O PAÍS DO MEIO || Entro no cemitério do Vimieiro em setembro, fora das duas repetidas “romarias” do calendário salazarista. A campa não se ergue e ainda ecoa o coveiro Vicente de 1972: é toda em betão “para não entrar humidade”, mas também poderia ser culpa de um boato da Rádio Moscovo a prometer ladrões de cabeças. Comunistas, claro. Pára uma autocaravana; dois amigos de Sesimbra murmuram perante a fotografia: “o maior homem que este país já teve.” Chega um casal de Cascais, ela pousa um galho, ele fala de respeito e tradição. Não vim julgar; vim ouvir. No meio da EN2, há mortos que não morrem
Santa Comba Dão (CNN Autárquicas 2025) - O cemitério do Vimieiro é menos lugar do que pausa.
A Nacional 2 ondula, perde-se por lombas, até que se erguem quatro ciprestes com a dignidade dos guardas que sabem o que fazem. O portão de ferro aceita o adorno com naturalidade: volutas trabalhadas, uma cruz no topo, a caveira com tíbias a lembrar a igualdade final dos nomes. Preso a dois varões, um retângulo verde cumpre a velha prevenção que atravessa séculos e não se gasta: MANTENHA A PORTA FECHADA. Empurro. Setembro pousa nas pedras com a educação dos meses que não chamam a atenção. Os jazigos alinham-se como um quarteirão discreto, há flores de plástico a desbotar em calendários, há epitáfios com letras a desvanecer na pedra.
Ao fundo, encostado ao muro branco, está o túmulo que escolheu a pobreza como discurso. A campa é chão que encosta ao muro, discreta como um remate. No centro, o retrato burilado na parede. De cada lado, prateleiras estreitas para falsas flores. Por cima, uma frase que quis moral e medida: havemos de chorar os mortos se os vivos o não merecerem. Não doutrina. Ou doutrina. Há mortos que não morrem. Aos vivos cabe a medida da voz.
Vim até aqui para reouvir 1972. Em julho de 1972, dois anos depois de o país ter parado para um funeral, dois jornalistas dos maiores, dos que abriram caminhos, então da Rádio Renascença, Adelino Gomes e João Paulo Guerra, atravessaram este portão com um gravador. Procuraram o coveiro Vicente. A Censura, talvez algo distraída, deixou a entrevista ir para o ar. Menos de um mês depois, os programas “Página 1” e “Tempo Zip” acabaram suspensos. O que ficou foi o som, ou transcrição do som, de um país a falar com voz de coveiro.
Vicente falava com a cadência de quem varre e sabe onde caem as folhas. Ia apontando com o dedo, arrumava os parentes como quem estica uma fita métrica, pondo cada um no seu sítio devido: “aqui a irmã Elisa”, “ali o pai”, “mais ao fundo a mãe”, “adiante o cunhado”, “um pouco mais longe o sobrinho e afilhado”. Depois encostou a ideia à pedra. As quatro lajes, disse, tinham sido mandadas cortar por Salazar na Quinta de Óvoa para que a ordem não acabasse com ele. Solteiro ele, solteiras as irmãs Marta e Leopoldina, por isso quatro pedras iguais para “continuar a carreira dos solteiros”; a viúva, Laura, ficaria junto do marido, e as irmãs casadas iriam “para onde os maridos quisessem”. A frase vinha limpa, sem pose: “conforme vão morrendo, assim se vão empregando as pedras.” A morte reclamava expediente e o cemitério obedecia.
