Dia 3, São Pedro do Sul. Esta minha voz que ensina as pedras a cantar

24 set 2025, 07:00
O PAÍS DO MEIO || Dia 3, São Pedro do Sul

O PAÍS DO MEIO || Chove na serra quando a viagem chega a Manhouce. À porta da igreja, Isabel Silvestre ajeita o chapéu e dá o tom: “o povo é o meu poeta e aqui canta-se de berço à cova”. Quadras simples, metáforas fundas. Falamos baixo na nave e, no café ao lado, fala-se (e isso não lerá) de viagens e de pertença. Ao cair da tarde, o salão do Centro Social enche-se de meninas e mulheres a levantar “Acordai” como quem nos ergue uma casa. A tradição aqui não é vitrina — é corpo de mulher, é caminho, hoje mais para fora. “Mas esta terra esvazia-se por dentro e cresce por fora.” E quando se cruza com Reininho? Há infância outra vez neles: “Somos dois garotos”

São Pedro do Sul (CNN Autárquicas 2025) - A serra não gosta de linhas retas. 

Entre São Pedro do Sul e Manhouce, que é São Pedro do Sul e não é, é concelho, mas é deslocado, a pressa é inimiga desta geografia e aprende a curvar. A estrada sobe e desce, e desce e sobe, como quem respira; dobra-se sobre si mesma, volta, insiste, e muda de ideias. O granito faz versos de rugas, é quase uma gramática que nele se encerra, a bruma roça o capot, que o dia é invernoso, e há uma chuva miúda, embora seja setembro ainda, o verde por aqui multiplica-se em nomes que o citadino já esqueceu, lameiro, tufal, giesta, por todo o lado aqui corre água, em linhas, em regos, em cascatas, e mais ao longe, quando a nuvem se abre num rasgão, o rio é apenas um aço polido. E a cada curva esta serra parece repetir, paciente: não chegues já, aprende o caminho. 

Numa ponte de ferro, a tinta já gasta, alguém resolveu escrever “o amor vive e viverá” — a frase vigia a corrente que se atira ao fundo. Mais acima, num ombro de monte, um espigueiro também faz vigia, pousado numa pedra maior do que um touro, sozinho contra o céu que é baixo. Manhouce aparece depois de um último S, numa placa envelhecida com honra. A aldeia, quase vazia — e quase sempre é assim aqui —, tem sinais de gente nas paredes: uma fotografia a preto e branco de um par que dança, uma figura de mulher recortada no xisto. Um letreiro que liga duas casas de granito diz, sem modéstia, “ALDEIA VIVA”. Debaixo de um beiral, um banco de cimento parece ter a forma de quem já ali se sentou. Hoje chove e não há velhos à soleira — há a ideia dos velhos, que é quase a mesma coisa.

A igreja é logo ali. 

À porta, Isabel Silvestre. Trincheira bege, chapéu preto muito direito, lenço de seda às cores a segurar o frio, brincos de aro a colarem luz ao seu rosto. Entramos. O chão range na saudação antiga. O eco é generoso: devolve a voz sem a ferir, como a água do rio Vouga nos devolve, polidos, os seixos que lhe atiramos. Falamos a sussurrar. Pergunto-lhe se já perdeu a conta às vezes que cantou neste espaço, desde criança. Responde sem esforço: “Sim. Mais ou menos.” As paredes confirmam. As igrejas foram também feitas para isto — para o ouvido entender. Isabel não precisa de explicar muito: “E não é só com o nosso grupo de cantares, como com todo o género de música. Estes espaços foram feitos para que se oiça o que se diz — e não só na música, como do altar para baixo, como bem diz o povo.”

Ficamos no princípio: as canções. A poesia de que ela gosta não tem autor de livro, é poesia de enxada, de linho ao sol. “Tenho um respeito absoluto pelo povo e digo que é o meu poeta. O que ele diz é o que sente: o trabalho que faz, as dificuldades que tem, as saudades de quem partiu. Todas essas letras traduzem o ser, o viver, o estar no lugar onde se nasceu — dizem quem são, como são e porquê são. Em Manhouce, que é a minha terra, canta-se o que se sente, canta-se o que as palavras dizem. É o mais importante na verdadeira música: a capacidade emotiva de cada um se fazer chegar ao outro. Uma letra cantada por uma pessoa nunca é a mesma cantada por outra, cada qual tem a sua maneira de dar e cada qual tem a sua maneira de sentir. Depende sempre de como se canta e de como se diz.” Não interrompo nem acrescento. 

