Dia 10, Avis. Não é só quem está no convento que sabe o que lá vai dentro

1 out 2025, 07:00
O PAÍS DO MEIO || Dia 10, Avis

O PAÍS DO MEIO || A EN2 abranda em Avis e, numa das pontas da muralha, há uma porta que se abre mais vezes do que se anuncia. Vinha para ouvir a Joana Villaverde; encontrei a Margarida Carreiras — 22 anos, de cá — a segurar a chave e a respiração do lugar. A Officina Mundi faz cultura como quem cria um hábito: últimos sábados com gente, dias silenciosos com cavalete, tinta e paciência. As telas na nave são da Joana, a única da Margarida chega depois, vinda de casa: água que parece barragem e diz de onde se olha. No norte alentejano onde tantas coisas chegam tarde, este convento não promete: pratica. Abre. E cada entrada não conta público — funda pertença

Avis (CNN Autárquicas 2025) - A EN2 não dá ordens; convida. 

Entra no Alto Alentejo com aquele vagar de estrada que prefere os olhos aos mapas e, quando dá por si, encosta-se a uma muralha com janelas rasgadas e um rumor antigo de passos. Avis aparece assim: primeiro o branco, depois o vento, por fim uma porta. Vinha para falar com a Joana Villaverde — perceber como a Officina Mundi abre cultura num norte alentejano onde o acesso chega tarde ou não chega — e recebo a mensagem mais útil das férias: “Olá, Tiago. Não estou em Avis. Mas está na Officina a Margarida e a Margarida pode conversar contigo e mostrar o espaço.” O país do meio costuma fazer isto: desloca o foco sem mudar o assunto. A casa fica; muda a voz que a diz.

A porta abre devagar, como quem pede licença ao convento. Lá dentro, a luz sobe em planos, pousa nas paredes caiadas, insiste no teto alto e encontra o que veio procurar: pintura. As telas que preenchem a sala são da Joana — espessura certa para um lugar que programa, recebe, persiste. A Margarida circula entre elas com a delicadeza de quem mexe em livros herdados. Veste t-shirt larga, óculos de armação verde, aquela timidez que dura o tempo do cumprimento e se desfaz quando lhe faço a pergunta mais antiga.

“Sou a Margarida Carreiras, sou de Avis. Tenho 22 anos.” Está na Officina como assistente “da oficina e, às vezes, da Joana”. Chegou em 2020 pelo programa Jovens em Movimento, ficou nos verões — três meses de cada vez — e aparece quando é preciso, fora de época. “Gosto de pintura — é isso que faço.” Diz isto sem ponto de exclamação, como quem recita uma decisão discreta. Antes de qualquer cartaz, há o trabalho miúdo que não aparece: saber onde estão as chaves, a que horas se acendem as luzes, quem atende quando é preciso montar som, passar pela praça a deixar cartazes, dobrar flyers, telefonar a quem ainda não veio. O ofício também mora nisto — na logística que faz a casa respirável. E, antes de qualquer currículo, dá-me a chave do hábito que aqui sustenta a casa: os últimos sábados. Porta aberta, sem cerimónia: às vezes música que enche a nave e a transforma em caixa de ressonância, outras, cinema, conversas, residências que começam em partilha e acabam só em processo. No aniversário de 5 de maio, a casa celebra-se: concerto, vozes a ecoar na nave, comes e bebes na rua, vizinhança que se reconhece. O que interessa é isto: abrir. Num agosto recente contaram-se 27 pessoas a entrar; três ou quatro eram da vila. Pouco para um cartaz, muito para um começo. Aqui, cada pessoa que entra não soma: inaugura. E cada porta aberta não decora a casa: funda-a de novo.

