O PAÍS DO MEIO || Em Aguiar, perguntar as horas foi insulto durante anos. Hoje, a aldeia ergueu um relógio à entrada e devolveu a troça com humor. “Isto é para os cabrões que vêm de fora não estarem a perguntar as horas.” Na biblioteca, com a Angélica e o Joaquim — netos à volta, e Abril ainda a vibrar num rádio pousado num monte de cortiça — a lenda torna-se lição de confiança
Viana do Alentejo (CNN Autárquicas 2025) - Entrei em Aguiar pela hora em que a luz cai a pino e não há sombras que se atrevam a enganar a paisagem.
À direita, a rotunda ergue um relógio de pulso branco, desmesurado e pacífico, como quem coloca um espelho no meio da estrada só para lembrar que o tempo também se mete à frente do trânsito. Seta para Aguiar, seta para Viana do Alentejo, e o relógio no meio, a acusar as horas que, por estas bandas, não convém perguntar. A história é antiga e tem arestas que o tempo foi polindo com riso e malícia — ora relógio, ora sino, duas versões da mesma lenda que a oralidade trocou de boca em boca —, mas a resposta já tem casa. “Isto é para os cabrões que vêm de fora não estarem a perguntar as horas.” Não é meu o achado, é da Angélica — melhor, do marido da Angélica, que o atira com graça desde o primeiro dia — quando decidiram fincar um relógio à entrada da aldeia, feito no estaleiro municipal e pintado por ela e colegas, “prato da casa”, com ferro, tinta e paciência. Humor contra mito, tijolo contra fantasma. Aguiar escolheu o antídoto mais sério que há — rir de si.
A biblioteca é um cubo fresco de silêncio com papel dentro. A Angélica conhece de cor as lombadas e os nomes das crianças que as devolvem atrasadas, conhece também a história do relógio e conhece o Joaquim, que trouxe dois netos, primeiro inquietos, depois domesticados pelo som da voz do avô, que é uma espécie de casa antiga com portas bem vedadas — abre devagar, mas quando abre cheira a pão. Ficámos ali horas, o relógio do meu telemóvel virado para baixo, a ver se o tempo se esquecia de acontecer. A Angélica tem olhar de quem tira as medidas às coisas, o Joaquim, mãos que guardam memória de terra, a mesma terra que um dia foi “uma rua ao meio e depois tinha várias ruas para um lado e para o outro”, uma terra onde “algumas ruas tinham pedra — paralelepípedos —, mas não eram certos, eram muito irregulares”. “De resto, eram ruas de terra batida, onde nós, crianças — hoje brinca-se com telemóveis, antigamente brincávamos, no inverno, na terra batida — fazíamos atoleiros, ‘tasqueiros’, e jogávamos ao fundo.” Os netos remexem nas cadeiras como quem revolve o soalho, mais tarde, já quietos, vão aprendendo a reconhecer a música que trazem no sangue.
Vim à procura de uma história que é, antes de mais, um teste de confiança. Conta-se em Aguiar que, num desses anos magros, a aldeia juntou-se para dar hora certa à igreja. Peditório à antiga — cada qual com o que podia, umas moedas, um ou outro escudo mais pesado — e a promessa de que o relógio voltaria a falar. O padre seguiu caminho, disse que tratava do assunto, e ficou combinado que a encomenda chegaria sem alarme. Um dia, estaciona no largo uma viatura com uma caixa maior do que a paciência do povo. Chamou-se gente. Fez-se quase feriado. As mulheres abriram alas à pressa e houve quem pedisse licença com a frase que ficou para sempre: “Deixem passar que o meu marido também tem parte!” A tampa levantou-se devagar, como se se abrisse um sacrário. E, em vez de rodas dentadas e ponteiros a brilhar, um enxame de cornos atados à vergonha de todos. Foi assim que a lenda ganhou pernas. Perguntar as horas deixou de ser pergunta — virou afronta. Perguntar as horas em Aguiar podia render lapidação simbólica, pior, podia devolver à boca a palavra corno como quem dá de comer a um bicho voraz. E a aldeia, que tinha dado o que tinha, aprendeu a desconfiar de qualquer caixa que chegasse cheia de promessas.