Depois explicava a técnica, que é o coração do mito. “Tem dois bancos debaixo da urna”, ensinava. “Em cima há três tampas. Uma é de cimento, está encimentada nos muros. Outra é de aço, abraça a de cimento e é chumbada à roda para a humidade não entrar. Tem parafusos pela volta. Depois leva pazadas de terra para igualar os pais.” Quando um popular perguntou por que razão tanto cimentar, tanto afundar, Vicente respondeu como quem conhece a utilidade das coisas. “É para conservar.” Era engenharia e era mensagem. Mas não era somente. E então abriu a porta do rumor. “Foi o Rádio Moscovo que anunciou qualquer coisa, que o queriam vir roubar.” Roubar o quê, para quê. Vicente não adivinhava intenções e ainda assim repetia o que se dizia à boca pequena. “Diz-se que só lhe queriam levar a cabeça, para estudarem nela, como era um homem muito inteligente.” A cabeça. Não o seu corpo. A cabeça. Quem? “Os comunistas.” O regime levou a sério. E o coveiro acrescentou o que viu. “Estiveram cá oito meses. De noite e de dia.” A GNR de sentinela à entrada de um cemitério de aldeia. A campa selada com aço, cimento e parafusos para garantir que “a humidade não entra” e a cabeça não sai. O rumor ganhava ossatura. A barragem técnica servia para conter água e medo.
No gravador ficou também a cena dos passeios. Salazar ia “sozinho, pela estrada fora, sozinho”. A polícia ia “longe, nos pinhais, uns de um lado e outros do outro”, a vigiar sem aparecer. Vicente contou o susto da primeira vez. Viu-o surgir numa curva e pensou em esconder-se atrás das mimosas. Ganhou coragem, saiu para o meio da estrada e cumprimentou. “Passou bem, senhor doutor.” Ouviu de volta a frase de quem preferia conservação a inauguração. “A duração de uma estrada é as limpezas.” O Estado ao nível da valeta.
Sabia das visitas, Vicente. “Isto é tudo visitas.” Sabia das que eram importantes. “Veio cá o doutor Marcelo Caetano quando fez um mês.” A Legião Portuguesa trouxe-o até ao portão e deixou uma cruz. Ficou tempo demais, até a família pedir que a tirasse por parecer mal. Chamou-lhe “aborrecida”, a família, e Vicente diz somente: “E eu tive de a tirar.” Sabia também do boato que viajara do Brasil, o tal casamento com a governanta, Maria. Contou que teve “o arrojo de lhe perguntar” para “não estar aqui a mentir ao povo”. Ela disse: “Não.” Quanto ao resto, dizia-o baixo junto ao portão: ganhava cinquenta e três escudos da Câmara. As pessoas às vezes deixavam uma moeda, “outras vezes não”. E ele seguia no ofício — varrer, arranjar, explicar.
Hoje já não há coveiros que saibam de cor as famílias e os corredores. A Câmara envia quem pode quando é preciso. Ninguém fica ao portão a fazer o inventário das relações. Disseram-me na vila, com a certeza de quem conhece a rotina, que se ficasse junto à entrada o acaso havia de trazer gente. Fiquei. Estamos em setembro, fora das duas “peregrinações” (que enchem restaurantes e esgotam alojamentos, o que confirmam os próprios) do calendário salazarista — 28 de abril pelo nascimento de Salazar, 27 de julho pela morte — e, mesmo assim, o portão trabalha. A primeira a chegar foi a sombra de uma autocaravana.
Estacionou com o peso de uma casa. Uma lateral creme, janelas pequenas como olhos. Desceram dois homens de azul. Um de t-shirt escura, corpo pesado, cabeça rapada, as mãos cruzadas nas costas. O outro de pólo azul-claro, óculos, um boné encarnado enrolado nos dedos. Não lhes disse nada e eles também nada me disseram. Ficaram frente à lousa. O da t-shirt falou baixo, quase oração. “O maior homem que este país já teve.”A frase pediu conversa.
Perguntei se vinham de propósito. Se o GPS os tinha empurrado, como a tantos, para o cemitério municipal de Santa Comba Dão. O do pólo riu. “Primeiramente, nós fomos ao engano.” Um senhor na rua endireitou-lhes o caminho: “É no Vimieiro, não é Santa Comba.” São dois amigos em viagem. António Piedade e Olímpio Cruz. Um de Brejos de Azeitão. Outro de Sesimbra, “da zona da Lagoa de Albufeira” — precisa. Vinham de Lamego, dormiram em Viseu e iam seguir para o Luso pelo IP3. “Para almoçar.” Mesa marcada até. Atraso assumido pelo desvio. A decisão foi mais de António. Olímpio acompanha com a naturalidade dos que confiam no mapa do outro.
