Dia 6, Lousã. Que se lixem os eucaliptos

27 set 2025, 07:00
O PAÍS DO MEIO || Dia 6, Lousã

O PAÍS DO MEIO || Agosto chamuscou a serra; desço à Cerdeira, um veado rasga a curva e Kerstin acende barro; em Aigra Nova, Jorge semeia pertença numa maternidade de árvores. Pelo meio, a sombra de Constantino. E sim, que se lixem os eucaliptos

esta é uma série de 14 reportagens de Tiago Palma: de Trás-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce pela Estrada Nacional 2 e recolhe retratos íntimos de quem é destes lugares - veja AQUI as outras reportagens


Lousã (CNN Autárquicas 2025) - A Estrada Nacional 2 amansa ao descer para a Lousã.

E, de súbito, a serra intima-me que curve para um desvio talhado a canivete. “Cerdeira, 1,5 km”, diz a placa castanha. Antes dela, um STOP vermelho, tisnado como quem dormiu dentro do incêndio. As curvas trazem o inventário do verão: galhos encostados aos rails, um cabo derretido a fazer de serpente, folhas que se desfazem em cinza ao primeiro passo. E, no meio disto, a serra permite o irreal: um veado surge do nada, corre na minha direção, as patas a riscar gravilha; atrás dele, um cão de porte médio, decidido, língua de fora. Por um instante é pintura — Delacroix congelaria ali a caça —: um triângulo perfeito entre o STOP, o veado e o cão. Depois, cada figura regressa ao seu papel; o animal dobra a curva, o cão perde o cheiro, eu fico com a imagem e com um nó na garganta que a fuligem ajuda a apertar.

A aldeia só se revela no fim — primeiro a garganta do vale, depois um rasgão de telhados, por fim as lajes de xisto que obrigam o corpo a abrandar. Encostadas a um muro, quatro carriolas — azul, branca, ocre, ferrugenta — como ferramentas de um quotidiano que resiste. Um painel amarelo das Aldeias do Xisto garante que “onde vive a inspiração” não é slogan: à volta, o mosaico brutal do pós-fogo confirma. Tudo ardeu até ao limite das casas. O que não é eucaliptal aguentou mais. O que é eucaliptal deixou no ar um cheiro adocicado e pegajoso.

Vim atrás de uma história que cresceu como silvas: a de Augusto Constantino, homem da Cerdeira, que num verão de 1978 discutiu por causa da água de rega, perdeu o tino por um instante, ergueu o sacho. Três pessoas viviam então na aldeia — ele e duas vizinhas —, quando a emigração e a reflorestação de outrora já tinham evacuado gente e gado destas lombas. Constantino vestiu o seu melhor fato e desceu a pé a montanha para se entregar na GNR. Cumpriu pena e regressou em 1983 a uma Cerdeira de ruínas e ausentes. Viveu mais nove anos, ensinando o que sabia aos que começavam a chegar. Muita gente jura que sofreu o resto dos dias por aquele minuto torto. O cinema veio cá em 1992, acendeu outra luz, chamou-lhe “O Fim do Mundo”. A aldeia preferiu outra luz: a do recomeço. É por isso que hoje há quem me peça, com gentileza firme, para desligar o gravador quando o nome de Constantino entra na conversa. Fica uma frase pousada como mão sobre o ombro: “Era um homem bom, as histórias que dele se contam são injustas.”

No atelier de xisto, um banco corrido encosta-se à janela. À frente, três planos: a copa de uma oliveira, os telhados que insistem, a encosta sarapintada de negro e ferrugem com sobreiros intactos e carvalhos chamuscados a rebentar verde. Às costas, um forno a lenha, tijolo grosso cor do pão, letreiro caligrafado como inscrição de templo. Ao lado, madeira empilhada promete calor e paciência.

Kerstin Thomas — rosto aberto, avental escuro, mãos que aprendem e ensinam — vive aqui há quase quarenta anos. “A aldeia estava deserta quando eu cheguei.” Veio de Coimbra e escolheu a Cerdeira pela natureza e, paradoxalmente, pelo trabalho que o fogo anterior deixara por fazer. “As casas estavam em ruínas. As pessoas não saíram por não gostarem da sua aldeia, saíram para dar estudo aos filhos, para buscar oportunidades.” Hoje, diz-me, vivem aqui nove pessoas em permanência. Ao fim de semana regressam donos de casas, chegam hóspedes, aparecem artistas. “Não estou sozinha. Nunca estive completamente sozinha. É uma comunidade pequena mas é comunidade.”