Sendo ela daqui — e “daqui” em Avis tem peso de pertença — interessa ouvir o que a infância fez ao olhar. “Cresci num monte, Tapada da Guardina. Tornei-me muito contemplativa. Absorvo imenso. Sinto-me confortável no silêncio — é natural para mim.” Natural porque é do lugar: a parte mais de campo, o ar que chega sem pedir hora, uma paz que não precisa de legenda. “Talvez por isso as minhas pinturas absorvam tanto da natureza — é a minha paz com o espaço.” Não é a natureza como tema; é método, temperatura. Quando lhe pergunto quando percebeu que era ali que a mão dizia melhor, ela não hesita: “Porque me é próximo. Vem por naturalidade. Quando me perguntei o que queria pintar, percebi que o que me é mais quente sai sem insistir — está aqui e precisa de sair.”

Subimos. No piso de cima, a luz tem outra coragem. O andaime amarelo encosta ao teto, a biblioteca ocupa uma parede inteira de lombadas — Robert Hughes à conversa com Rothko e Schiele, “The Body” metido entre catálogos — e as janelas quadram o céu como se o céu fosse hábito. É aqui que a Margarida fala de escolas. Primeiro Évora, Artes Plásticas e Multimédia; agora Caldas da Rainha, Artes Plásticas. O contraste não vem embrulhado em ressentimento; vem em diagnóstico. “Nas Caldas sinto-me ouvida. Sinto que valho e que a minha prestação vale. Os professores querem saber. Antes, tive muitas inseguranças. Sentia que tinha de defender o meu trabalho com unhas e dentes — sozinha. Faltava senso de comunidade.” A diferença entre um atelier que convidava a explicação e outro que forçava o julgamento, entre um professor que procura e outro que exige prova. Estudar fora mostrou-lhe outra coisa: “Quem vem de Porto, Lisboa, litoral já viu muito mais. Trazem referências.” Também ouviu, mais de uma vez, que o mercado é curto, que “Portugal não dá”. Ela responde sem drama: há esperança de que dê; e, se for preciso sair, sai — com a ideia de voltar. Nas residências que passam pela Officina, quase todos são mais velhos e vêm desses meios de cultura, Lisboa e Porto. Chegam com estrada feita e, por contraste, ajudam a desenhar o mapa do que ainda falta por aqui. Ela trouxe o que tinha: silêncio, paciência, um monte e a vontade de voltar.

Voltar. A palavra percorre a casa toda. Conta-se o tempo em verões: às vezes baralha-se a lembrança entre 2018, quando a Officina abriu, e 2020, quando entrou. O que importa é a continuidade — estar. “Imagino-me sair assim que for preciso, mas imagino-me sempre a voltar.” O retrato demográfico não precisa de adjetivos: poucos jovens, muitos avós. Quem estuda sai; raros regressam. O resto são logísticas que o país tanto discute e pouco resolve: “Para Évora não tinha transportes públicos e não tinha carta. Ia à boleia. Saúde também falta — o centro de saúde abre poucas vezes.” É um parágrafo que se escreve com datas e horários, mas a frase que fica é outra: “Reconheço-me mais aqui. É importante ir, aprender — e trazer coisas para cá.” O que a Joana fez em 2018 — fincar um ateliê, programar, abrir — redesenha o mapa: há uma casa onde, uma vez por mês, se entra para ver, ouvir, perguntar.

Descemos. O rés-do-chão devolve ecos. É um organismo: cheira a óleo de linhaça e a terebintina, um carrinho de tintas com rótulos que parecem selos, tomadas alinhadas numa parede, cadeiras que esperam. Nos dias sem programação, a janela abre-se para dentro: ela encosta um cavalete, estende panos no chão e faz do silêncio um estúdio — a casa empresta-lhe o pulso. A Margarida conta o início sem maquilhagem. 2020, pandemia, programação reduzida, mais tempo para experimentar e tropeçar. A Joana diz “faz”; ela pergunta "como" — como é que se mede com o corpo, como é que se arranca quando o corpo hesita. “Faz só, não importa.” Entre esse impulso e as caixas de acervo que desceram do piso de cima, percebeu uma verdade que os ateliês às vezes escondem: a beleza dá trabalho. O corpo organiza a cabeça: montar, transportar, pendurar, anotar, desmontar. A gramática do serviço é a gramática da criação.

