Sem transportes, com mais custos, para menos público. Os criadores que trabalham fora dos grandes centros - Lisboa e Porto - têm quase todos as mesmas dificuldades. Move-os a vontade de fazer algo diferente, de trabalhar com tempo, poderem viver mais perto da natureza e, quem sabe, tocar os corações de alguns. Só se queixam verdadeiramente da indiferença do Estado central, que insiste em não reconhecer o seu valor
(CNN Autárquicas 2025) - A atriz e encenadora Cátia Terrinca nasceu em Lisboa mas há já mais de dez anos que mora no Alentejo. "Vim de férias, para uma casa da família que estava desabitada, e acabei por querer ficar. Vim para o interior porque me sentia desconfortável em Lisboa, a crise na habitação, os transportes, tudo aquilo estava a afetar-me", recorda. É comum dizer-se que em Lisboa existem mais oportunidades de trabalho, mas a verdade é que a concorrência também é maior. E, no fundo, tudo depende do tipo de trabalho que se quer fazer. "Percebi que talvez algumas das minhas competências fossem mais úteis aqui. Há tantos equipamentos fechados que as pessoas já não os reconhecem como lugares de encontro, de socialização, de perguntas, de pensamento, como os espaços públicos que deveriam ser. E eu senti que poderia fazer alguma coisa para que isso acontecesse."
No Alentejo criou o Um Coletivo e trabalha regularmente com o Centro de Artes e Espetáculo (CAE) de Portalegre Tem sido um percurso com coisas boas e más. Uma das maiores dificuldades de trabalhar num sítio pequeno, diz, é a "municipalização da cultura". Quase tudo o que acontece é programado pela autarquia e existe "a tendência por parte de quem está nos lugares de poder de controlar o trabalho cultural. Não há verdadeira programação cultural, as atividades são mais um braço da campanha política e são sobretudo vistas como entretenimento", lamenta. Além disso, "há muita vontade de utilizar a cultura como veículo do turismo. Tudo o que tem que ver com a gastronomia ou com o cante tem muita promoção. O resto é mais complicado".
Trabalhar afastada dos grandes centros de decisão e do chamado "mundo da cultura", é um desafio diário. "A principal dificuldade é fazer face aos custos de transporte e alojamento sempre que queremos montar um projeto de maior dimensão. Não há tecido artístico e cultural, nestes territórios temos de chamar as pessoas, mas para isso temos de lhes pagar pela deslocação. Este é um conjunto de despesas que é bastante avultado e que nos coloca num pé de desigualdade em relação a companhias que trabalhem em Lisboa, por exemplo", explica a encenadora e fundadora do Um Coletivo.
A isto, Cátia Terrinca acrescenta a dificuldade de transportes noturnos nas cidades: "Os horários dos transportes estão ligados às dinâmicas das escolas, e à noite as pessoas não têm como vir ao teatro a não ser de carro". E, por fim, refere as dificuldades na divulgação: "O interior só é notícia quando acontece alguma tragéida. Como chegar à comunicação social?", pergunta.
"Estamos a trabalhar em territórios de baixa densidade populacional. Mas, quando os projetos são avaliados, são contabilizados os valores absolutos. Para nós, ter as lotações esgotadas durante uma semana é muito bom. Ter 100 pessoas num espetáculo é bom."
"Levamos literalmente a casa às costas"
Estes são problemas que afetam tanto quem trabalha na planície alentejana como quem trabalha nas aldeias da serra no norte do país. Fátima Alçada assumiu em fevereiro de 2024 a direção das Comédias do Minho, uma associação que nasceu em 2003 da colaboração entre os municípios de Melgaço, Monção, Paredes de Coura, Valença e Vila Nova de Cerveira. "É altamente desafiante. O desafio é diário. Existem dificuldades, como é óbvio, mas existe também uma série de possibilidades que as zonas mais centrais não oferecem", começa por dizer.