Pergunto se a paragem é curiosidade ou convicção. António encosta o corpo ao silêncio, escolhe as palavras como quem escolhe ferramentas e pousa-as com calma: “Eu não percebo nada de política, a política está fora de questão.” Depois fixa a pedra e fala do homem e do país que imagina: “Foi um grande governador.” A frase ganha corpo sem levantar a voz: “Quem dera aos portugueses aparecerem uns 10 homens como ele para governar.” Peço idade, arrisco, falho por pouco, ele sorri: 72. A biografia vem em linha corrida, sem dramatização. “Comecei a trabalhar aos nove anos, ajudante de jardineiro, a cinco escudos por dia, na Quinta da Conceição.” Era a matemática da casa — “a gente éramos dez” — e havia fome a marcar o calendário. “Eu passei fome, passei.” Trabalhou até aos 65. “Agora quero aproveitar o tempo que me falta”, diz, com um gesto de cabeça à autocaravana que é plano e prémio. A reforma cabe num número curto, dito sem ênfase: 502. Ao lado, Olímpio, mais contido, acrescenta o seu número com a mesma economia de voz: 635. “Vem um estrangeiro para aqui… porquê é que lhe dão 900 euros e eu, que trabalhei a vida inteira para o país, fico com 502?” A frase sai-lhe como batida seca.
Quero perceber o que os trouxe à pedra. António agarra-se aos impostos como quem descreve um nevoeiro que não se levanta. “Paga-se e não se sabe para onde vai o dinheiro.” Ponho em cima da mesa o que se vê — estradas, hospitais, escolas, que há, bem ou mal — e ele não discute o efeito, discute o trajeto. “Pagamos e ninguém explica.” Depois passa da névoa às contas pessoais: foi à Segurança Social e ouviu “só tem 39 anos de desconto”. O resto, diz, perdeu-se pelo caminho. “Levaram os ladrões.” Não fala de carteiristas, fala do sistema a falhar-lhe a promessa. A palavra “ladrões” aqui é gaveta onde cabe tudo o que sente que lhe tiraram.
Levo o agora para a conversa. Hoje, quando se pronuncia Salazar, a corrente traz quase sempre André Ventura, e faço-lhe a pergunta de frente. António não se encolhe nem sobe o tom. “Esse indivíduo tem boas ideias, mas eu ainda estou muito desconfiado naquilo que ele diz. Devia era ser um bocadinho mais ponderado.” Pousa a mão no bolso, ajeita a ideia e acrescenta o travão que lhe serve: “Tem ali umas frases com que eu concordo — mas não são todas, atenção.” Peço-lhe matéria e ele vai ao que lhe arde primeiro no caminho. “Esse grande vandalismo que nós temos no país.” Pelo meio, aponta para os ciganos, que usa como exemplo do que, para ele, “falha". Depois volta às contas que já abrira e repete-as como quem bate com o nó dos dedos na mesa: 900 para quem chega, 502 para ele. Guarda essa régua no bolso e mede por aí o que o revolta. O juízo assenta no que sente que o país dá e no que sente que lhe tira. Entre a pedra e a carteira, o agora mede-se assim, em frases curtas e feridas longas.
Pergunto o que lhes dá o retrato. António não estica o gesto: “Tristeza.” Não é luto, é medida. “Há indivíduos que nunca fizeram nada e vigarizaram o povo e andam para aí”, diz. Evita listas, mas quando insisto aparece um nome antigo da memória: “o Xavier de Lima… ficou-me a dever 120 contos, esse ladrão.” Levo a conversa à campa sem jazigo. Ele não fala do que viu ali, fala do que ouviu dizer: “Ele não quis.” A velha fita de 1972 confirma pela voz de quem sabia o cemitério de cor. O coveiro Vicente disse-o simples, como quem assenta uma pedra: “Ele quis.” Quis a campa rasa, quis as quatro lajes iguais, quis a sobriedade que agora se lê como testamento.
