Dia 9, Abrantes. Olha ali os fardas-azuis

30 set 2025, 07:00
O PAÍS DO MEIO || Dia 9, Abrantes

O PAÍS DO MEIO || Primeiro, o sussurro das naves vazias; depois, a língua de um bairro com nomes de química. Em Alferrarede, um farda-azul de 71 anos senta-me à sombra e devolve a cidade por dentro: benzina doce no nariz, pão com marmelada, colónias, cachopos que aprendiam a nadar e uma chaminé erguida para poupar lençóis. Entre o que ruiu e o que renasce, fica a palavra que amarra esta história: pertença

Abrantes (CNN Autárquicas 2025) - A Nacional 2 desce a cota e o Tejo aparece como quem alarga o peito.

O comboio risca o vale e, do lado de lá dos carris, Alferrarede mostra o que a pele lembra: naves em série, janelas sem vidro, tijolo vermelho a segurar chaminés que não desistem. O portão verde, fechado há anos, tem a verdade escrita a branco, torta e urgente: “Tanta coisa para fazer, e tanta gente sem trabalho.” É a frase de entrada, a legenda da paisagem; trabalha como uma sirene muda, abre-se sozinha cada vez que o vento passa.

A antiga CUF dorme de olhos abertos, metade ruína, metade andaime, como se o tempo hesitasse entre desistir e reparar.

Entro pelo lado onde o arame cedeu ao mato. O chão abre-se numa nave que tem o modo de uma basílica laica: vigas em triângulo a sustentar o telhado, claraboias estilhaçadas, quadrados de luz a pousarem no pó suspenso como quem benze. Há a marca pálida de um quadro elétrico que esteve ali anos. Num gabinete lateral, um tampo de mesa resiste com as quatro pernas tortas. A janela quadrada, suja de décadas, é atravessada por um feixe que explode no pó. À volta, o reboco é mapa: continentes a afastar-se. Os passadores deixaram buracos redondos — bocas por onde a corrente podia entrar — e as calhas no cimento, onde correram cabos e água, traçam as veias do hábito.

Pelas frestas, alinham-se naves gémeas, empena contra empena, tijolo visto a sangrar das ombreiras antigas. O corredor central é uma língua de erva alta a ondular, e os postes de iluminação curvos, com os braços desdentados, parecem homens que desistiram a meio de um gesto. As chaminés de tijolo erguem-se a diferentes alturas — uma inteira, outra com a boca lascada — e trazem ainda os cravos de ferro cravados na pele, degraus para subir ao céu quando o céu se lia pelas cinzas. A luz bate nelas e devolve um calor antigo, de caldeiras e ganga húmida. Há um silvo imaginário que sobe na vertical, como se o último turno não tivesse dado baixa.

A linha do comboio corre colada ao muro. Um sinal metálico, branco, avisa: PROIBIDO CIRCULAR A PÉ PELA LINHA — como se fosse preciso lembrar que a história também tem carris. Olho para os fios e para as roldanas, para a parafernália suspensa que, vista de baixo, parece pauta musical pronta a receber uma melodia que já não vem. Do lado de dentro, um portão de chapa foi varrido pela ferrugem até ao osso; na chapa alguém testou o nome, assinaturas de latas e tardes, o azul de um “RAVE” que agora é sombra.

Volto a entrar por outra boca. A nave seguinte tem o piso cortado por um fosso longo, canal onde deve ter corrido óleo, água, cabos, o corpo líquido do trabalho. Nas paredes nuas, grafitis recentes falam com o passado — um “doce” verde e laranja, desenhado com carinho de quem não quis ferir a ruína. O teto baixo amplifica passos e respirações, e a claraboia esburacada faz cair quadrados de luz como quem marca as horas no chão.

Um cais de carga, revestido a tijolo, conserva a boca de uma porta de chapa ondulada. Imagino ali camiões de costas, motores a diesel, homens de farda-azul a dar voz a gruas e a riso. O tijolo tem manchas que parecem mapas meteorológicos — frentes frias que entraram pelo Oeste e ficaram. No chão, paletes partidas, um pneu gasto a marcar um círculo de silêncio e as sombras das treliças desenhando geometrias que lembram um desenho técnico.

Fico parado a escutar. Nos lugares certos o silêncio tem memória: um assobio curto de apito que não toca, o compasso de botas que já não passam, a respiração metálica de bombas e válvulas como se o coração da fábrica continuasse ligado à corrente, por teimosia.