Noutra variante trocam-se as peças do relógio por bronze de sino e o caixote volta a transbordar da mesma fauna caprina. Quem conta um ponto acrescenta um ponto, e o Alentejo — que não precisa de manual de instruções para a ironia — trata do resto. O que importa, protegida a inocência dos nomes e a inocência das épocas, é o recado que fica por baixo do folclore — não se confia por confiar.
Saímos da biblioteca pela sombra e fomos dar a volta ao quarteirão para ver o tempo pregado às paredes. Na fachada branca da igreja, o relógio redondo leva assinatura antiga — “COUSINHA – ALMADA” — e por baixo uma frase em latim que atravessou décadas como quem atravessa um largo ao sol — “Si sol recedit, nemo me respicit” — traduzo em voz baixa: “Se o sol se afasta, ninguém olha para mim”. A placa diz o que tinha de dizer, com a data, o bispo auxiliar e o nome do pároco, e a sineira completa a iconografia do tempo — o profano e o sagrado a medir o mesmo minuto. O Joaquim olha a altura e aponta o meio-dia com a mão, como se pudesse ainda enxergar a sombra da picota a encostar-se ao ponto certo. “Nunca usei relógio. Habituei-me a trabalhar cedo — tinha 12 anos —, fui para a herdade da Ficalho. Trabalhava com o Tóni Acácio, eu era ajudante de gado, ele era o maioral.” Interrompe o gesto, volta à imagem. “Ele dizia-me, ‘Já sabes… olha o pau da cegonha, da nora, da picota, vês a sombra a rodar, quando chega aqui já sabes que é meio-dia.’ O meio-dia era fundamental, era para parar.” Dita assim, a frase fica com o peso de uma água — parece leve, mas leva anos de sede.
Antes, há muito antes em Aguiar, o tempo cabia numa jorna que, tantas vezes, fazia de relógio um luxo de cidade. “Eram pessoas que trabalhavam no campo, na agricultura. Naquela altura, em algumas fases eram dez horas, noutras até era de sol a sol.” Atravessa a memória com calma, como quem anda devagar num carreiro. “Nós, crianças, víamos os nossos pais às vezes ao fim de semana — e era quando os víamos — porque naquela altura trabalhava-se sempre. Abalava-se de noite de casa e chegava-se à noite a casa. Muitas vezes os filhos já estavam a dormir quando eles chegavam e, quando saíam, continuavam a dormir.” O Joaquim não dramatiza, não precisa. A imagem basta — duas noites a tocá-las com os olhos e, no meio, o corpo cansado dos pais a trabalhar para um patrão que pagava o dia em dez horas e, se pudesse, metia mais duas de contrabando. “Fome? A fome é real. Era uma sardinha partida para três ou quatro. Isso não é uma frase feita, é verdade. E era quando havia.” Não há nada nesta frase que se possa polir — a espinha ficou.
Há um momento em que a história me puxa pelo braço e me obriga a olhar para a minha raiz. Trago Lisboa no bilhete de identidade, mas o chão que me segura aprendi-o noutro ritmo. Vem de Baleizão essa gramática íntima, herdada sem assinatura e passada de boca em boca. Não conheci os avós de Baleizão. Sei-lhes os nomes e a coragem. O José e a Francisca foram gente de resistência, comunistas que aprenderam a dizer não quando o país pedia silêncio. Imagino-os nas páginas de Levantado do Chão, naquele sobejo de fome e dignidade, e vejo-os a atravessar Seara de Vento com o passo baixo de quem sabe onde dói a terra. Baleizão não é Aguiar, são lugares diferentes, mas reconhecem-se no mesmo Alentejo — essa herança de resistência que passa de aldeia em aldeia como um recado antigo. Foi assim que aprendi a ouvir antes de falar. Não é vaidade, é pertença. Talvez por isso chegue a Aguiar como quem regressa a uma casa conhecida e me sente à mesa com o Joaquim e a Angélica sem pedir licença ao relógio.