Na canção, a simplicidade aqui tem engenharia. Existe uma métrica que não se escreve em pautas, aprende-se no campo, e no fumo da lareira, no bater das malhas. Às vezes é uma simples quadra, repetida, outras um verso que parece ter estudado no que só o tempo dá. “Sem dúvida nenhuma. Olhe, quando cá passaram para o Cancioneiro Popular Português, disseram: ‘há aqui música e letra para tudo’. E é verdade.” Para tudo mesmo. E é Isabel que nos organiza o calendário: “Desde que se nasce até ao momento de morrer havia cantos próprios. Por exemplo, quando alguém estava a partir havia o toque do sino e acompanhava-se e cantava-se, quando a pessoa já estava muito mal e se dizia ‘vai descansar na mansão do Senhor’, havia cantigas próprias. Para o recém-nascido havia o lalar, a cantiga que toda a gente cantava — a avó, a mãe, quem estivesse a cuidar da criança. No Natal há o Menino Jesus; na Páscoa, a Aleluia. Há cantigas da romaria, cantigas de amor, cantigas de saudade. De comunicação dos namorados — quer na letra, quer na música — a dizer: ‘eu estou aqui’. A rapariga cantava e o rapaz assobiava — a música também servia para isto.”

Volto ao fio da história: como sobreviveu tudo isto antes de haver pauta e gravação e futuro? Diz-me que é sempre transmissão, oralidade, voz a voz, vez a vez “Desde o princípio do mundo assim é: à medida que as gerações passam, isto passa de geração em geração.” As melodias moldam-se aos vales e às línguas, trazem pó do caminho. “Exatamente. E há diferenças entre povos e lugares. Outras vezes não há. Eu costumo dizer que há influências do Douro e do Alentejo aqui. Há coisas que cantamos que são nitidamente do Alentejo e no Alentejo encontrei coisas que são nossas.” E conta a história de Vitorino, a pequena epifania do estúdio, enquanto ele dormia com o chapéu a tapar o rosto. “Comecei a cantar baixinho. De repente, deu um pulo: ‘espera aí, de onde é isso?’ Era nosso, de Manhouce — e ele reconheceu-lhe o caminho. As músicas têm estas fontes cruzadas. É a junção de saberes. Às vezes não sabemos se foi o rio que trouxe.” Talvez por isso lhe saia, sem pose e sem ênfase, a frase que aqui não me soa a exagero: “em Manhouce até as pedras cantam”. O granito devolve o sopro, a lousa segura a ressonância, o soalho dá-nos o passo certo. Uma voz pequena encontra corpo nas paredes, uma palavra dita com verdade acorda veios na pedra. A aldeia toda é instrumento — e Isabel, desde menina, aprendeu a afiná-lo.

Ainda aqui estamos na igreja. O capítulo religioso pede respeito e pede método. Para Isabel, a música religiosa é a “música clássica do povo”: riquíssima na melodia, na palavra, nos lugares e nos tempos em que se canta. “Na Quaresma cantavam-se só cantigas religiosas; na Sexta-Feira Santa as mulheres vestiam-se quase de luto, sobretudo o lenço preto — e nem assobiar se podia, por respeito. Tudo com o seu lugar e o seu tempo.”