Falo-lhe do rótulo do isolamento, ela sacode-o com delicadeza: “As aldeias da serra estavam todas ligadas. Não havia esta floresta contínua, eram pastagens. As pessoas passavam constantemente de um lado para o outro, a pé. Havia família entre aldeias, havia terrenos partilhados. Tínhamos um sistema de rega extraordinário. Não viviam mal. E havia muita inteligência prática.” No início, fez quase trabalho etnográfico, recolheu histórias, fotografias, gestos. “Depois comecei a simplificar até ficar com a essência.” Dessa depuração nasceram as “vizinhas”: pequenas figuras de barro — um rosto e uma mão que bastam para dizer que é uma pessoa. “Para mim, ‘humilde’ é elogio. Humilde no trato, essencial, forte. Fortíssima.”

No banco corrido, com a encosta ardida a respirar, falamos de qualidade de vida sem perfumes. “Para mim é silêncio, ar puro, água. E algum domínio sobre o tempo: trabalho mais do que muita gente mas escolho as horas.” A internet fez o resto. “O isolamento ou se procura ou se combate. Eu sempre procurei contrariá-lo: trazer gente, fazer comunidade.” O projeto Cerdeira – Home for Creativity juntou alojamentos a uma escola de artes e ofícios e a residências. “Criámos cursos de dez dias, de cinco, de fim de semana. Cerâmica — com o forno a lenha como coração —, escultura e talha em madeira, cestaria. Trabalhamos muito no espaço exterior.” Na semana anterior celebraram os dez anos do forno com uma cozedura comunitária: 15 ceramistas, barro, conversas, fogo. “Quem fica só um dia não chega a fazer parte. Quem fica uma semana já se torna vizinho.” Pergunto se a serenidade ajuda a criatividade. “Ajuda porque parece que se entra noutro mundo. O GPS diz ‘falta um minuto’ e a pessoa acha que não há nada. E depois percebe que esse aparente isolamento abre qualquer coisa por dentro. Na cidade estamos sempre em defesa: do barulho, da publicidade, da pressa. Aqui ouvimos o riacho, o vento… O que se ouve é a paisagem.”

A paisagem recente é um inventário de cinzas. “Aprendemos que o fogo faz parte deste clima. E que a pior coisa é fugir pela estrada. Em 2017 morreu tanta gente por isso.” Kerstin enumera gestos que salvam casas: “Fechar tudo. Tirar o que é inflamável. Não vale a pena molhar o telhado. O essencial é estar cá depois da passagem porque é nos reacendimentos — uma folha debaixo da porta, um fiapo seco sob as telhas — que se pode perder tudo.” Sobre os bombeiros não hesita: “Fizeram aqui um trabalho notável, mesmo no limite das casas.” O resto é desenho paciente: folhosas a proteger, limpo em volta, combinações de vizinhança para quando o vento muda. “Se estivesse cá, não me tinham tirado. A aldeia estava preparada.”

Lá fora, as taças ainda húmidas alinham-se na mesa. Kerstin pega em duas pequenas peças acastanhadas com rostos em relevo e pousa-as como quem oferece sorte. Fala dos veados, que voltam logo e comem tudo o que é muda; das reuniões de aldeia — “temos outra amanhã” — para replantar com sentido; do processo longo de substituir eucalipto por carvalhos, castanheiros, bétulas, sobreiros. “Aos poucos, elimina-se o eucalipto. Um carvalho sozinho não protege nada. Mas um bosque trava o fogo. Pode até arder mas renasce.” Vemos, desde o banco, a prova: rebentos verdes a furarem o carvão. “Ao fim de 15 dias já aparecem coisinhas. É uma aprendizagem enorme: não somos consumidores da paisagem - fazemos parte dela.” Pergunto pelo medo. “Não tenho medo. Estas casas não ardem assim de repente quando está limpo à volta. E nós nunca deixámos a aldeia sozinha todos estes anos. Apagámos muitos começos de fogueira. Estávamos preparados para ficar, não para fugir.” Depois, a responsabilidade de quem acolhe hóspedes: “Quando temos tempo para evacuar é uma coisa. Quando não temos, temos de os proteger. Em Pedrógão e Castanheira de Pera muitas casas ficaram de pé. Se as pessoas tivessem ficado dentro teriam sobrevivido.”