"As distâncias continuam a ser reais e duras. A ausência de vias de comunicação - e, mais do que isso, de transportes públicos que cheguem às população - é uma enorme dificuldade." Este é, no fundo, o objetivo deste projeto: "Combater o isolamento a que as pessoas estão votadas. As pessoas não têm como se deslocar, por isso criámos a filosofia de ir ter com as pessoas - contrariamos o centralismo, não ficamos pelos pequenas vilas, tentamos ir a todas as aldeias, mesmo às que tenham só 20 pessoas. Levamos literalmente a casa às costas."
"Para nós isso é um custo real, somos obrigados a ter uma frota automóvel para poder realizar a nossa atividade. Fazemos milhares e milhares de quilómetros naqueles territórios, é a única maneira de chegar às pessoas." E isto tem repercussão também na criação. "Como é que os artistas chegam até nós? Ou têm carros ou é preciso pensar numa viagem com vários transbordo, tudo exige um enorme planeamento. São custos muito grandes. O mesmo projeto criativo em Lisboa ou em Paredes de Coura tem custos muito diferentes", explica.
"Não existe sensibilidade para estas questões por parte de quem dirige - politicamente e culturalmente. Os valores dos apoios são os mesmos trabalhando em Porto e em Melgaço, sendo que no Porto podemos fazer mais ações e temos menos custos. Tudo isto tem impactos reais, nomeadamente financeiros, no nosso trabalho", afirma Fátima Alçada. "Por outro lado há uma descoberta permanente, quase um maravilhamento. Isso é altamente estimulante para quem trabalha com as pessoas. As pessoas ainda saem em casa, mesmo com chuva e temperaturas muito baixas. Há menos comodismo. Porque percebem que é importante nós estarmos ali." Num território onde há muito menosoferta, o público valoriza mais aquilo que existe. "Faz-nos sentir que estamos a fazer alguma coisa de bom."
"Ter mais tempo para pensar e pensar de outra forma"
Quando falamos de descentralização cultural um dos primeiros nomes que nos ocorre é o Teatro Viriato, em Viseu, instalado num edifício municipal, mas gerido por uma associação de direito privado, o Centro de Artes do Espetáculo de Viseu, Associação Cultural e Pedagógica (CAEV). Este é um projeto que começou em 1998 e que teve como grande impulsionador o coreógrafo Paulo Ribeiro, que ali se instalou com a sua companhia, transformando a cidade num pólo não só de criação e apresentação mas também de acolhimento de uma programação de excelência, contemporânea, internacional.
O bailarino e coreógrafo António M. Cabrita, que é desde há um ano responsável pela programação do Viriato, acompanhou de perto este projeto "pioneiro", desde logo como membro da Companhia Paulo Ribeiro. Oriundo do Barreiro, com passagem por Lisboa, em 2017 mudou-se definitivamente para Viseu: "Era já o grande pólo cultural do centro. E isso foi determinante para tomarmos a decisão de vir para cá, sabíamos que tínhamos a possibilidade de desenvolver um trabalho com qualidade. E também escolhemos ficar em Viseu muito pela qualidade de vida, queríamos ter uma família, ter mais tempo, poder andar a pé, ter uma relação próxima com a natureza. Era o estilo de vida que procurávamos, que nos permitia ter mais tempo para pensar e pensar de outra forma."
Claro que quando António se mudou para Viseu, com a também bailarina São Castro, já tinham ambos uma carreira consolidada e estar em Viseu permitia-lhes desenvolver os seus próprios projetos. Mas acredita que os jovens têm condições para começar ali a sua carreira - quer porque têm acesso a uma programação muito diversificada, quer porque existem oportunidades para integrarem projetos criativos. Mas António M. Cabrita também sabe que isto é algo que não acontece na maioria das cidades do interior.
Se se contornarem as habituais dificuldades de financiamento - porque fazer cultura com qualidade é caro em qualquer parte do mundo -, as alegrias de estar em Viseu superam largamente os problemas. "Podemos receber as pessoas de uma forma mais humana e mais próxima. Muitos artistas querem vir fazer residência aqui porque sabem que temos qualidade técnica. Portanto, existe esse equilíbrio: têm mais tempo para criar, mas temos o mesmo rigor que se teria em Lisboa. Isso permite-nos receber artistas internacionais", diz o diretor do Viriato.