A infância vira-se agora para a memória como um espelho. “Como aprendi? Naturalmente. Ouvia-se cantar nas malhadas, nas ceifas, nas romarias, em casa, na igreja. O meu irmão mais velho foi seminarista, e cantava bem, chegou a ser solista no seu seminário. Foi ele que percebeu que eu tinha voz e gosto. E um princípio de exigência: ‘canta; agora cala-te e ouve’.” A mãe e as avós cantavam também? “Também.” Faço a pergunta que se repete em quem vem de longe: como é que num lugar pequeno nascem tantas vozes grandes? Isabel não adorna: “Aprende-se a cantar de berço.” Há quem tente e não consiga; aqui o milagre é frequente. “Quando vinham os meninos para a escola, as mães e as avós diziam-me logo: ‘olhe que ele/ela canta muito bem’.” Professora — e sempre “professora” no trato, ninguém a ela se dirige por “Isabel” em Manhouce, mesmo quando a música a tirou da sala de aula —, fez do ensino a primeira pauta: “Sempre. Muitas aulas começavam ou acabavam com uma cantiga.” Guarda uma lembrança como se guarda fotografia na carteira: “Uma ex-aluna, hoje no nosso grupo, dizia: ‘quando a professora nos punha no estrado, eu sentia-me numa plataforma e voava’.”

Ficamos mais algum tempo na nave da igreja. A conversa entende-se com a acústica, rola, volta, abre caminho. Isabel conta-me o essencial com aquela brandura que é a sua disciplina. A idade, pesa na voz? “A idade é a idade — 84 não são 48 —, mas sinto o mesmo entusiasmo a cantar. E quando é preciso, bato na mesa para acordarem: as coisas têm de ser feitas como devem ser, com verdade e com respeito.” E o reconhecimento, mudou alguma coisa nela? Traz a comenda do Presidente como quem veste xaile bom: “aquece sem alarido”. E o lugar de viver, não saiu daqui porquê? “Aqui é que eu sinto. É preciso estar humilde para receber e ter capacidade de dar; procurar sempre, renovar, chamar os mais novos a nós, dar continuidade em Manhouce — um símbolo, um bilhete de identidade. Eu sou daqui.” De novo, não interrompo nem acrescento. 

Saímos da igreja e caminhamos até ao café — ainda chove, ainda é a mesma chuva. A aldeia mantém as portas fechadas, os beirais pingam, os varais seguram roupa por secar. Passamos por um azulejo que recita, sem tartamudear: “Eu fui ao céu p’ra ver anjos, / ao jardim p’ra ver flores, / à igreja p’ra ouvir missa, / ao adro p’ra ver amores.” A frase parece ditar o guião. No café, há só mesas ocupadas por silêncio. Conversamos baixinho novamente. Aqui falamos de coisas que não cabem na reportagem. Mas há conversas, e há segredos, que ficam por guardar. Revelo apenas o que é belo de revelar: que daqui da aldeia, em dias limpos de nuvem, “se vê uma linha ténue de mar ao longe”. E falamos da viagem até Manhouce: “É isso o que de mais há nesta vida e que dela mais vai levar, a viagem.” Fica dito, fica entendido e fica guardado.

Saímos e retomo a conversa de há pouco, regresso ao banco da igreja, ao eco do retábulo. Como professora viu as duas salas de aula cheias e vê agora o pré-escolar em ameaça de fechar. O que se perde quando a aldeia esvazia? O diagnóstico é amplo: “Formam-se aqui alunos com notas de se lhe tirar o chapéu e depois não há para si trabalho. Investimos neles e depois nós mandamo-los para fora.” E, sem panfleto, a política geral encaixa: “Há muito esquecimento da aldeia, não desta, de todas.” Mas tanta perda tem uma resposta que resiste, desobediente: “Ainda nos acontece isto, graças a Deus: alguns dos ‘meus’ vão para fora e representam Manhouce. Vi isso em Toronto, vi isso no Luxemburgo. Grupos que levam a nossa música, o nosso traje, a nossa maneira de estar. Ex-alunos meus, em França, têm grupos com cantigas e danças de Manhouce. A freguesia diminui por dentro, mas cresce por fora — espalha-se pelo mundo o que é daqui.”

Falamos das mulheres — é preciso não esquecer as mulheres que cantam e as mulheres que criam, antes como agora. O interior tinha matriarcas de pobreza descalça e coluna direita. “As mulheres tinham uma força enorme aqui, resistiam sozinhas às adversidades porque muitos maridos iam para fora — às vezes não voltavam — e elas ficavam sozinhas já com muitos filhos. Vestiam de preto e até os brincos cobriam. Se os maridos voltavam, era quase como renascer: tirava-se o preto, vestia-se para a festa. Mas enquanto estavam sós, tinham de ‘guardar-se’ — se vestissem claro ou fossem à festa, era mal-interpretado. É resistência — é resistência mesmo.”