No café da aldeia, a máquina tira um café e aguenta o meu silêncio; o balcão cheira a pão de manhã. A Cerdeira, mesmo vazia, fala. A subida até ao estacionamento faz-se a pé — aqui é assim: as pernas fecham o dia. Uma caixa de eletricidade tem um stencil de um casal a beijar-se, como se a luz também precisasse de uma história de amor. Um banco em forma de veado olha o vale. Ao longe, os aerogeradores fazem de metrónomo; em volta, encostas queimadas parecem mapas antigos. Passo de novo pela fiada de carriolas — azul, branca, ocre, ferrugenta, como se alguém pudesse escolher a cor de que precisa para recomeçar. A placa castanha continua a apontar a aldeia, o STOP guarda a curva. Lembro-me de Constantino a descer a pé a montanha, o seu melhor fato no corpo, e penso como as serras guardam erros e virtudes com a mesma paciência.

Lá em baixo, a EN2 volta a ser estrada comprida. Abro o vidro: já só se ouve o vale — água, pássaros, um motor a afastar-se. Escrevo no caderno, antes que a cidade me roube a frase: que se lixem os eucaliptos. Fiquem os carvalhos, os sobreiros, as bétulas; fique a água a correr pelas levadas antigas; fiquem as vizinhas de barro, o forno, os cursos que fazem vizinhos por uma semana; fique a ideia simples de que o interior não é longe — é perto quando se cuida.

Que se lixem os eucaliptos, segundo ato

Saio da Cerdeira com o cheiro a barro cozido agarrado ao casaco e a água da ribeira a trabalhar por dentro como quem limpa um pensamento. Duas curvas abaixo, vinte acima: a serra dobra os joelhos e depois oferece varanda. Agosto passou de fósforo na mão; setembro conta dedos, árvores, telhados. Na primeira paragem de rede, ligo à Cátia. Atende com gargalhadas ao fundo: irmã gémea no centro da roda de amigas, promessas de dança. “Se conheceres o meu pai, ficas ali horas na conversa.” Fica combinado.

A estrada aperta, as encostas mostram as costuras: talhões negros e poupados, folhosas queimadas por fora com rebentos por dentro, eucaliptais que recomeçam como quem não percebeu a mensagem. Aigra Nova recebe como casa sem campainha: loja que é café que é receção, duas mesas ao sol, uma estufa discreta encostada, mel de urze, pão, tostas, mapas. À mesa corrida encontro Jorge Lucas. O café é dele — insistência de quem já decidiu que a conversa não tem pressa.

Começamos pelo que arde e pelo que se planta. Jorge fala devagar, fincando estacas no chão: “Esse problema começa nos anos oitenta, quando um famoso decisor português se lembra do ‘petróleo verde’. E a verdade é que esse ‘petróleo verde’ foi a única economia que ficou neste interior. As pessoas foram abandonando, os que ficaram, ficaram com o despovoamento em cima… E os poucos que ficam começam a substituir o pinheiro pelo eucalipto.” A explicação ganha desenho de mesa: “Em terrenos pequenos — minifúndio, não monoculturas extensivas — o eucalipto torna-se ‘monocultura’ porque toda a gente o planta. Não é uma extensão organizada de Navigator e afins, é cada qual a substituir coirelas por eucalipto.”

As responsabilidades diluem-se no labirinto: “Ilhas de responsabilidade por todo o lado. O mercado depende do pequeno produtor — e depois compram-lhe tudo. A lei diz: para comprares madeira tem de ser certificada; para ser certificada precisa de projeto. Vai a qualquer câmara destas: o que se vê é eucalipto a rebentar desordenado. Não há projeto — é aleatório.” Fala de prazos por cumprir, de pilhas de sobrantes proibidas, “matéria orgânica prontinha a arder”, risco de autocombustão com calor e pouca humidade. E do dia em que “não morreu gente porque não calhou”.

Recuamos para a quinta-feira em que o fogo começou no Candal. “Fomos ao alto do Trevim ver. Víamos fumo constante do lado de lá. Ao fim do dia, câmara, proteção civil, funcionários, máquinas, madeireiros com máquinas, bombeiros e sapadores — uma equipa grande a travar o fogo para que não entrasse no concelho. Conseguiram, junto ao Trevim. Temos aqui um tesouro, o parque da Oitava: abeto-de-Douglas com valor económico enorme. Se galgasse para cá, derretia a Oitava e complicava tudo.” De madrugada o vento roda a sul — “Vento de sul faz dano ao cão”. A equipa sobe para a cumeeira da Hortiga, limpa há pouco, parecia barreira. “Mas ele veio bruto: passou por cima dos bombeiros, por cima de tudo. Não morreu gente porque não calhou.” O fumo anulou o céu: “Ouvíamos helicópteros; não os víamos.” A GNR cola-se a quem decidiu ficar — “sem crianças, sem idosos” —, a água mede-se a conta-gotas. “Vê-se a diferença quando chegam operacionais de incêndio - altamente profissionais.” E, de repente, “uns eucaliptos altíssimos, sem dono certo, fora do prazo de corte, dentro dos cem metros às aldeias” transformam mangueiras em nada. “Em segundos, toda a frente da aldeia estava a ser atacada por todos os lados.” O GIPS, Grupo de Intervenção de Proteção e Socorro da GNR, segura a entrada, trava a boca do fogo. “Depois foi o susto a baixar. Deixou-se queimar de forma controlada para abrir faixa de proteção.” Mas subiu pela Ribeira do Moro — “isso doeu-me, é um santuário de biodiversidade”.

