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Se os democratas não reformarem o regime, alguém o mudará por eles

23 set 2025, 10:00

CNN Autárquicas 2025 - Este fim de semana moderei um debate das autárquicas. Não era de nenhuma grande câmara do país, nem sequer de um município de média ou pequena dimensão. Era de uma freguesia com pouco mais de 2500 habitantes do litoral centro do país.

Cinco candidatos (PS, PSD, CDS, CDU e Chega) apresentaram-se perante um auditório cheio de eleitores interessados em conhecer as propostas políticas com que se apresentam a estas eleições. Um bom sintoma, para quem acha que o desinteresse e o afastamento das pessoas em relação à política é cada vez maior. 

Durante mais de duas horas, os candidatos tiveram uma oportunidade única de apresentar a sua visão sobre temas como a saúde, a educação, a ação social, o ordenamento do território, a habitação ou o associativismo, por exemplo. Com maior ou menor dificuldade, alguns conseguiram fazê-lo. Outros, nem por isso. Em alguns casos foi mesmo muito penoso constatar que alguns dos candidatos que se apresentam a estas eleições não têm a menor noção da realidade da freguesia a que se candidatam, não se deram sequer ao trabalho de estudar qualquer dossiê e, evidentemente, não têm qualquer proposta concreta para melhorar a vida das populações. Houve mesmo quem assumisse que não tem qualquer intenção de se tornar presidente de junta. A razão pela qual decidiram aceitar candidatar-se permanecerá, para mim, para sempre, um mistério.

Enquanto decorria o debate e ia ouvindo as respostas atrapalhadas de alguns daqueles candidatos, dava por mim a refletir sobre quem nos representa e sobre as escolhas que nos são colocadas à frente a cada ato eleitoral. O choque de realidade é ainda maior quando puxamos pela memória. Chamar elite a quem nos representa hoje é quase um insulto aos deputados da Constituinte e às lideranças dos grandes partidos na primeira década pós 25 de Abril.

O retrato que vos apresento da campanha para uma pequena junta de freguesia é, na verdade, uma boa metáfora da classe política que temos hoje. É a prova de que os partidos políticos têm cada vez mais dificuldade em encontrar internamente gente capaz, mas perderam, também, capacidade para atrair na sociedade civil quem possa acrescentar valor.

O Chega é o caso mais evidente e mais recente, deste novo normal. O partido começou por ser uma espécie de agremiação de frustrados e renegados de outros partidos, mas o rápido crescimento eleitoral tornou, naturalmente, o recrutamento ainda mais difícil. Salvo honrosas excepções - que as há -, o Chega, ao contrário de outros congéneres europeus, não tem sido, para já, capaz de atrair os melhores da direita em Portugal. Isso é visível em todos os atos eleitorais - por algum motivo André Ventura é candidato a quase tudo -, mas em eleições tão exigentes como as autárquicas, é ainda mais evidente. Por alguma razão o Chega candidata a estas autárquicas mais de metade da sua bancada parlamentar. Quando chegamos às juntas de freguesia, o critério que sobra é, muitas vezes, do primeiro que aparecer à frente. 

Mas desenganem-se os que julgam que o Chega é o único responsável pela deterioração da classe dirigente que está hoje na política. 

A bitola já era baixa e se houve demérito de André Ventura, foi apenas o de a baixar ainda mais, transformando o ressentimento dos que os seguem num slogan político, com evidente sucesso. 

Os sinais estão aí há muito tempo e são muito anteriores ao aparecimento do Chega. O afastamento dos cidadãos da vida política foi-se traduzindo nas elevadas taxas de abstenção, ato eleitoral atrás de ato eleitoral, num claro sinal de alerta aos partidos de que os eleitores já não se sentiam bem representados. Vejam quantos dos chamados dinossauros das autarquias perceberam o que estava a acontecer e decidiram voltar a candidatar-se, anos depois, muitos deles como independentes. 

Os partidos - sobretudo PS e PSD - ignoraram os sintomas, viram a doença agravar-se e, nem agora, que a democracia corre risco de vida, parecem dispostos a agir. Pelo contrário, continuam a alimentar os seus caciques, afastam as vozes incómodas e fecham-se cada vez mais sobre si próprios. Aproveitam o poder enquanto dura, que amanhã outros virão e o problema já não será deles.

Foi esse fechamento, aliado à toxicidade do espaço público, que foi afastando progressivamente gente capaz, com experiência e que via a política como um ato de nobreza. Quem quer hoje ir para a política? Quem está disponível para abdicar da sua carreira, ver a sua vida devassada, a sua família exposta, arriscar ter o Ministério Público à perna e ainda perder dinheiro ao fim do mês? Quem ainda tem algum sentido patriótico e de serviço público - e, felizmente, ainda há alguns -, ou quem só vê a política como uma forma de disfarçar a sua falta de talento e mérito. 

A reforma do sistema político e dos vencimentos dos titulares de cargos políticos é uma urgência nacional. Eu sei que esta opinião está longe de ser consensual, mas é a minha. Já devia ter sido feita há muito tempo, mas embalados pelo populismo e imbuídos da cobardia própria dos fracos, nenhum dos dois partidos que governaram o país - com exceção de Rui Rio, quando liderou o PSD - quis mexer neste temas. Porque isso lhes podia custar o poder. E perder o poder é que não pode ser.

E assim fomos ficando reduzidos a políticos cada vez mais fracos que, naturalmente, só podem produzir fracas políticas. Os problemas do país foram-se arrastando, agravando-se, tornando-se, alguns deles, insustentáveis. Da saúde à educação, passando pela habitação ou pela degradação da justiça, o país está a ficar cada vez mais encostado à parede: se os partidos democráticos não conseguem resolver os problemas, sobrará a extrema-direita populista para fazer o assalto ao poder.

E é aqui que volto ao debate para uma pequena junta de freguesia. Nesse debate, onde estavam representados cinco partidos, quatro dos quais fundadores da nossa democracia, só um tinha lá presente uma comitiva devidamente identificada para apoiar o seu candidato. Só um dos cinco partidos tinha lá presente o candidato à Câmara, que aproveitou, naturalmente, a oportunidade para fazer campanha. Só um partido tinha à porta de um anfiteatro com quase 200 pessoas uma caravana eleitoral. Esse partido era o Chega. PS, PSD, CDU e CDS, quatro partidos fundadores da nossa democracia, não se deram ao trabalho.

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