Pergunto se o isolamento é no presente maior do que no tempo da emigração de que me fala? Afinal, isolamento não é uma maldição, “é antes marca”. E nada é pior do que antes foi. “Eu conheci esta minha terra sem estrada, sem luz, sem telefone. O isolamento trouxe-nos coisas boas: virados para dentro, fazíamos danças, cantigas, gastronomia com o que havia, trajes iguais para todos. O traje de Manhouce — o do casamento e da festividade — guardava-se na arca, entre naftalinas, e voltava a sair no casamento dos filhos e no dia da Senhora. Se houvesse mais ‘aberturas’, talvez tudo fosse diferente e se perdesse identidade. O isolamento também é marca, sim — e distintiva. Não temos de ter medo disso, do isolamento. O que vem de fora não pode estragar o que é nosso — de corpo e de alma.”

Fecho esta volta de conversa. Saio outra vez da igreja, volto ao centro da aldeia e sigo para o Centro Social. Agora é antes do jantar, agora é o ensaio. Aqui falo pouco, ouço mais. No salão branco há pouco mais de uma dezena de mulheres, umas ainda muito novas, com o rubor da serra ainda a secar na cara, outras seguras, com os anos a darem uma redondez ao timbre, e outras já grisalhas são, mãos calejadas a segurar pastas pretas como quem segura missal. Formam um arco imperfeito, o protagonismo é um semicírculo. Isabel entra devagar — o mesmo chapéu, a mesma trincheira bege, o lenço de seda a defender a garganta. Não canta em todas, quase não canta, ou se canta, canta quase como reza. Está ali sentada, de lado, atenta. Faz o gesto mínimo de quem regula um forno: mais brando, mais quente, “agora”. “A palavra tem de ser dita como tem de ser”, sussurra ao meu lado, e pousa-me a mão no braço para que eu sinta o peso exato da vogal entoada. Começam com “Acordai”, de Lopes-Graça. A canção entra-me como um vento de janela aberta. Os pelos erguem-se como soldados. As vozes casam a frontalidade serrana com uma delicadeza que nenhum microfone pode expandir. 

Isabel fecha os olhos. Na cabeça, volto um instante à conversa da tarde, ao que lá lhe perguntei. O que é que vê quando canta? “Bom, em primeiro lugar, sou eu — a capacidade de cantar o que sinto e o que sei. Mas vejo a terra, vejo a gente. Vejo as mulheres no trabalho. Se canto as malhas do centeio, vejo as eiras. Se canto a Aleluia, vejo a Páscoa. Cada canto é um quadro. Fecha-se os olhos e entra-se no espaço e no tempo.” Porque não é só técnica: “Não. Não, não. Canta-se por dentro. Procura-se o que a letra e a música nos dizem para deitar cá para fora com verdade, para chegar ao outro — o melhor que se souber e puder.” A regra é curta, e é de ouro: “Quem canta só com técnica, não chega lá — são só palavras.”

E volto ao ensaio. A meio, Isabel pede uma pausa e oferece-me, ditas, mas até ditas soam canção, duas chávenas do cancioneiro, que logo bebo. A primeira pousa leve, em voo rasante: “É a Andorinha Ligeira: ‘Andorinha ligeira / que passas o mar além, além / com medo de eu passar a noite / nos braços da minha mãe; / nos braços da minha mãe, / nos braços da minha amada, / onde a andorinha ligeira / no peito leva a geada.’” E agora destapa o verso: “Esta andorinha pode ser o marido, o filho, quem partiu. Leva a ‘geada’ porque leva o frio da partida — e leva calor da família.” A segunda tem pólvora de romaria: “‘Dá um tiro na portela / é para que digam as moças / lá vai o bem desta terra.’” Sorri. “A palavra tem de ser sentida para ganhar sentido — e ganhar outro sentido.” É canção de ciúme. 