O Alentejo que se guarda no corpo é uma cinemateca portátil. No dele, Joaquim, há um filme inteiro de ceifa e debulha, “máquinas fixas” e eiras, medas e braços a carregar. Havia “praças de jorna” e havia quem, a certa altura, juntasse gente à sombra da igreja para negociar um direito que hoje parece evidente. “Às oito horas. Era uma luta. Era uma luta, às vezes, com carga policial.” Pousa a mão, mede as palavras. “Muitas vezes as pessoas diziam, ‘Nós não queremos trabalhar mais.’” A cena compõe-se ao lado da igreja. “Nessas alturas os agrários aqui à volta não queriam trabalhar oito horas, queriam trabalhar dez, se possível mais, para pagar o mesmo.” E a praça responde. “Dizia-se, ‘Não, nós só queremos trabalhar oito horas.’ Então lá vinha a GNR, a malta juntava-se aqui do lado da igreja. Perguntavam, ‘Quem é que não quer ir?’ E às vezes havia o seu sarabulho.” O sarabulho não é o prato, é a repressão, é o rebuliço. E o rebuliço tem, às vezes, cassetete. “As pessoas também tinham receio, medo de apanhar, de serem espancadas.” E a sombra estica pela noite. “Perder o trabalho e serem presas. Porque o problema era depois, à noite, e ninguém sabia o que ia acontecer.”
Há uma manhã de 25 de abril que não largou a pele do Joaquim. Não entrou pela televisão, entrou pelo rádio, que é um instrumento de ver. “Eu trabalhava numa herdade aqui, a Falcoeira, andava a tirar cortiça à falca — agora já não se faz esse trabalho.” A lembrança acende-se inteira. “E, de noite, começou-se a ouvir um barulho. Um amigo levou um rádio, pô-lo em cima de um monte de cortiça e a gente ouviu todo o dia o que se estava a passar.” A dúvida passou o dia consigo. “Tentávamos perceber, ‘Isto será para quê? Para que lado é que vai cair? Para o bem ou ainda vai ficar pior?’ Havia sempre essa dúvida.” Ao cair da noite, clareou. “Depois, à noite, começámos a perceber, quando apareceram os comunicados do Movimento das Forças Armadas, que afinal havia aqui algo novo, que o Governo tinha caído e havia a ideia de implantar em Portugal uma democracia. Foi um dia de grande alegria. À noite, quando regressámos do trabalho, toda a malta se juntou aqui no meio da rua — havia alegria, esperança. Parecia o dia da festa da aldeia.” O rádio em cima do monte de cortiça faz de altar e de púlpito, e a voz que sai dele benze um país.
A reforma agrária acendeu um fósforo em muitas casas. “A reforma agrária em Aguiar significou que as pessoas mudaram muito a sua qualidade de vida. Começámos a receber um ordenado, a ter um dia certo, sabíamos para onde íamos trabalhar, e começámos a ter direitos.” O enunciado vem simples, como uma conta de mercearia. “Começámos a fazer os nossos descontos — é verdade —, mas também começámos a ter direitos que não tínhamos até então.” Vê-se quem ficou de fora demasiado tempo. “Muitas daquelas senhoras, se calhar da idade da sua mãe, tinham absolutamente zero anos de desconto, apesar de terem trabalhado a vida toda. Zero — até ali por 1983. Era absolutamente miserável.” O Joaquim puxa pela memória para lhes pagar um pouco de atraso. “Aqui, a vila começou a crescer, construíram-se casas — naquela altura era autoconstrução. A Câmara definia as áreas onde se podia construir, e depois cada um, com a ajuda do vizinho, do outro, toda a gente construía uma casa.” O desenho das ruas aparece no ar. “Muita gente aqui construiu casas assim, muito parecidas em algumas zonas, porque eu ajudava aquele, o outro ajudava-me a mim, e assim sucessivamente — até que começaram a aparecer os empreiteiros.” É fácil ver essas fachadas irmãs, varandas com os mesmos remates, a aldeia a aprender arquitetura por entreajuda.