É um cemitério de indústria e, ao mesmo tempo, um corpo que reaprende a levantar-se. Junto à estação, um prédio grande veste andaime por fora. Chamavam-lhe “a Messe”. Era residência e refeitório quando os engenheiros vinham de fora — Lisboa, Barreiro, margens com fumo e cais — e ficavam por aqui as noites que o trabalho mandava. Quartos simples, toalhas brancas, uma espécie de ruído baixo a horas sem nome. Agora haverá salas e cozinhas onde antes se afinavam contas. A cidade às vezes encontra modos discretos de salvar o que não quer perder.

Volto a subir. O centro de Alferrarede tem trânsito miúdo, cafés com toldos, conversas de passeio. Basta virar “para dentro” para que a pressa se desfaça e o bairro apareça. Junto ao muro, uma placa azul cerâmica diz Avenida da CUF. Não é só topografia: é um modo de dizer que a fábrica não cabe apenas no lado de lá dos carris. O que sobra aqui é mais do que ferro: é léxico, é fuso-horário. A CUF era um relógio que acertava a vila — começava na sirene e acabava no relento de final de turno, com mãos pretas de óleo e um olhar de quem já está em casa antes de entrar. A escola antiga, de frente para o quarteirão, exibe num friso de azulejo o que ninguém se atreveu a tirar: ESCOLA UNIÃO FABRIL. É um resto de solenidade num prédio que já perdeu paciência para pinturas. Imagino o recreio: carteiras de madeira, estojos de lata, o cheiro a pó de giz. Naquele passeio aprendeu-se a ler e a contar para depois se descer a avenida e aplicar; a infância tinha endereço e a fábrica era a continuação da tabuada.

Da Avenida da CUF chega-se à Rua do Azoto. O nome parece piada científica, mas é vocabulário de casa: Azoto, Amoníaco, Hidrogénio — química a dar rua, rua a dar vizinhança. Janelas com vasos, limoeiros pequenos, cadeiras de plástico encostadas às sombras, pão quente a perfumar o fim da manhã. É aqui que mora quem vim ouvir: Carlos Pauleta, farda-azul por dentro, serralheiro de ofício, nascido em 1954.

A cadeira à porta é miradouro e balcão. As mãos pousadas nas coxas, mãos de chave de bocas, calo antigo. “Sempre fui daqui.” O avô atravessou a Primeira Guerra e voltou em 1917 — “homem muito sério”, sabia ler e escrever, “já tinha vivência” — e fez-se encarregado quando, em 1918, a CUF comprou “aos franceses” o lagar e montou ali armazéns. Depois vieram o pai e os tios: “Tudo trabalhou na CUF, do lado da minha mãe e do lado do meu pai.” As mulheres também — “Também. Não eram tantas.” — e a frase que o bairro usa como topografia é curta e serve de mapa: “A gente aqui é quase tudo família.” Cresceu nesse compasso. “A malta conhecia-se toda. Às vezes até combinávamos casamentos.” Havia “engates” — partidas de oficina, maroteiras de serralheiro “sem prejudicar ninguém” — e havia escala: “Tínhamos os encarregados. Havia mão.” Os mais velhos “encostavam a nossa mão ao sítio certo”. “O trabalho saía — e saía direito.”

Ele próprio entrou tarde para os costumes, porque estudou. “Tirei o curso na escola, o curso industrial de serralheiro.” Nasceu em 1954, começou a trabalhar em 1975: “Com 21 anos.” Apanhou Alferrarede na fase da extração de óleos vegetais. O processo cabe-lhe ainda no corpo: abriram “a extração de óleo vegetal — chamávamos semétrico”; as sementes “de girassol e de cártamo” chegavam “de caminhão e pelo comboio”; o tapete levava “para a lavagem”; a benzina — “a gente chamava-lhe hexana” — “sugava o óleo”; “depois separava-se por temperatura”. “Era uma coisa muito simples e muito rentável.” No corpo, nunca é simples. “A benzina subia pelo nariz, um doce enganador… às vezes dava um abanão.” Parava-se um minuto, “uma água fria no pescoço”, e “um colega ficava a vigiar de longe.” A música da fábrica vem-lhe inteira: “o rangido do tapete, o estalar das válvulas, as bombas.” E a ética, curta e certa: chegar, cumprir, voltar. A ambição cresceu, mas “as sementes que esperávamos do Alentejo e Ribatejo não chegaram como era preciso”; “tinha de vir importado, por camião e comboio” — e cada quilómetro começou a pesar na conta.

