Falta de médicos é um dos temas mais sentidos e há uma carência de profissionais. Mas há mais problemas num distrito do interior
Portalegre (CNN Autárquicas 2025) - O distrito de Portalegre, situado no Norte Alentejano, enferma de problemas estruturais persistentes que limitam o desenvolvimento económico e social da região, sendo estes fatores decisivos o sistemático envelhecimento e despovoamento do território.
Com uma das populações mais envelhecidas do país e da Europa, o distrito de Portalegre, composto por 15 concelhos, sofre de baixa natalidade e saída de jovens para centros urbanos ou para o estrangeiro. O resultado é um círculo vicioso: menos população ativa significa menor dinamismo económico e maior pressão sobre os serviços sociais.
A falta de médicos é um dos temas mais sentidos. Centros de saúde e os hospitais de Elvas e Portalegre enfrentam carência de profissionais, o que se traduz em consultas adiadas e dificuldade de acompanhamento clínico. No campo da mobilidade, a oferta de transportes públicos urbanos e intermunicipais, apesar do esforço que, neste âmbito, a Comunidade Intermunicipal tem efetuado, é limitada, o que agrava o isolamento de aldeias e vilas e condiciona a fixação de novos residentes.
Os tribunais de relevo concentram-se em Portalegre e Elvas, obrigando a deslocações longas para quem vive em concelhos periféricos. No plano rodoviário, a existência de portagens em várias ligações estratégicas encarece a vida das famílias e aumenta os custos de transporte para as empresas. Ao contrário de outras regiões do interior de Portugal, onde foram abolidas as portagens nas SCUT, o Alentejo, ao ser percorrido unicamente por autoestradas da Brisa, vê os custos aumentar ano após ano sem que empresas e residentes tenham qualquer compensação do governo por tamanha discriminação.
O tecido empresarial do distrito é composto sobretudo por micro e pequenas empresas, ligadas ao comércio local, agricultura e serviços. Apenas alguns concelhos apresentam maior dinamismo: Portalegre concentra funções administrativas e serviços. Elvas, graças à sua dimensão urbana e posição fronteiriça, tem mais empresas e empregos, em especial no sector da restauração. Já Ponte de Sor destaca-se pelo polo industrial e tecnológico, com especial enfase no cluster aeronáutico.
Campo Maior, por sua vez, beneficia do peso histórico da indústria agroalimentar ligada especialmente ao café.
Nos restantes concelhos, a economia é frágil e dependente de fundos públicos, com rendimento per capita inferior às médias nacionais.
O distrito elege 15 executivos municipais no próximo dia 12 de outubro de 2025. A tradição socialista mantém-se forte, sobretudo nos concelhos rurais. No entanto, a tendência recente mostra espaço para alternativas:
Portalegre é disputada, com PSD, que governa atualmente, e coligações cívicas a crescerem.
Elvas tornou-se palco de movimentos independentes com peso eleitoral. Nas últimas eleições municipais, o antigo dinossauro socialista da região, Rondão Almeida, entrou em rotura com seu partido de sempre, o socialista, e foi eleito com maioria com um movimento independente. Já octogenário, ele aí está, de novo, a competir com PS, AD, CDU e com um CHEGA que tem ganho no concelho sempre que o sufrágio é de âmbito nacional.
Também em Campo Maior a disputa promete ser, por primeira vez, renhida entre o PS, que governa, e um Movimento cívico.
Ponte de Sor e outros bastiões socialistas deverão manter-se fiéis ao PS, salvo surpresas locais. Já concelhos como Arronches e Marvão deverão continuar nas mãos dos social democratas.
O resultado poderá, assim, dividir o distrito entre concelhos rurais, mais fiéis ao PS, e cidades onde o voto útil em alternativas ganha terreno.
Resumidamente poderemos referir que o futuro do distrito de Portalegre depende da capacidade de inverter o ciclo de despovoamento, atrair profissionais de saúde e investir em mobilidade. O reforço do tecido empresarial, através da aposta em turismo patrimonial, agroalimentar de qualidade e pequenas indústrias de nicho, é essencial para aumentar rendimento e criar emprego.
Politicamente, as eleições de 2025 dirão se os eleitores preferem a continuidade do PS ou se optam por dar mais espaço a independentes e forças da oposição, num distrito que, apesar dos seus desafios, continua a ser peça importante na coesão territorial do país.
João Alves e Almeida é diretor do semanário LINHAS DE ELVAS. Consulte o site do jornal aqui.
