem apostado na discussão sobre a atuação de Maria das Dores Meira, para vincar como não se devem comportar os políticos e tentar derrubar a principal adversária. Contudo, os setubalenses querem que a discussão vá além disso.
A começar pela habitação, onde surgem apelos para reforçar a habitação social e promover a reabilitação urbana. Setúbal sente a pressão porque, apesar de distante, continua a estar intimamente ligado a Lisboa. Nos últimos anos, com a pressão imobiliária na capital, muitas famílias procuraram este escape.
E daí também a discussão sobre a mobilidade: com os congestionamentos, as dificuldades em estacionar e em aceder a uma rede de transporte adaptada às necessidades dos movimentos pendulares.
Um dos desafios passa pela criação de postos de trabalho em Setúbal, reduzindo a taxa de desemprego e a desigualdade económica face à Grande Lisboa. A captação de empresas e de apoios públicos, nomeadamente através da saída deste território das NUT II e NUT III da Área Metropolitana de Lisboa, fazem parte da discussão pública.
Por fim, as queixas mais relacionadas com a vida quotidiana na cidade: é preciso contrariar a degradação e abandono do espaço público, investir em mais áreas verdes e responder aos problemas ligados às pragas que têm surgido em zonas próximas ao estuário do Sado.
Currículo de guerra
O passado importa na hora de medir as probabilidades que cada força política tem. Veja como evoluíram as principais forças políticas neste concelho.
Nota: nesta comparação foram apenas tidos em conta os cinco partidos com maior peso eleitoral nas últimas eleições autárquicas, de 2021.