Em Viseu consegue-se ao mesmo tempo ter artistas estrangeiros e "uma programação muito próxima do território", garante. "Criamos possibilidades em várias áreas - dança, teatro, conferências, ensino. E conseguimos esse equilíbrio, continuar na pequena escala e ter todo o lado humano, a possibilidade de comunicarmos diretamente com as pessoas e termos um feed back."
"Conheço elementos do público pelo nome"
Em Torres Vedras ainda "se sentem muito os ares de Lisboa". De carro a viagem faz-se em 40 minutos, os transportes são frequentes. Tem-se as vantagens de estar fora da capital, mas o peso do afastamento ainda não é avassalador. "As cidades de média dimensão têm a capacidade de proporcionar um bom estilo de vida e de nos conseguirmos concretizar profissionalmente", admite Guilherme Gomes, ator e encenador que há dois anos assumiu a direção artística do Teatro-Cine de Torres Vedras.
Nascido em Viseu, estudou e fez quase todo o seu percurso profissional em Lisboa, mas aceitou o desafio de ir para a "periferia". E não se arrepende: "Fora dos grandes centros o trabalho artístico ganha uma relevância que em cidades como Lisboa está diluída. É possível dialogar com outras atividades, com a educação e com a ação social, e esse trabalho é muito mais visível. Sente-se menos a presença do 'mercado da arte'. Pelo contrário, sentimos que aqui um artista faz a diferença", diz, em jeito de balanço.
Por um lado, "a angariação de apoios é mais difícil" fora dos grandes centros porque se está "afastado das grandes instituições" e há poucos espaços disponíveis, em muitas localidades só há um teatro ou então não há nenhum. Mas, por outro lado, "se é verdade que nas artes há sempre um espírito de solidariedade muito grande, nas pequenas localidades essa solidariedade é mais transversal à sociedade. Pode ser mais fácil arranjar um espaço para trabalhar, não necessariamente um teatro mas um espaço menos convencional. E também se podem fazer várias parcerias e ligações, há muita gente disponível para colaborar e ajudar".
Essa proximidade estende-se também ao público: "Conheço elementos do público pelo nome", conta Guilherme Gomes. "As relações podem ser muito mais intensas. São menos pessoas mas são pequenas comunidades que se vão criando." Guilherme Gomes sente que é o responsável por "tomar conta do único teatro deste território, que tem 80 mil pessoas" e quer chegar a todas elas, é para todas elas que ele trabalha. Mas tão importante quanto a quantidade de pessoas que vai ao teatro "é a intensidade das relações que se estabelecem entre os projetos e as pessoas. Pode ser só uma pessoa mas ter a vida transformada. A relevância não se mede só em números".
"Mesmo dentro da nossa região temos periferias e centros"
Ana Paula Amendoeira, ex-diretora de Cultura do Alentejo, sublinha que na região - a mais extensa e menos povoada do país - "ainda há várias zonas de pobreza, geográfica, financeira, climática, de saúde, de acessos - também à cultura". Para falarmos de cultura, diz, "temos de falar das condições de vida das pessoas, das suas circunstâncias, das várias pobrezas, às vezes extrema, às vezes interior, e, nessas periferias do isolamento, da solidão e da doença, a cultura poderia fazer milagres. E muitas vezes faz, com tão pouco."
"Mesmo dentro da nossa região temos periferias e centros", diz a atual vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Alentejo. E se é verdade que existe um "grande problema de mobilidade inter-concelhia e inter-cidades capitais de distrito" que limita a oferta cultural "para quem não pode ir porque não tem meios de transporte ao seu alcance (e no Alentejo só podemos falar de mobilidade automóvel e essa é muito cara para muitas pessoas)", então é ainda mais importante que se perceba que oferta pode existir nesses locais que não esteja dependente dessas deslocações.