Ser farda-azul era trabalho — e era estatuto. “A malta da CUF tinha mais qualquer coisita.” Não é bravata; é o reconhecimento miúdo do tratamento por dentro da aldeia fabril: bairro, escola, posto médico, cantina, piscinas, campo de futebol, colónia de férias. “Não havia discriminação: tratavam por igual os filhos de engenheiros e de operários. Dormíamos no mesmo sítio, comíamos o mesmo, vestíamos a mesma farda.” O mapa das férias abre-se em “Colares, ao pé da praia”, e também em Almoçageme: beliches iguais, a democracia dos pijamas, o primeiro espanto que fica de legenda — “o pão com marmelada”. Em casa, a água fazia escola: “Tínhamos uma piscina de 25 metros, boa, feita pelos operários com apoio da empresa. Em 1975 limpámos e abrimos ao público. Toda a gente de Alferrarede aprendeu ali a nadar. Não há nenhum cachopo nessa altura que não aprendeu a nadar aqui.” O salário “não era de luxo”, mas dava para “andar direito”. O orgulho mede-se num objeto prático: “Comprei logo um carro. O 127.” Velho, “quase novo”.

Lá em cima, junto aos plátanos da estação, ficava o chalé onde Alfredo da Silva pernoitava quando aparecia “para controlar”. Tinha varanda, sombra larga, e uma rotina de chefe que punha a aldeia a espreitar: “Vinha de comboio. A carruagem ficava estacionada até ele querer.” Às vezes chegava “bem acompanhado”, “uma francesa muito bonita”, contam-lhe o pai e o avô. Até que “desmancharam” o chalé no princípio dos anos 90. O património, muitas vezes, não se perde num incêndio; gasta-se em silêncio, por cansaço, ou por decisão apressada que não se senta à mesa com a memória. Aqui ficou a clareira, os plátanos e o hábito de olhar para o lado da estação como quem procura um comboio que ainda tivesse permissão para esperar.

A CUF tinha ainda rosto agrícola: “a propriedade piloto”, a Herdade da Parrada. Ali, “em meados dos anos 60”, chegaram as primeiras alfaias e tratores a substituir juntas de bois; iam “rapazes novos que acabavam engenharia”, fazer “campo experimental”. Os nomes saem-lhe devagar, alinhados como ferramentas limpas: “Torres Campos, Júnior Canelas, Júnior Bolão, Júnior Pimenta de Castro.” “Chegou um Deutz… Aquilo era um touro manso. Faziam-se excursões para ver.” Quando a fábrica apertou, o pai ficou na Parrada “como serralheiro nos motorzitos”. A família manteve o óleo nas mãos.

E greves? “Houve. Organizadinhas.” Sem barricada de cinema: cadernos, termos de café, “horários, subsídio de almoço, antiguidade”, as pequenas coisas que endireitam a vida. Fala das comissões com a clareza de quem não precisa de elevar o tom. E guarda uma frase que é biografia inteira e medalha de cortiça: “Trabalhei 44 anos, nunca dei uma baixa e nunca faltei ao serviço.” Faz um intervalo que é quase sorriso: “Só nas greves.”

Pelo meio, a política mínima que protege a vida doméstica. “O pó sujava o bairro.” O avô — “esteve lá… na Flandres” — “foi falar com o patrão”: subir a chaminé “uns metros”, deixar que o vento fizesse o que faltava. “Ficou melhor.” A cidade aprende-se muitas vezes assim: com uma conversa certa no sítio certo e uma obra discreta a levantar o que estava baixo.

Depois veio o pano a desfiar. O fecho não foi estampido; foi um desgaste com data. “Abriu-se esta fábrica em 1975”, com muitos “antigos operários de Alferrarede”; mas “em 1986” a extração fechou. Os porquês alinham-se como contas: “abriram grandes fábricas de óleo no país”, o que se esperava das sementes “não se desenvolveu na escala que era precisa”, o importado “por camião e no comboio” pesou mais, “deixou de dar lucro”. No fundo, o país mexia: “Depois do 25 de Abril… levaram uma pancada”, e a cabeça das empresas mudou de mapa. Em 1988, “fui o último” a rescindir. “Às cinco da tarde” desse dia “vim para casa” sem o dia seguinte dentro do portão. “Fomo-nos preparando.” Não precisou de fundo de desemprego.