Voltam às canções as cantadeiras de Manhouce. Um trio de raparigas encosta as cabeças à mesma pauta, duas senhoras mais velhas alinham a respiração, uma voz mais nova, camisa branca de folho, enche a sala com um mi que ali parece nascido já arredondado. Do lado de fora, a montanha afunda-se no crepúsculo; por dentro, o ar fica denso como nas igrejas. Já pelo fim, Isabel levanta-se e canta uma única vez. Percebo — e percebo sem labor de análise — porque não canta em todas: há vozes que são presença de um Deus que não sabemos bem, e que se acendem apenas quando a luz Lhe serve. 

Na despedida, peço-lhe agora a história do encontro com Rui Reininho, da canção que meteu Manhouce nos auscultadores da pop. Conta sem pontas soltas: “Foi muito engraçado como nasceu. Estava em Lisboa com o Mário Martins, produtor, a tratar do lançamento de um disco do grupo. O Rui telefonou-lhe à procura de uma voz. ‘Uma voz?’ E o Mário disse: ‘está aqui’. Ficou combinado então que levaria a cassete [da ‘Pronúncia do Norte’]. Levei-a, ouvi em casa, e fui ao ensaio. Depois fui a um segundo. Eu dizia-lhe: ‘Ó Rui, isto é completamente diferente do que eu faço, se não precisares de mim, dizes’. Ensaiámos duas, três vezes no máximo. E ninguém me dizia nada. Até que da Valentim de Carvalho me dizem: ‘está como é’. ‘O Rui casou-se e foi para a Índia; a canção ficou feita — e a última parte, em vez de cantarem uma vez, cantaram duas, porque ficou muito bem para ele.’ E nós ficámos amigos até hoje.” Resume a amizade: “somos dois garotos.” E o ensaio fecha, devagar. Lá fora, a noite já ocupou tudo em volta.

A viagem de regresso à cidade troca o cenário por sombra. A paisagem do princípio — água por todo o lado, os verdes, o granito — desaprendeu as cores e fica só contorno. A estrada reaparece curva a curva, o feixe dos médios desenha o S no alcatrão húmido, um cão ladra a uma coisa que eu não vejo. A certa altura, o vento faz vibrar um fio e a noite assobia como os rapazes do antigamente de Manhouce, quando as raparigas lhes respondiam em canto. Um cheiro nítido de lareira, vindo de um lugar sem janelas, entra pelo vidro entreaberto — lenha húmida, é frio a ceder. Bem no alto, perto daquele baloiço virado ao vale — o que de dia pede fotografias e de noite é só um dormente de madeira —, imagino a linha ténue de mar que em dias claros se alcança desde esta aldeia. Hoje não se vê, mas está lá.

Chego a São Pedro do Sul com a certeza de que a serraria tem lei própria. Canta-se de berço à morte, e canta-se de dentro para fora, e só chega ao cantar (ao outro e ao longe) quem respeita a palavra. E as pedras, que pareciam mudas, acabam sempre por aprender e ressoar. Lembro-me que logo à entrada de Manhouce alguém teve razão de sobra para me escrever no ferro da ponte “o amor vive e viverá”. E lembro-me que a viagem — que é o que de mais há nesta vida e que dela mais vou levar — ainda agora começou. E lembrei-me agora do Cesariny: “ama como a estrada começa.”


O País do Meio não é um roteiro, pelo menos não turístico. Esta é uma série de 14 reportagens de Tiago Palma, para ler na CNN Portugal. De Trás-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce a Estrada Nacional 2 e recolhe os retratos — íntimos, sabedores e naturais — de quem é das cidades, ou mais dos lugares, que a EN2 atravessa. Não são histórias de alcatrão, são histórias do caminho, do país real, ouvindo a voz de quem não é notícia — mas é um país, ou faz um país. Na antecâmara das Autárquicas de 2025, o pulso mede-se sem cartazes, sem promessas eleitorais, sem corta-fitas, sem política; o pulso mede-se como mediu Miguel Torga: “Cultivo-me pelos olhos e pelos pés, no alfabetismo íntimo das coisas”.

O País do Meio

Esta é uma série de 14 reportagens de Tiago Palma, para ler na CNN Portugal. De Trás-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce pela Estrada Nacional 2 e recolhe retratos íntimos de quem é destes lugares

Reportagem publicada
Em breve

    Relacionados

    Decisão 25 Autárquicas

    Mais Decisão 25 Autárquicas

    Mais Lidas