Agora, com setembro a endireitar folhas, o verbo muda: “Consolidar linhas de água — obstáculos, travessas, reduzir a velocidade — para que a enxurrada não leve tudo.” A madeira queimada em pé vira material de obra: “Deite-se abaixo e façam-se diques.” Ao lado, a estufa da Maternidade — discreta de propósito — é enciclopédia sem latim: castanheiros, sobreiros, folhados, azereiros, pilriteiros, bétulas, amieiros. “A paisagem muda sempre.” E há árvores com ofício: “A bétula, em incêndios, ‘não arde’ — os especialistas dizem-no. Vimos na quinta-feira: ardia de Candal para cima e um bosque de bétulas ficou intacto — árvore bombeiro.” Nas linhas de água, o amieiro trabalha em silêncio a qualidade que depois se vende como praia fluvial. “Só nos lembramos da biodiversidade quando a falta nos toca.”

A política entra porque aqui ninguém a pendura como adereço. “Os decisores não conhecem o território — e, se algum nasceu cá, perdeu-se do objetivo. Não basta ler - é experimentar. Há lóbi legal. E há rodízio entre público e privado: sai-se para legislar no que interessa ao negócio, volta-se para o privado a colher a lei feita.” Mais funda do que a burocracia está a propriedade: séculos a cortar terreno “à chave do moinho”, coirelas de bolso, estremas que se tocam com o braço esticado. “Vai ao BUPi [Balcão Único do Prédio]: uma manta de retalhos. Sem cadastro resolvido não há capacidade de resposta. Isto só vai com emparcelamento: negócios entre proprietários, aumentar a dimensão, dar rentabilidade — seja eucalipto, agricultura, pastoreio, frutaria.” Pelo caminho, episódios que valem crónica e gargalhada: “Chegámos a ter três burros mirandeses a pastar à volta — limpavam tudo. Veio um senhor de Sintra pôr um cadeado, ‘não entra mais burro nenhum’, com medo que ‘lhe roubassem o terreno’.”

A biografia ajuda a decifrar o tom. Jorge nasceu e cresceu na Amadora. Nos escuteiros aprendeu o país de mochila. Voltou às serras as vezes suficientes para que o corpo pedisse encosta e trabalho. O Paulo Silva, o Transerrano, hoje presidente da Lousitânea, chegou primeiro; a associação fundou-se há quase três décadas. “Góis é o município com mais área da Serra da Lousã.” Com o projeto Aldeias do Xisto, a Aigra Nova ganhou polo dinâmico: loja, centro interpretativo, Maternidade de Árvores Autóctones, Casa do Campo, cafés e tostas, oficinas do queijo de cabra e da broa de milho, descamisadas, magustos, entrudos. “Sem dinâmica, o investimento nas aldeias morre — o turista de passagem não deixa dinheiro. O nosso é o que vem, dorme, saboreia, pega numa ferramenta, participa.” Agora, forçados por agosto, “restabelecer um rebanho comunitário” é prioridade. “A Aigra sofreu menos porque tem herança de aldeia de pastores. Vamos recuperar curral e zonas de pastoreio. Muitos voluntários são antigos visitantes que se tornaram amigos e sócios — não querem ser turistas de usufruto, querem ser visitantes com trabalho.”

Falo-lhe do mito do isolamento. Ele devolve o país em proporção humana: “Não me sinto isolado: sou cidadão do mundo. Talvez acessibilidades um pouco melhores — mas nada de autoestradas: para quê? Para passarem sem parar?” A diferença está na escala e na pertença: “Deixas a máquina fotográfica no balcão, vais beber café — ninguém mexe. O padeiro toca; se a D. Lourdes não aparece, vai bater à porta.” Conta-me quando ficou retido: “Puseram 40 homens no terreno. À noite, as senhoras estavam na capela a rezar por mim. Não sou católico — sou agnóstico. Abriu-me o coração.” Vai a Lisboa visitar a mãe e faz-lhe “tudo confusão”: “Parece que as pessoas estão doentes, deprimidas, que não se conhecem — às vezes nem no mesmo prédio.”