Falamos da casa onde nasceu, branca e baixa, encostada ao banco de pedra como quem descansa do século. Mais adiante, a antiga escola primária, à espera de se fazer museu. Houve discussão — primeiro pareceu homenagem, depois afinou-se o verbo certo: explicar sem rezar. António encolhe os ombros, Olímpio diz que, quando abrir, vai lá. E pouco mais se ouvirá, Olímpio. Daí saltamos para “as placas e as letras arrancadas”. António fecha a ideia numa frase de bolso: “Se alguém não gosta, apaga.” Fala “da grande ponte de Lisboa” e do dia em que o nome mudou. “As letras foram arrancadas logo no próprio dia”, lembra. O dia é 25 de abril. Queria o antigo de volta. “Devia voltar a pôr o nome”, diz, e acrescenta até o impossível de museu de estrada: “e a fotografia do Salazar.” Não é que lá tenha estado, é o desejo tal e qual. Aqui, em Santa Comba Dão, garante ele, há “umas dez ruas e três avenidas” com o nome. “E ninguém as arranca.”
Despede-se Olímpio com a educação de estrada. “Muito obrigado. Felicidades.” António aperta a mão e deixa a frase que trouxe do bolso da viagem: “Descubra aí mais umas coisas do país — para ver se esta gente abre os olhos.” A autocaravana recebe-os como casa que se recolhe, portas mansas, cortinas a mexer. Engata no IP3 e desaparece, lenta, até o cemitério voltar ao silêncio de setembro.
Quando a poeira assenta, encosta um carro. Descem devagar, um casal da linha de Cascais com o passo de quem confirma moradas: é aqui, mesmo em frente. Beatriz traz na mão direita um galhinho recém-colhido, verde fino como sublinhado. José António tem 77 anos e organiza a vida pelos marcos. Fez a Mocidade Portuguesa. Esteve na tropa cá. “Por um triz” não seguiu para a Guiné — escolheram-no para uma unidade da Força Aérea “que ficou em terra”. A vida profissional diz-se em duas linhas e muitos turnos: operário primeiro, estudos à noite depois, até chegar a diretor de fábrica. Acrescenta o princípio que o guia: “Nunca recebi do Estado, nem subsídios, nem apoios.” E fecha a aritmética do corpo: “Trabalhei 49 anos, mais três de tropa. Nunca recebi nada.” A origem vem num estalo breve, sem adorno: a mãe “não tinha dinheiro sequer para os seus”. Beatriz ouve em silêncio, segura o ramo como quem guarda o marcador da página que vieram ler.
Pergunto por que veio. José António escolhe o tempo longo: “Queria fazer isto há vários anos.” Tira do bolso a coincidência como quem mostra um bilhete antigo: “O Salazar morreu no dia dos meus anos.” Nasceu em 1948, tinha 20 anos quando o ditador morreu. Da Mocidade ficou-lhe uma palavra dita devagar, como quem pesa cada sílaba: “Respeito pelos outros, sejam eles quais forem.” Pergunto se o homem do retrato foi um ditador. “Foi.” E logo a nuance que organiza a memória dele: “Ditador de regime. Quanto a mim, não foi um ditador pessoal.” Não o põe na mesma prateleira “de Franco, Mussolini ou Hitler”. “Não foi um carniceiro desses.” No entendimento dele, ganhou “respeito”. Admite que, para alguns, esse respeito tinha sotaque de medo. Quem? “Os comunistas.” Novamente.
Beatriz avança até à lousa, inclina-se e pousa o galho sobre a frase de pedra: havemos de chorar os mortos se os vivos o não merecerem. Damos um passo atrás para ler o conjunto. José António mede-o com os olhos e escolhe a síntese: “É simples. Diria formal. Foi um pedido. Respeitou-se o pedido.” Pergunto o que quer deixar ali. “O meu testemunho e o meu apreço pelo que ele fez de bem ao nosso país e ao nosso povo.”
Trago para a conversa a frase que o país repete desde 1974, tantas vezes à mesa como nas ruas, saudosista: o que fazia falta era um Salazar. Explico-lhe ao que venho, digo-lhe que me interessa perceber o que essa frase quer dizer hoje. José António não a levanta como bandeira, encosta-a ao pulso e mede-lhe a febre. “Para mim, essa frase é expressão do descontentamento com o que se tem passado depois do 25 de abril”, diz, e pausa para acertar o sítio das palavras. “Não é uma saudade do regime. É um desabafo com o que vimos desde então.”