Isto significa não ficar à espera dos artistas que vêm de fora e não centrar toda a política cultural na programação, mas antes, diz, "ter políticas estruturadas que permitam mais financiamento para as bandas filarmónicas, as que ainda existem, para os grupos corais, de cante, das universidades séniores, para a aprendizagem da música, para a prática do teatro, da fotografia, da pintura, da dança, para a compra de fundos bibliográficos atualizados nas bibliotecas, enfim de tudo o que possamos assegurar aos que não têm como ir", explica.
"É claro que há orçamentos grandes no entretenimento na programação cultural de qualidade como os grandes festivais muitos de dimensão internacional", diz Ana Paula Amendoeira, mas isso não chega. "É muito mais relevante neste contexto intervir na micro-escala e no trabalho de proximidade."
"A cultura só pode ser motor de desenvolvimento se conseguirmos trabalhar para chegarmos à democracia cultural em que os cidadãos são senhores dos seus próprios destinos, produzem mesmo a sua própria cultura e têm o sentido crítico que lhe é dado pela educação mas sobretudo pela cultura para pensar e apropriarem-se do mundo no sentido em que sabem o que querem e não apenas querem o que já sabem. Faz toda a diferença e é talvez o mais eficaz meio para a redução das desigualdades."
Senhores políticos, saiam dos gabinetes e vão ver a diversidade do território
"É preciso mais investimento para que haja atividades em continuidade e não apenas coisas pontuais", diz Cátia Terrinca, que gostaria ainda que houvesse em Portalegre um centro de acolhimento para residências artísticas e mais formação de técnicos..
Ana Paula Amendoeira concorda e fala na necessidade de "mais políticas transversais que combatam as desigualdades e que vão para além dos curtos 'subsídios' à cultura". "A articulação de políticas nacionais verdadeiramente promotoras da coesão e da redução das desigualdades que estão infelizmente a crescer são necessárias e a cultura é pilar central para o seu sucesso", defende.
E, já agora, seria importante que quem toma as decisões em Lisboa se lembrasse dos problemas de quem trabalha noutras regiões. "É necessária uma política do Estado central que tenha seriedade sobre os prazos. As grandes instituições trabalham a longo prazo e têm mais recursos, mas aqui nos trabalhamos no curto e médio prazo e temos poucos recursos, não podemos estar dependentes de apoios que chegam meses depois do que estava previsto. Estamos a criar sempre no fio da navalha", diz Cátia Terrinca.
O problema, diz, é que os políticos, até mesmo a nível local, ainda não perceberam bem como a cultura pode ter um papel importante no desenvolvimento da economia e na fixação da população. "Só pensam na cultura como como entretenimento e, que, como tal, não é uma prioridade, vem depois de tudo o resto." Na sua opinião, a cultura é muito importante não só para que os jovens ocupem o seu tempo livre, mas também para que se sintam parte da comunidade e ao mesmo tempo em sintonia com o resto do mundo. "É preciso diversificar a oferta. Queremos ter acesso a tudo, queremos ver os filmes, os espetáculos e os concertos que os outros veem."
"Nas geografias mais afastadas dos centros populacionais (onde há uma grande camada crítica) falta visão política ", queixa-se também Guilherme Gomes. "Há soluções muito simples mas que são transformadoras, como por exemplo apoiar os artistas para criação e captação de financiamento. Os artistas têm de ter condições para trabalhar, que não os tornem dependentes de uma única fonte - que é um risco nestes territórios. Devem ter liberdade para irem ainda mais longe, para trabalhar em mais sítios e chegar ainda a mais públicos."
"Era fundamental que o poder central fosse mesmo aos locais", concorda Fátima Alçada. "Decidir a vida das pessoas em períodos de quatro anos atrás do monitor de um computador, onde tudo parece igual, é dos exercícios mais perigosos para a sociedade. A proximidade com as populações é fundamental", defende. "Existem vários países, muito diferentes, dentro deste país. As assimetrias que existem no país têm de ser consideradas, as decisões devem ser mais atentas e mais sensíveis as estas assimetrias. Temos um país muito interessante e estimulante, com imenso potencial, só temos que aproveitá-lo melhor. É possível fazer melhor. Aproximar as pessoas de outras formas. Há outras formas de viver, é possível ter mais qualidade de vida."