As telas da sala são da Joana — é uma informação simples e importante. A única pintura da Margarida vai aparecer mais tarde e não estava no espaço quando entrei. Primeiro, falamos de vir a ser. De como a mão saiu do académico “com narrativas, cenas figurativas muito influenciadas por pinturas antigas” para matéria mais abstrata, menos explicável. De como o feedback muda consoante a geografia de referências: “Quem está dentro do mundo da arte percebe mais depressa. Entre pares sinto-me mais compreendida. Quem não está habituado precisa de outra porta.” De como o impulso de explicar ainda lhe sai à primeira: “Talvez por ser jovem. Talvez seja vontade de partilhar.” A pergunta “deve o trabalho ser amplo, chegar a toda a gente?” fica suspensa: “Ainda não sei.” A honestidade pesa mais do que a estratégia.

Falamos de casa. Tias e avós de têxteis, ponto cruz, mãos ocupadas — nenhuma escola secreta no quintal. “Sempre tive apoio em casa.” Falamos do olhar de fora que às vezes classifica o que não reconhece. “Há quem me pergunte: ‘Mas o que é que fazes lá em cima?’ Digo, e acham que ando a brincar — que não é trabalho ‘a sério’.” Falamos da paciência, que aqui é programa cultural: “Consigo pôr-me no lugar deles. Em vez de excluir, explico.” Falo-lhe de conversas difíceis — sexualidade, diversidade, linguagens novas — num território envelhecido. “Com menos pessoas e mais gerações velhas, há menos abertura. A bolinha vermelha no meio das azuis fica logo estranha. Não devia ser, mas é.” A frase não vem armada; vem com a gentileza dos que sabem ficar e abrir outra vez.

É então que acontece a cena certa. A Margarida pede um minuto, sai à rua com aquele passo de quem conhece o declive, e regressa com um quadro nos braços. Foi a casa buscá-lo. Não estava exposto — mantém-se a regra do dia — e isso dá ao gesto um peso bonito: não vem mostrar “um trabalho”, vem mostrar a escolha. “Estava indecisa entre vários e trouxe este. É o que me é mais quente.” O quadro é água. Não água de postal — água como memória. Verde que se arrisca para turquesa, respiração de luz a meio, qualquer coisa de barragem sem contar as margens. No precisa de botânica nem de geografia; precisa de olhos. Ela segura-o como quem ampara um instrumento, encosta de leve ao peito para o mostrar inteiro, endireita uma esquina mínima, dá meio passo atrás. “Tem a ver com a barragem, sim, e com a sensação de ali estar — acalma-me. É familiar. Sei o que é mesmo quando não sei dizer.” E, dito isto, apetece-lhe ainda explicar — talvez seja esse o traço do início, essa generosidade quase ansiosa de dar chaves. Há aqui um pudor bom, de quem começa e quer encontro: explicar é também desejo de que a mão e o olhar alheio se toquem a meio caminho.

Pergunto-lhe pelo pânico discreto de expor. Não de mostrar a amigos — de pendurar na parede com gente a passar, corpo aberto ao ruído. “Intimida. Na escola há urgência de mostrar que aquilo conta e, às vezes, o corpo não está pronto. Nas redes comparam muito — ‘parece isto, parece aquilo’.” Há também a casa a olhar sem “bases” — e esse olhar é precioso. “A minha avó pode gostar sem ter estudado nada daquilo — isso é importante para mim.” Não há tese: há uma linha de equilíbrio tateada entre a exigência do ofício e a partilha com quem não vive dentro dele.