Pergunto-lhe, sem atalhos, se a liberdade aconteceu mesmo. Ele não hesita no essencial. “Foi bom. Foi bom.” E deixa que o corpo faça a prova, antes da tese. “No fim dos anos 60, princípio dos 70, fui espancado pela polícia política na Baixa. Ia do trabalho para casa.” Fala sem dramatização, como quem dá os factos à luz do dia. “A minha mulher também se escondeu uma vez e foi incomodada. Bastava haver desconfiança de uma manifestação e era dar porrada em toda a gente.” A memória corre até ao dia em que o país mudou o ar. “No 25 de abril eu e milhões vibrámos.” Não desenvolve mais. Depois ponho na mesa a pergunta que ainda divide jantares e divide parlamentos: qual pesa mais, 25 de abril ou 25 de novembro. Ele não os põe um contra o outro. “São dois dias de liberdade”, responde, com a cadência de quem já o disse outras vezes. “Um conquista a liberdade. O outro institui-a com regras.”
Levo a conversa ao presente, mas pelo nome que hoje puxa Salazar para o meio da praça. “André Ventura é uma pessoa que aqueles como eu admiram. Pronto.” De seguida põe o travão na mesma respiração, como quem equilibra pratos. “Não é por isso que passo cheques em branco.” Do bolso, José António tira então uma ferramenta antiga, uma frase que atribui a Salazar e que usa como quem mede um degrau antes de o subir. “Quando não se quer resolver um assunto, nomeia-se uma comissão. Quando se quer resolver, nomeia-se alguém.” É a partir daqui que desenha o que quer do Estado: “autoridade que imponha respeito, vigor nas decisões, alguém responsável, quase supremo, a pôr as coisas em ordem.” E enumera, dedo a dedo, o que para ele precisa de arrumo: “tribunais, polícias, fiscalidade, a questão da corrupção.” Na rua, encosta a ideia ao quotidiano e destapa o que o irrita: “os subsídios e essas porcarias todas.” É este o lugar de onde olha o presente e é deste lugar que lê os que hoje prometem autoridade.
Beatriz endireita o galhinho sobre a inscrição e dá um passo atrás. José António fica mais um instante diante do retrato, como quem confirma uma morada, e só então se vira para sair. À porta, ainda pára. “Tradição e respeito, respeito em sentido lato, autoridades que imponham respeito, vigor nas decisões, alguém responsável, com um poder quase supremo, a pôr as coisas em ordem. É isso que me falta, que falta ao país” Diz isto sem levantar a voz, como quem assinala uma data no calendário. Não acrescenta mais. O carro arranca devagar. O verde do ramo fica a sublinhar o granito. O cemitério volta ao tom baixo de setembro.
Fico diante da campa como quem volta ao princípio para confirmar o mapa. A luz roda um grau e o retrato ganha outra sombra, quase um respirar. A pedra branca à entrada tenta a síntese: “O homem mais poderoso de Portugal do século XX nasceu humilde e humilde morreu.” A seguinte arrisca juízo: “Medíocre é o povo que com ele nada aprendeu.” Entre uma e outra coube meio século de conversa. O cemitério conserva, não corrige. Ao lado está Maria. Atrás, os parentes que Vicente alinhou com método. É julho de 1972 que continua a abrir este portão, é a história a testar os ferrolhos. Rádio estrangeira a lançar o boato, o país a escutar de madrugada, a GNR de guarda oito meses — não era o cimento só para “conservar”? —, a cruz da Legião Portuguesa a ficar tempo demais até a família a querer fora por “aborrecida”, o coveiro a perguntar à governanta para “não estar aqui a mentir ao povo” e a ouvir o “não”, não casaram no Brasil, o ordenado dito baixo (a pobreza fala baixo) à saída — “são 53 escudos” — e a máxima de cantoneiro que serve para governos: “A duração de uma estrada é as limpezas.” Vim para medir se ainda há quem venha e o que fica dito quando se fala. Na vila avisaram que à entrada o acaso trabalha. Trabalhou. Dois homens de viagem, um casal a riscar uma vontade antiga. Aqui não há parada. Há trânsito lento de memórias. Uns vêm por herança, outros por simpatia, outros por curiosidade, todos para medir a sua distância à frase do topo. Volto ao portão. O ferro está quente. O cipreste risca o chão com rigor. Empurro. O clique confirma que a dobradiça ainda sabe o seu ofício.