A rua hoje é outra — como mudar de um filme a preto e branco para a cor. Aguiar é quase um dormitório da cidade de Évora. Quem não trabalha na cidade trabalha nos serviços, na indústria, a agricultura absorve muito pouco, muito pouca mão-de-obra. Ainda há miúdos. “O recinto junto ao parque infantil é fechado. Tem parque infantil, campo de pádel, ringue — eles jogam à vontade.” Os miúdos ainda saem à noite para bater às portas, há trotinetes e a vizinhança olha uns pelos outros. “E há o ATL da Câmara que é quase de borla, o valor é irrisório, basicamente para o seguro, e as inscrições fazem-se comigo” — diz a Angélica, fala a Angélica Baixinho, por fim, ela que conhece famílias pelo primeiro nome, e os primeiros nomes trazem os avós pelo braço quando é preciso. “As pessoas que são daqui, com pais que aqui cresceram e viveram, e tios e avós, têm sempre essa possibilidade. Mesmo sem creche, há sempre os avós.” E desdobra a rotina como quem abre um caderno. “Comigo é o caso, os meus filhos trabalham e os meus netos estão comigo — agora, porque não estão na escola, a partir de amanhã já vão. Se os pais não conseguirem ir buscar à escola, vou eu.” A frase parece uma coisa doméstica e é uma política pública que não cabe em decreto — rede de sangue, abertos de casa.
Nem tudo, porém, mudou de cor. “O que mais me interessa é a saúde. Temos tido grandes problemas. O hospital é o de Évora, mas temos aqui um centro de saúde que não tem médico. Vem uma vez por semana — e é quando vem.” Fica a espera na sala de espera. “Ainda há quem tenha médico de família… no papel. A médica não está cá. E quando cá vem, dá três consultas, quando há dezenas a precisar — ficam para a semana seguinte e vão sendo adiadas.” Entre a geografia que ajuda — um pequeno oásis pela proximidade a Évora e Viana — e o resto do Alentejo, que se nota mais a desertificação, abandono mesmo, há uma cicatriz que pede pontos — o interior que envelhece e os jovens que precisam de sair. “Deu a possibilidade de outros, não sendo daqui, virem viver para cá. Há muita gente que veio de Évora, de Lisboa e de outras terras.” As casas vêm subindo, como em todo o lado, mas não como em Évora. “Com o dinheiro de uma vivenda aqui — algumas com piscina e bom quintal —, em Évora compra-se um apartamento minúsculo. O mercado imobiliário também tem a sua oralidade — os números contam-se com as mãos.”
Voltamos à lenda pelo caminho da matéria. Angélica, que nunca se perdeu no labirinto das bibliotecas, lembra como foi dar a volta à história. “Foi há uns dez anos — talvez mais. Eu sou funcionária da Câmara e, na altura, estava também no executivo da Junta. Em reuniões sobre a Festa da Primavera — festa anual, em junho, que embeleza as entradas da vila e o recinto — surgiu a ideia do relógio.” O plano saiu do papel depressa. “Falei com o presidente da Junta e avançámos. Os colegas do estaleiro municipal fizeram o relógio. Eu e colegas minhas pintámo-lo. Não foi encomendado fora — foi ‘prata da casa’.” Nem toda a gente achou graça de início. Por estas terras, a memória também tem reumatismo, dói quando muda o tempo. “Muita gente gostou — a maioria. Ainda houve duas ou três pessoas mais velhas que acharam que estávamos a gozar, alguém me ligou a perguntar de quem foi a ideia.” E fecha com o remédio certo. “Mas, ao fim e ao cabo, foi bom, retirou o peso de uma história que provavelmente nem é verdade.” A frase fica onde deve ficar — no meio das coisas, a recordar que o humor, quando é remédio, não faz erupção.