Preparar foi escolher travessia. Seguiu para a Caima, em Constância. “Trinta anos de turnos contínuos.” Não adorna, não dramatiza; mostra. “Entrar quando os vizinhos jantam, sair quando o pão ainda vem morno.” O corpo protesta, aprende, protesta outra vez, volta a aprender. Mostra uma marca no dedo — “coisa de serralheiro” — e dá graças sem retórica: “Graças a Deus, os dedos cá estão.” “Nem toda a gente” teve a mesma sorte.

O golpe social foi limpo e fundo. “Era o ganha-pão de toda a gente.” O comércio perdeu fôlego; algumas portas baixaram “e ficaram assim, fechadas.” O concelho foi juntando resposta possível: serrações, fundições, o Tramagal a lembrar a Metalúrgica Duarte Ferreira; parte da antiga Quimigal é hoje TagusValley; “a Universidade… já tem o edifício, infraestruturas.” E a cidade não ficou sozinha: “Os indianos… boa gente, educados, simples.” “Moram aqui no bairro.” Trabalham, “aproveitam tudo”, abrem contas, levam crianças à escola. Há uma frase que escolhe para medir presente e que, por simples, é grande: “Aqui no bairro quase toda a gente tem médico de família.”

Os nomes das ruas guardam a gramática de origem: Azoto, Amoníaco, Hidrogénio — “era o que se fazia na fábrica.” Conta-me outra vez a história da água: a piscina “com 25 metros, boa”, “feita pelos operários com apoio da empresa”, que em 1975 limparam “e abriram ao público”, “toda a gente aprendeu ali a nadar”, e que depois aterrou — “Compraram aquilo, ficou terra.” A “mesa” junto à estação tem hoje andaimes: “Vai ser habitação.” Estranho e justo: onde se afinavam turnos, afinar-se-á a lista de compras; o que foi rotação há de ser rotina. A reutilização tem direito a vigilância — e a bênção discreta de quem gosta de ver uma parede salvar-se.

Falo-lhe do que vi do lado dos carris: “Tanta coisa para fazer, e tanta gente sem trabalho.” Ele encolhe os ombros de quem viveu a frase por dentro. “Era tudo isto, a aldeia toda.” Diz “aldeia” sem pedir desculpa à vila: a CUF foi aldeia dentro de Alferrarede — “bombeiros”, “escola”, “bairro”, a linha a servir pavilhões. E, quando precisa de fazer a ponte com o agora, escolhe a via curta: “Isto é ativo.” Mostra o comércio, os serviços, a autoestrada ao lado, o hospital, a escola superior, a universidade a nascer. “Vai-se andando.” Os salários “são o que são”; as reformas também. A vida aqui tem escola antiga de persistência.

Pergunto-lhe o que fica. Não cita livros: “Ser homem de palavra.” A CUF ensinou-o a medir riscos, a organizar greves “sem gritos”, a pôr “um colega à sombra” quando abanava, a subir chaminés para proteger o bairro. Deu-lhe “o 127” e, quando fechou, “a hipótese” de comprar a casa: “Ficámos. Foi o que segurou o bairro.” Ficar não é o contrário de partir; é outro verbo.

A tarde pede respiradouro. Passam dois vizinhos de boné com sacos de pão, a conversa a meio. Carlos encosta um dedo ao meu braço, aponta com o queixo — não precisa de levantar a voz: “Olha ali os fardas-azuis.” Não é legenda; é reconhecimento. E chega para perceber um país inteiro a partir de uma rua com nome de Azoto.


O País do Meio não é um roteiro, pelo menos não turístico. Esta é uma série de 14 reportagens de Tiago Palma, para ler na CNN Portugal. De Trás-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce a Estrada Nacional 2 e recolhe os retratos — íntimos, sabedores e naturais — de quem é das cidades, ou mais dos lugares, que a EN2 atravessa. Não são histórias de alcatrão, são histórias do caminho, do país real, ouvindo a voz de quem não é notícia — mas é um país, ou faz um país. Na antecâmara das Autárquicas de 2025, o pulso mede-se sem cartazes, sem promessas eleitorais, sem corta-fitas, sem política; o pulso mede-se como mediu Miguel Torga: “Cultivo-me pelos olhos e pelos pés, no alfabetismo íntimo das coisas”.

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O País do Meio

Esta é uma série de 14 reportagens de Tiago Palma, para ler na CNN Portugal. De Trás-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce pela Estrada Nacional 2 e recolhe retratos íntimos de quem é destes lugares

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