Ouça bem: os auscultadores estão a ficar muito estranhos

CNN , Samantha Murphy Kelly, CNN Business
1 jan, 21:00
Música [Reuters]

Quando a Huawei apresentou recentemente um novo smartwatch num vídeo promocional, o design era invulgar: a frente do relógio abriu e revelou um compartimento secreto onde um par de auriculares magnéticos estava a carregar.

Apesar de este produto só apelar a alguns utilizadores, a inclusão dos auriculares no smartwatch remete para uma tendência crescente na indústria da tecnologia: com os smartphones e smartwatches praticamente iguais ano após ano, algumas empresas esperam aumentar a emoção dos clientes com atualizações excêntricas de uma linha de produto diferente e mais antiga: os auscultadores.

Os auscultadores por condução óssea, que funcionam pela transmissão do som através de vibrações no crânio do utilizador, estão a ganhar popularidade. Os auriculares abertos, que não tapam nem cobre os ouvidos, são subitamente uma sensação. E uma empresa acaba de lançar uns auscultadores por 893 euros que purificam o ar (sim, leu bem).

“Os auscultadores estão a tornar-se mais singulares e estranhos”, disse Sachin Mehta, analista na ABI Research.

Há vários fatores a impulsionar esta tendência. Para começar, tem havido uma evolução nas tecnologias ligadas aos auscultadores, como o cancelamento de ruído e as capacidades sem fios. E contrariamente aos telefones e smartwatches, muitas pessoas têm vários pares de auscultadores que querem que sejam concebidos especificamente para distintos fins e cenários.

“Hoje em dia, as pessoas têm vários dispositivos pessoais de audição para sítios e utilizações diferentes; alguns deixam-nos no escritório, outros preferem ter uns maiores e mais robustos nos aviões”, segundo Steve Konig, diretor do departamento de investigação da Consumer Electronics Association.

Auscultadores por condução óssea estão ‘num grande momento’

Os auscultadores por condução óssea, em particular, estão “num grande momento”, afirmou Steve Konig. Em vez de serem colocados dentro ou por cima do canal auditivo, os auscultadores por condução óssea ficam na frente da orelha e não a tapam. Transmitem som pelos ossos e maxilar do utilizador até aos ouvidos em vez de ser diretamente no canal auditivo. Os auscultadores contam também com uma tira suave que fica na parte superior do pescoço para os segurar no sítio e minimizar a distorção do som.

Auscultadores por condução óssea da Shokz

A orelha destapada permite aos utilizadores ouvirem os sons e o ambiente ao seu redor, o que é crucial para a segurança quando fazem atividades como andar de bicicleta ou correr. Ao contrário dos auriculares, há menos preocupação com o facto de poderem saltar dos ouvidos.

“Esta tecnologia [de condução óssea] existe há muito tempo, mas só recentemente tem trazido benefícios aos auscultadores de consumos”, revelou Roberta Cozza, diretora de análise na empresa de estudos de mercado Gartner. “A principal vantagem é a capacidade de transmitir som sem introduzir nada no ouvido, o que significa que os utilizadores estão mais cientes dos sons ao seu redor, o que aumenta a segurança.”

E disse ainda: “Apesar de parecerem pesados, os modelos mais recentes são muito leves, e adaptam-se de maneira mais confortável para uma utilização prolongada do que os auriculares que podem começar a magoar ou ficar desconfortáveis passado pouco tempo.”

Apesar de a Shokz ter sido pioneira nos auscultadores por condução óssea, existem atualmente várias marcas neste mercado. Para lá do apelo ao consumidor, Cozza acredita que os auscultadores por condução óssea podem ser usados por trabalhadores na linha da frente que podem ouvir as comunicações e instruções e, ao mesmo tempo, estarem atentos aos sons à sua volta.

“Será interessante ver como esta tecnologia pode ser usada no futuro em outros wearables, como os óculos inteligentes para realidade aumentada (AR), por exemplo”, acrescentou Cozza.

Os limites dos auscultadores estranhos

Os auriculares abertos – como os da Sony (180 euros) e da Bose (112 euros) – também estão a ganhar terreno. Apresentam um desenho semelhante ao dos auscultadores por condução óssea que deixam os canais auditivos completamente abertos para que o utilizador possa ouvir os ruídos exteriores. Mas alguns audiófilos dizem que a qualidade do som nos auscultadores por condução óssea e nos auriculares abertos não é fenomenal.

Auriculares abertos da Bose

Para a utilização diária, as pessoas ainda preferem comprar os simples auriculares com fio ou auscultadores fechados ou abertos; enquanto, para praticar desporto, as pessoas preferem comprar auriculares porque são fáceis de transportar e encaixam bem dentro do ouvido.

“Há muitas opções únicas e excêntricas disponíveis no mercado – a indústria dos dispositivos de audição ainda está por explorar no que diz respeito aos casos de utilização, que assentam sobretudo em ouvir”, afirmou Mehta.

Porém, um dos conceitos mais extravagantes vem da empresa de eletrodomésticos Dyson, que tem sido notícia pelos seus dispendiosos gadgets experimentais (talvez se lembre do secador de cabelo de 449 euros).

Os auscultadores com purificação de ar da Dyson pretendem enfrentar o desafio duplo do ruído e da poluição do ar, particularmente na Ásia, e podem interessar a pessoas que tenham certas reações alérgicas a pólen ou pó. Mas não se enganem, não parecem auscultadores comuns: o produto tem um visor facial que filtra e sopra ar fresco para o nariz e boca.

Auscultadores de 949 dólares com purificação de ar da Dyson

Não é só o design que choca. Por 949 dólares (893 euros), estes auscultadores vão custar o dobro dos AirPods Max da Apple quando chegarem aos Estados Unidos em março de 2023. Para Portugal ainda não há data prevista.

“O mercado dos auscultadores e auriculares está incrivelmente saturado e mesmo que enfiem todas as capacidades possíveis num par deles, continuam a ter um dispositivo que é parecido e funciona como muitos outros”, disse Ramon Llamas, analista do IDC. “Então, como se podem diferenciar? Combiná-los com um sistema de purificação de ar foi a abordagem de uma empresa.”

Mas com este design extravagante, Llamas acredita que não é para todos. “Enfim, gostaria de ser visto em público a usá-los?”

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