Se o mundo rural precisa de museu para contar a sua coragem, há paredes em Aguiar que fazem de curador. No mural, os ceifeiros com lenços amarelos abrem clareiras na cal — trabalho que foi medida do tempo — e, no outro, a pomba e o cravo escrevem 25 de Abril com cores de escola primária e assinatura manuscrita, como se ainda fosse a primeira vez. A Angélica posa junto ao desenho com a naturalidade de quem passa todos os dias por ali, e o Joaquim volta ao milho como quem volta a uma infância tardia. “Aqui, a nossa cooperativa sobre produziu muito. Havia uma coisa que não se produzia na região — o milho — e nós produzimos muito milho.” Para que não restem dúvidas, repete o peso. “Produzimos muito milho, trigo também produzimos muito.” Hoje, a paisagem mudou o tom. “Dá-me tristeza olhar para o campo e ver as oliveiras que vejo aí e as amendoeiras. E os painéis solares. Principalmente as oliveiras — olival superintensivo, em sebe” A enumeração continua na mesma linha. “Nós tínhamos olivais e deixámo-los apodrecer, por exemplo nas regiões de Moura e até aqui, algumas amendoeiras apodreceram para se aproveitarem aquelas que temos aí. Agora é um mar de amendoeiras em terreno que podia produzir milho.” E fecha no lugar onde o milho corria. “Nós, em cooperativa, junto às margens da ribeira do Xarrama, produzimos muito milho — toneladas de milho tirávamos dali. E isso parou tudo.” A palavra tristeza, no Alentejo, não faz barulho, fica a olhar devagar.
As lendas são boas porque cabem nelas muitas aldeias e cada aldeia leva a sua parte. A rivalidade é a parte mordaz, picara, trocista do mito. Nos dias maus atira-se a graça como quem atira um tomate maduro, espatifa-se na parede e limpa-se depois. Joaquim ri-se do folclore e recorda o catálogo de provocações entre terras: numa, por fazerem panelas, ficaram “você sabe” — trocadilho que a oralidade fazia sem pudor —, “noutra chegaram a enterrar bacalhau à espera que nascesse um bacalhoeiro”. Não é ciência, é o riso que pica o orgulho. O relógio da rotunda, no entanto, muda o jogo. Não é só resposta, é dedo no mapa. Quando um forasteiro chega, o relógio já lá está, a dizer de cara — em Aguiar pergunta-se tudo, menos as horas, porque a pergunta é, ao mesmo tempo, uma pergunta e uma ferida antiga. E, no entanto, a ferida cicatrizou à vista de todos. Houve até quem espalhasse flyers no Largo 25 de Abril com um relógio desenhado e a pergunta “Que horas são?”. “As pessoas ficaram fulas — e correram a apanhar tudo.” Uma aldeia a limpar o chão é uma imagem bonita, é também uma maneira de dizer que o chão é de quem fica.
Joaquim gosta mais de relógios de sol. Gosta do ponto em que a sombra encosta e permite o descanso. Levou décadas a aprender a sombra, como tantos outros. “Onde se ganhava mais alguma coisa era no tempo das gadanhas, as pessoas iam gadanhar e ganhavam. Os patrões diziam, ‘Se fores capaz de gadanhar este bocado, dou-te isto.’ Então eles forçavam-se para acabar aquilo o mais rápido possível, para ver se ainda apanhavam outro.” E o cálculo do dia seguia adiante. “Aí, às vezes, ainda tinham mais algum dinheirito. Ou no tempo da azeitona, em que se pagava ao saco, quantos mais sacos apanhasse, mais ganhava. Mas era sempre à custa de muito, muito trabalho. Exaustão. Ganhava-se algum dinheiro porque se trabalhava muito, para ver se se conseguia chegar mais além. Exaustão mesmo.” Exaustão, repetida — o resto lê-se nos braços.
