Vai tornar-se um “centro global para combater os extremismos”
Com um jardim bem cuidado e um interior espaçoso, a moradia de três andares já foi descrita como um “paraíso” pela mãe que ali criou os seus cinco filhos. Muito foi feito para preservar a tranquilidade desta casa, tendo em conta aquele que é o seu vizinho mais próximo: o maior e mais conhecido campo de concentração nazi, Auschwitz.
Dentro desta moradia familiar, Rudolf Höss – o comandante das SS que mais tempo serviu em Auschwitz – delineou qual seria a forma mais eficiente de matar milhões de judeus, ciganos, homossexuais e prisioneiros políticos que o Terceiro Reich decidiu eliminar.
As árvores altas e um muro de betão impediam a visão e abafavam os gritos vindos do campo de concentração, para que a esposa de Rudolf Höss, Hedwig, e os seus cinco filhos - Klaus, Heidetraud, Brigitte, Hans-Jürgen e Annegret – pudessem viver protegidos das atrocidades cometidas a poucos metros da sua porta.
Tinham uma vida alegre. As crianças brincavam com tartarugas e gatos, andavam a cavalo, nadavam no rio mais próximo. Ao mesmo tempo, as chaminés do campo de concentração soltavam fumo: outras famílias eram empurradas para a morte nas câmaras de gás.
Desde a libertação de Auschwitz, em janeiro de 1945, a moradia, o número 88 da Rua Legionow, ficou nas mãos de uma família polaca. Contudo, no ano passado, foi adquirida pela Counter Extremism Project, uma organização não governamental sedeada em Nova Iorque, que desde 2014 procura combater os extremismos.
Este edifício – um poderoso símbolo de como o Holocausto foi orquestrado, tendo sido uma personagem central no filme “Zona de Interesse”, distinguido com um Óscar – abriu agora as suas portas aos visitantes de uma forma totalmente diferente.
“A ideia por detrás deste projeto é criar algo que não existe, um centro global para combater os extremismos, naquela que foi a casa de um dos piores extremistas e antissemitas da história”, conta à CNN Hans Jakob Schindler, diretor do Counter Extremism Project.
A organização não governamental tinha dois planos: criar um novo centro para a organização e abrir esta casa, que este fechado durante largos anos, ao público. Fê-lo a tempo do 80º aniversário da libertação do campo de concentração, assinalada a 27 de janeiro.
“Quando se olha para esta propriedade, para o jardim, as fontes, a vida normal que aqui tinha lugar, recordamos que o Holocausto nos ensinou a nunca esquecer”, diz Mark Wallace, presidente executivo do Counter Extremism Project. “Oitenta anos depois, fica claro que ‘nunca esquecer’ não é o suficiente para evitar o ódio e o antissemitismo que hoje dominam a nossa sociedade”.
Desses tempos restam fotografias da vida doméstica e feliz da família Höss, bem como dois diários: um escrito pela governanta da família, outro pelo próprio Rudolf Höss.
Tal não aconteceu por vontade do próprio: depois da sua captura, e antes da execução, Höss foi obrigado a escrever as suas memórias, possibilitando um vislumbre de como funcionava a sua mente, simultaneamente comum e maléfica.
Nesse registo, Höss descreveu-se como sendo um homem comprometido com a disciplina e dedicado à ordem. Escreveu que foi “para proteger a saúde mental” dos seus guardas que decidiu utilizar Zyklon B, um inseticida, para assassinar o maior número possível de judeus de uma forma eficiente.
Durante os três anos e meio que Höss esteve à frente do campo de concentração, foram construídas mais quatro câmaras de gás, destinadas a um extermínio industrializado. Mais de 1,1 milhões de pessoas foram ali assassinadas, transformando Auschwitz-Birkenau no mais letal de todos os campos de concentração nazi.
O diário também funcionou como uma base para uma parte substancial do filme “Zona de Interesse” de 2023, que se desenrola quase na totalidade na moradia e nos seus arredores. O filme destaca a “banalidade do mal”, uma expressão cunhada por Hannah Arendt, sugerindo a ideia de que o comandante era apenas uma pessoa, não um monstro.
“Foram seres humanos que fizeram isso com outros seres humanos. É muito conveniente para nós tentarmos distanciar-nos deles, porque pensamos que nunca poderíamos agir dessa forma. Acho que devíamos ter menos certezas em relação a isso”, aponta Jonathan Glazer, realizador do filme.
O diário de Höss também ajuda os leitores a entenderem melhor a vida da família que morava no número 88 da Rua Legionow, bem como os esforços feitos para proteger os filhos. As janelas com vidro fosco, os muros altos, uma motorizada do lado de fora da câmara de gás número um para abafar os gritos das pessoas no seu interior.
Nas suas memórias, Höss também relata como observava as mulheres e as crianças enquanto estas eram levadas para as câmaras de gás.
“Uma mulher aproximou-se de mim e apontou para os quatro filhos, que ajudavam outras crianças mais pequenas a atravessar o terreno acidentado. Sussurrou: ‘Como é que consegue matar crianças tão lindas, tão adoráveis? Não tem coração?’”.
Höss escreveu que, após assistir a cenas como estas, costumava cavalgar para limpar a mente.
Contudo, em nenhum momento pareceu compreender o horror das suas ações. Classificou o extermínio dos judeus como um “erro”, não como um crime. E considerou que foi o resultado de ter obedecido cegamente a ordens superiores, dadas, segundo ele, com base numa ideologia com equívocos.
“[Não há problema] que o público em geral continue a ver-me como uma besta sanguinária, um sádico cruel, um assassino em massa de milhões de seres humanos. As massas nunca poderiam imaginar o comandante de Auschwitz de outra forma”, escreveu. “Nunca entenderão que eu também tinha coração”.
Höss tentou fugir após a libertação de Auschwitz, mas acabou por ser capturado. Tornou-se na primeira pessoa de alto escalão militar a admitir a extensão do massacre no campo de concentração. Foi obrigado a testemunhar no Tribunal Militar Internacional de Nuremberga. E, posteriormente, foi condenado à morte por um tribunal polaco.
Höss foi enforcado num cadafalso entre o campo de concentração e a casa onde vivia, em 1947.
A restante família Höss que sobreviveu procurou vincar a separação em relação àquilo que Rudolf Höss tinha feito. A sua mulher Hedwig e a sua filha Brigitte mudaram-se para os Estados Unidos da América depois da execução do comandante. Numa entrevista dada ao Washington Post em 2013, Brigitte afirmou: “Foi há muito tempo. Não sabia de nada. Nunca falei sobre isso. É algo que guardo dentro de mim. Fica comigo”.
“Havia dois lados dele: o lado que eu conhecia e o outro”.
No que respeita à casa, foi aberta ao público a propósito das comemorações do 80º aniversário da libertação de Auschwitz. O Counter Extremism Project considera que o trabalho para transformar parte da propriedade num museu, bem como num espaço de trabalho, levará vários meses.
“Todos nos conseguimos relacionar com a ideia da “casa ao lado”. Contudo, hoje em dia, o ódio espreita nas casas próximas da nossa. A Casa 88 assumirá uma luta contra o ódio destrutivo, contra os extremismos e o antissemitismo”, reforça Wallace.
A primeira coisa que os elementos do Counter Extremism Project fizeram foi fixar uma mezuzá na porta da frente, como uma forma de reivindicar a casa que, agora, está aberta a todos.
Camille Knight e Serene Nourisson da CNN contribuíram para este artigo.