As árvores regressam ao centro porque são quem fica de pé quando as pessoas mudam de sítio. “Digo ‘autóctones’ como digo ‘eucaliptos’, ‘pastoreio’, ‘agricultura’: há espaço para tudo, mas partilhado. Cruzar espécies e culturas. Intercalar.” Pior do que o eucalipto são as invasoras: “A Acacia dealbata — mimosa — já ocupa quase tudo. Fixa solos, não deixa nada crescer à volta; predadora. A semente tem nove camadas, fica viável um século. Pós-fogo, pior: pipocas.” Não basta cortar: “Tem de ser articulado. Experiências coordenadas, pelo menos à escala regional.”

Fica dito o que de lá é o problema daqui: “Falta de massa crítica.” O peso político conta cabeças. E há hábitos que minam o interior: “Gente que voltou mantém-se recenseada nas grandes cidades — impostos e peso político ficam lá.” Uma frase, um editorial: recensear-se onde se vive é também plantar árvores. Entretanto, o país grande entra por esta porta pequena: “Ainda há pouco tivemos o secretário-geral do PS a ‘fazer’ a EN2 e a parar em meia dúzia de sítios — esteve aqui sem saber o que era um azereiro.” Não há amargura, há convite: aprender o território sobre o qual se decide.

Despede-se de pé, serviço interrompido para uma tosta, regresso à mesa como quem sabe que a economia das aldeias de xisto não vive de fotografias - vive do que fica. A Lousitânea tem quatro pessoas a tempo inteiro e muitos colaboradores pontuais. O próximo outono terá mãos, enxadas, cabras — e mapas de linhas de água com travessas desenhadas a lápis.

Volto à estrada com a sensação de que “terra” não é registo — é relação que se treina. O caminho até ao carro é curto, o olhar demora-se nas placas de xisto, no pormenor humilde de uma janela, no verde novo a nascer de um tronco negro. A estrada faz a sua parte, não deixa ninguém ir embora depressa. Para trás fica a mesa de fora onde se discutem leis e sementes; a estufa discreta onde se prepara o que se há de plantar; o rumor de agosto engolido pelo rumor de água de setembro. Para a frente, a EN2 outra vez, o país do meio a abrir por dentro e esta certeza aprendida à porta: as aldeias não esperam milagres — fazem-nos. Com cabras, com burros mirandeses, com bétulas, com castanheiros, com gente que volta e vota onde vive; com quem veio de longe e, 40 anos depois, ainda chama “nossa” à água de uma ribeira. Com quem, de uma mesa de fora, paga um café e explica devagar como se segura uma encosta — e um país.

Que se lixem os eucaliptos. Fiquem as árvores que travam o fogo e renascem; fique o mosaico que parte a chama; fiquem as casas limpas por dentro e por fora; fique a rota de vizinhos que combinam antes do vento rodar; fiquem os mapas de água com travessas riscadas a grafite. E que a Cerdeira, ponta de xisto nesta serra, continue a ensinar o país a não confundir silêncio com abandono nem prudência com medo. No retrovisor, as encostas feridas ficam pequenas. Um sopro de vento levanta pó na berma e, por um segundo, parece neve. A vida recomeça — basta não lhe atirar mais fósforos.


O País do Meio não é um roteiro, pelo menos não turístico. Esta é uma série de 14 reportagens de Tiago Palma, para ler na CNN Portugal. De Trás-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce a Estrada Nacional 2 e recolhe os retratos — íntimos, sabedores e naturais — de quem é das cidades, ou mais dos lugares, que a EN2 atravessa. Não são histórias de alcatrão, são histórias do caminho, do país real, ouvindo a voz de quem não é notícia — mas é um país, ou faz um país. Na antecâmara das Autárquicas de 2025, o pulso mede-se sem cartazes, sem promessas eleitorais, sem corta-fitas, sem política; o pulso mede-se como mediu Miguel Torga: “Cultivo-me pelos olhos e pelos pés, no alfabetismo íntimo das coisas”.

O País do Meio

Esta é uma série de 14 reportagens de Tiago Palma, para ler na CNN Portugal. De Trás-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce pela Estrada Nacional 2 e recolhe retratos íntimos de quem é destes lugares

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