Ficámos ainda a falar do futuro, que é aquele país que os netos vão habitar primeiro. Joaquim pousa as mãos na mesa. “Penso que eles terão de escolher onde querem viver. Os meus netos farão o possível que os pais conseguirem. Se os pais tiverem condições, poderão estudar — como os meus filhos estudaram —, mas estou a ver isso muito feio.” O horizonte estreita. “O acesso ao ensino superior está cada vez mais complicado, vai tornar-se cada vez mais um privilégio dos abastados, em vez de uma coisa democrática.” Angélica endireita-se na cadeira, responde com biografia: um filho que rodou quartéis pelo país fora até encontrar dentro da farda a vontade de seguir carreira, dois anos sempre longe, uma casa que esperava. “Se o futuro deles passa por aqui ou não, depende do que quiserem fazer e seguir. Há profissões que sim, a maioria não. Para crescerem, se calhar terão de sair.” O Alentejo tem esta coisa de dizer a verdade em tom baixo, para não assustar as crianças que já entendem.
Há também a política de todos os dias, aquela que não vai ao telejornal, mas fica entranhada nos músculos. Agora, Joaquim apoia os cotovelos na mesa. “Penso eu que nalguns aspetos não seja possível voltar atrás. Hoje quem trabalha tem ordenado mensal, décimo terceiro mês, subsídio de férias.” O aviso vem sem megafone. Continua a marcar as palavras com a mão. “O voltar atrás é possível, na minha opinião, nos direitos dos trabalhadores — e esse é o perigo. O objetivo parece ser liberalizar cada vez mais o trabalho, para haver ricos tem de haver pobres.” Não é um manifesto, é uma constatação dita num banco de biblioteca com os netos à roda, um deles já a dormir a sesta de cotovelos. Na mesma cadência, já a puxar a economia ao bolso: “Dizem na televisão, em campanha, que é preciso aumentar salários — mas nunca se diz que as mais-valias criadas nas empresas devem ser distribuídas. Fala-se em taxar menos as grandes empresas, acabar com a TSU, dividir o desconto para o ordenado. A pessoa fica prejudicada, é o princípio do fim da reforma quando chegar a idade.” A idade, quando chega, é sempre mais cedo do que se pensava.
Quando a tarde começou a ceder, pedimos ao relógio da rotunda licença para sair. Passámos ainda pela Travessa do Senhor Morto, ao lado da igreja, topónimo de procissão e caliça — nome que, à primeira vista, podia parecer recado ao padre fugitivo da lenda, mas não lhe serve o casaco, é título de andores antigos e parede caiada — e eu fiquei a olhar as aldrabas, as bocas-de-chave trabalhadas, as portas que rangeram muitas vezes às oito — a hora que deixou de ser de patrão e passou a ser de gente, palavra de ordem que encostou a jorna ao limite. Havia em tudo uma perfeição de provérbio. E havia também, à beira da estrada, uma espécie de promessa. “Hoje em dia, Aguiar é totalmente diferente. É como mudar de um filme a preto e branco para a cor. Isto também serve os netos — não só o avô e os pais, mas também os netos.” Joaquim fecha a frase sem ponto final, como quem deixa um pouco do assunto para a próxima conversa. Os netos, agora calmos, olham-no a abrir “histórias” como quem desfolha uma espiga — camada a camada até ao grão, sem pressa, a língua a mastigar os anos.