O país grande volta à conversa por uma porta pequena. Falo-lhe da estatística; ela responde com exemplos. No verão, programam-se últimos sábados, “a música puxa mais gente da vila”, o cinema junta outro público, as conversas abrem a casa, as residências mostram processos, às vezes só começos. A segurança aqui tem a sua gramática: a porta pode ficar aberta horas, quase sempre — quase. Há um “mais ou menos” que toda a gente entende, uma prudência que não estraga a confiança. Há velhas que param à porta e perguntam “é aqui a coisa da cultura?”. É. Entram, ficam ao fundo, ouvem, às vezes dizem “não percebi nada, mas gostei”. Na rua, reconhecem a casa pelo sítio: “aquela porta na ponta da muralha”. O “não percebi nada, mas gostei” é uma vitória. A Officina é uma teimosia financiada por uma decisão política simples — “o atelier é cedido pelo município” — e por uma ética de ofício: não é inaugurar, é abrir. O convento — o convento que foi ordem, castelo, igreja-salão e capítulo — fornece a espessura; o presente dá o uso.

Há ainda a estrada invisível, a de dentro. A Margarida diz que, às vezes, “forço e não sai”. Irrita-se, para, espera. Depois volta. “Não tenho outra coisa que me agarre assim.” O método passa por coisas pequenas: ir até à barragem, sentar-se cá fora, rodear-se de gente que cria, deixar o corpo chegar antes das ideias. Não planeia pinceladas — planeia disponibilidade. “Há uma alienação boa — faço e só depois percebo.” É a mesma regra com que se escreve: só quando acaba é que se percebe onde se esteve.

Regressamos ao começo para acabar. A primeira vez que entrou aqui, diz, “tive medo”. A casa fazia eco, a nave era grande, a cadela apareceu primeiro, a Joana desceu logo a seguir — e a conversa, desde então, tem sido descomplicada. Essa descomplicação deu-lhe linguagem: autorretratos para começar, exercícios para soltar a mão, trabalho físico para ganhar chão, acervo para organizar, porta para abrir. Entre uma pergunta e outra, a Margarida dá um passo para a rua e a luz cai-lhe no rosto como confirmação. É neste gesto que uma política cultural se resolve: numa jovem de Avis que segura uma chave, sabe a quem ligar, explica sem condescendência, aprende a dizer “não sei ainda” sem se diminuir — e pinta. E talvez, com esse ir e vir, seja ponte: para que o miúdo de dez anos que hoje passa à porta não tenha de justificar tanto, amanhã, o gesto simples de querer pintar.

A EN2 retoma o sul e a vila fica ao nível do ombro. Penso no título que trouxe no bolso e que hoje tem mais corpo do que quando cheguei: "Não é só quem está no convento que sabe o que lá vai dentro." Sabe a Joana quando está, sabe a Margarida quando a casa lhe passa a palavra, sabem os que entram sem saber o que procurar e saem a dizer “não percebi tudo, mas gostei”. As telas da Joana asseguram a espessura do lugar; a única tela da Margarida — aquela que ela foi a casa buscar, escolhida entre várias, porque era “a mais quente” — garante a promessa: o silêncio continua a ser uma língua; a água, uma memória; e abrir portas, aqui, é mais do que um gesto — é a maneira de medir o pulso ao país.


O País do Meio não é um roteiro, pelo menos não turístico. Esta é uma série de 14 reportagens de Tiago Palma, para ler na CNN Portugal. De Trás-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce a Estrada Nacional 2 e recolhe os retratos — íntimos, sabedores e naturais — de quem é das cidades, ou mais dos lugares, que a EN2 atravessa. Não são histórias de alcatrão, são histórias do caminho, do país real, ouvindo a voz de quem não é notícia — mas é um país, ou faz um país. Na antecâmara das Autárquicas de 2025, o pulso mede-se sem cartazes, sem promessas eleitorais, sem corta-fitas, sem política; o pulso mede-se como mediu Miguel Torga: “Cultivo-me pelos olhos e pelos pés, no alfabetismo íntimo das coisas”.

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O País do Meio

Esta é uma série de 14 reportagens de Tiago Palma, para ler na CNN Portugal. De Trás-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce pela Estrada Nacional 2 e recolhe retratos íntimos de quem é destes lugares

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