Agora, sem comentários nem sublinhados. Só a fila seca.
O Estado Novo firmou-se em 1933 e caiu em 25 de abril de 1974. Foram 41 anos de ditadura. Salazar entrou no Governo em 1928 como ministro das Finanças, assumiu a Presidência do Conselho em 1932, governou até 1968. Morreu em 27 de julho de 1970, após malograda queda. Houve partido único — primeiro União Nacional, depois Ação Nacional Popular. Houve censura em jornais, teatro, cinema e rádio. Houve polícia política com siglas que mudaram e função que não mudou: PVDE a partir de 1933, PIDE no pós-guerra, DGS já no fim. Houve prisões, tortura, vigilância. Houve o Tarrafal: abriu em 1936, fechou em 1954, reabriu em 1961. As eleições não eram livres. Depois do abalo de 1958 com Humberto Delgado, o Presidente passou a ser escolhido por um colégio controlado pelo regime. O voto das mulheres começou restrito a escolaridade e estatuto e só muito tarde se aproximou, no papel, de condições idênticas às dos homens — ainda e sempre sem eleições livres. A alfabetização dá a escala. Nos anos 30, cerca de seis em cada 10 adultos não sabiam ler nem escrever. Em 1970 ficou perto de um em cada quatro. A esperança de vida subiu devagar: de cerca de 48 anos nos anos 30 para 66,7 em 1970. A mortalidade infantil mede o choque sem metáforas: em 1960 morriam cerca de 90 bebés por cada 1.000 nados-vivos; em 1970 ainda eram mais de 50. A queda decisiva viria com a democracia e com o Serviço Nacional de Saúde. Havia fome, não de manchete mas de talão: nos anos 40 racionou-se o básico, a mesa andou pelos 2.300–2.500 kcal/dia até aos 60, a infância trazia atraso de crescimento. Na economia houve obra visível, sim — estradas, pontes, barragens, escolas, corta-fitas. E houve salários comprimidos, direitos laborais magros ou nenhum e emigração em massa. A partir de 1960 saíram perto de 1.000.000 de pessoas, muitas “a salto”: para França, Alemanha, Luxemburgo, Venezuela. E houve a guerra. De 1961 a 1974, em Angola, Guiné, Moçambique. Cerca de 8.800 militares portugueses mortos, dezenas de milhares de feridos. O número de mortos civis e militares africanos Portugal nunca contou como devia.
Desço a rua. O cemitério fica para trás com a serenidade das coisas que não precisam de nós. Lá dentro fica uma campa rasa, duas prateleiras de plásticos com forma de flores, uma grande frase lapidar, algumas frases menores, um retrato gravado e a memória de um país que continua a discutir o século XX à janela de um túmulo. Santa Comba Dão volta a ser o que sempre foi. Uma paragem na estrada do meio onde se aprende que, em Portugal, há mortos que não morrem e vivos que ainda discutem se os merecem, se nos merecemos a nós.
O País do Meio não é um roteiro, pelo menos não turístico. Esta é uma série de 14 reportagens de Tiago Palma, para ler na CNN Portugal. De Trás-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce a Estrada Nacional 2 e recolhe os retratos — íntimos, sabedores e naturais — de quem é das cidades, ou mais dos lugares, que a EN2 atravessa. Não são histórias de alcatrão, são histórias do caminho, do país real, ouvindo a voz de quem não é notícia — mas é um país, ou faz um país. Na antecâmara das Autárquicas de 2025, o pulso mede-se sem cartazes, sem promessas eleitorais, sem corta-fitas, sem política; o pulso mede-se como mediu Miguel Torga: “Cultivo-me pelos olhos e pelos pés, no alfabetismo íntimo das coisas”.
O País do Meio
Esta é uma série de 14 reportagens de Tiago Palma, para ler na CNN Portugal. De Trás-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce pela Estrada Nacional 2 e recolhe retratos íntimos de quem é destes lugares