Antes de nos despedirmos, caminhámos até ao mural que fala de Abril. Angélica encostou-se à pomba e ao cravo como quem encosta o ombro a uma testemunha. Passou os olhos pelo rodapé, como quem confirma sem precisar de confirmar, o nome de quem pintou — a assinatura que dá corpo à memória: JÉCA. E acrescenta, quase a sorrir: “A Jéca sou eu.” É no detalhe que a aldeia encontra a sua escala. Quando a luz baixou, os sinos ficaram de chumbo contra o céu e o relógio redondo na fachada parecia um olho que não pestaneja. Não sei quem inventou a lenda da caixa, não sei quem lhe acrescentou cornadura múltipla, não sei quem acertou a pontaria à vergonha de uma aldeia inteira. Sei o que os anos fazem a uma história — amaciam-na, dão-lhe graça, devolvem-na aos seus, até que os seus a devolvem ao mundo como quem oferece um copo de água. Angélica tinha dito, “Ao fim e ao cabo, foi bom, retirou o peso de uma história que provavelmente nem é verdade.” Ficou-me a frase a roçar o ouvido como o badalo no bronze.
Meti-me na estrada com Viana lá ao fundo, a seta a marcar o caminho. À saída, o relógio de pulso, enorme, ficou a vigiar o entroncamento como um polícia educado. Não lhe perguntei as horas. Bastou-me lembrar que houve um tempo em que o meio-dia se via na sombra da nora e que houve outro em que um rádio em cima de um monte de cortiça virou o país do avesso. E lembrei, por fim, que o Joaquim, o homem que me contou Aguiar por dentro, levou os netos como quem leva o futuro pela mão e, só no fim, já ao portão, deixou cair uma espécie de nota de rodapé — antes de reformado foi deputado, Joaquim Teixeira, naqueles tempos em que eu mal era nascido, e talvez por isso as palavras lhe assentem como fato talhado. O resto é o que se aprende na rua — não se confia por confiar, mas também não se desconfia de tudo. Em Aguiar, o tempo aprendeu a rir de si e pendurou a lição à entrada, à vista de toda a gente, para que ninguém se engane duas vezes com a mesma caixa.
O País do Meio não é um roteiro, pelo menos não turístico. Esta é uma série de 14 reportagens de Tiago Palma, para ler na CNN Portugal. De Trás-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce a Estrada Nacional 2 e recolhe os retratos — íntimos, sabedores e naturais — de quem é das cidades, ou mais dos lugares, que a EN2 atravessa. Não são histórias de alcatrão, são histórias do caminho, do país real, ouvindo a voz de quem não é notícia — mas é um país, ou faz um país. Na antecâmara das Autárquicas de 2025, o pulso mede-se sem cartazes, sem promessas eleitorais, sem corta-fitas, sem política; o pulso mede-se como mediu Miguel Torga: “Cultivo-me pelos olhos e pelos pés, no alfabetismo íntimo das coisas”.
O País do Meio não é um roteiro, pelo menos não turístico. Esta é uma série de 14 reportagens de Tiago Palma, para ler na CNN Portugal. De Trás-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce a Estrada Nacional 2 e recolhe os retratos — íntimos, sabedores e naturais — de quem é das cidades, ou mais dos lugares, que a EN2 atravessa. Não são histórias de alcatrão, são histórias do caminho, do país real, ouvindo a voz de quem não é notícia — mas é um país, ou faz um país. Na antecâmara das Autárquicas de 2025, o pulso mede-se sem cartazes, sem promessas eleitorais, sem corta-fitas, sem política; o pulso mede-se como mediu Miguel Torga: “Cultivo-me pelos olhos e pelos pés, no alfabetismo íntimo das coisas”.
O País do Meio
Esta é uma série de 14 reportagens de Tiago Palma, para ler na CNN Portugal. De Trás-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce pela Estrada Nacional 2 e recolhe retratos íntimos de quem é destes lugares