Aurélio Pereira, o adeus a um dos últimos românticos do futebol português

10 abr 2025, 19:23
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Acompanhamos o percurso do último adeus do homem que deixou marca forte na formação do futebol português, da Igreja de São João Batista do Lumiar, até à Praça Centenário, no Estádio de Alvalade, onde o Sporting prestou uma última homenagem ao «senhor formação»

Foi bonito o último adeus a Aurélio Pereira, o senhor formação do Sporting, o olheiro revolucionário, o caça-talentos, mas também o «amigão», o «pai» e, acima de tudo, um «homem bom» que deixa muitas saudades. O Maisfutebol acompanhou as cerimónias fúnebres esta quinta-feira, desde a última missa, na Igreja São João Batista do Lumiar, até à última homenagem promovida pelo Sporting na Praça do Centenário, junto ao Estádio de Alvalade, antes de sair, sob aplausos, para o Cemitério dos Olivais.

Um trajeto em que recolhemos testemunhos que dão bem conta do enorme legado que Aurélio Pereira deixa para o Sporting e para todo o futebol português. Um legado que é transversal a todas as gerações que passaram pelas mãos do «senhor formação» desde os anos oitenta até à atualidade.

A missa na Igreja São João Batista, no Lumiar, foi um momento mais solene, pesado, com a família e os amigos mais próximos, mas, logo à entrada, uma figura destacava-se de todas as outras. O senhor José Rebelo de Lima, de 78 anos [«apenas menos seis meses do que o Aurélio»], veio de propósito de Braga, a pedido do filho, para um último adeus a Aurélio. Veio equipado a rigor, com camisola, cachecol, mochila e chapéu do Sporting. O filho do senhor Lima, José Lima, tinha sido um dos «miúdos» do Aurélio e a amizade manteve-se ao longo de mais de trinta anos.

«Venho aqui despedir-me dele. Era uma pessoa incrível, muito humana, o meu filho treinou sob as ordens dele e nunca teve problemas. É uma pessoa de uma gentileza ímpar, sabia conversar e não é por ele ter falecido que isto é verdade», começa por nos contar, numa história que começa por incluir Eusébio da Silva Ferreira, símbolo máximo do rival do Sporting, o Benfica.

«Quem descobriu o meu filho não foi o senhor Aurélio, foi o Eusébio. Ele começou a jogar Benfica, nós morávamos em Benfica, depois o Eusébio é que o recomendou para o Sporting. Eu gostava do Sporting, gostava que ele fosse para lá e fiz tudo para que fosse assim. Infelizmente o meu filho não teve sorte. Teve um problema no joelho quando tinha 14 anos e teve de desistir. Era muito magrinho, hoje é um matulão, mas na altura era magrinho. Depois, com a lesão, acabou por desinteressar-se, mas não deixei de ser amigo do Aurélio. O meu filho, agora, já tem quarenta e tal anos, mas mantivemos sempre o contato. Encontrava o Aurélio muitas vezes no Pavilhão João Rocha», revela o emocionado José Rebelo de Lima.

Uns metros mais à frente, mesmo à entrada da igreja, estava Vítor Cândido, antigo jornalista do jornal A Bola que conhecia o Aurélio «desde sempre». «O Aurélio era, como eu ainda sou, do tempo do futebol romântico, do futebol do amor à camisola, do tempo em que o futebol era deporto, era prática, era a paixão do povo e nada tinha a ver com o futebol-negócio de hoje-em-dia. O Aurélio era um eterno, a paixão que tinha pelo clube, ele fazia as coisas nesse sentido, despreocupadamente», começa por nos contar.

Vítor Cândido conheceu Aurélio Pereira muito antes do arranque do «projeto visionário» que lhe deu notoriedade. Jogaram juntos no Sporting e, depois disso, começaram a trabalhar na formação, com os «miúdos». «O Aurélio é daquele tempo das captações. Também temos essa afinidade. Jogámos os dois no Sporting. Íamos às captações, nos anos sessenta, veja lá, e ambos jogámos no Sporting com o senhor José Travassos como treinador e nos juniores com o senhor Juca. Temos uma vida ligada ao Sporting, ao nosso sportinguismo», prossegue Vítor Cândido.

O antigo jornalista também trabalhou na formação dos leões, sempre ao lado de Aurélio. «Eu também pertenci ao departamento do futebol juvenil durante uns anos e era um complemento que fazíamos com todo o prazer, por amadorismo. Saímos do emprego e vínhamos para o Estádio de Alvalade ajudar os treinadores, os miúdos, as famílias. O Aurélio é um companheiro de longa data. Temos muitas afinidades, somos os dois do Lumiar, as nossas raízes são raízes beirãs, eu sou do concelho de Arganil, ele era do concelho da Pampilhosa da Serra. Brincávamos sempre com essa situação. Foram muitos anos de vivência quase diária, era um amigão que eu tinha no Sporting e fora do Sporting», acrescenta.

«Os olheiros do Aurélio eram bombeiros ou GNR's»

Quisemos saber mais. Fomos às raízes do projeto de prospeção que acabou por transfigurar todo o futebol nacional. «O Aurélio foi um visionário porque, nos anos oitenta, teve a ideia genial de criar uma rede de olheiros, de observadores por todo o país e ilhas. Havia um olheiro em cada esquina, em todos os campos do país onde houvesse futebol jovem», conta-nos Vítor Cândido.

E quem eram esses olheiros espalhados por todos os campos do país? «Ele tentava arranjar sportinguistas, pessoas do futebol, professores, mas, se não houvesse, ele arranjava bombeiros ou GNR’s porque, esses, ele tinha a garantia que estavam lá em serviço no campo. Eram esses bombeiros ou GNR’s que lhe ligavam a dar conta dos habilidosos lá da terra. O Aurélio depois mandava lá alguém para ver o miúdo noutros jogos, era feito um relatório e, no final, ao fim de umas tantas visualizações, era o próprio Aurélio ou alguém da sua confiança que ia lá dar o veredito final», explicou.

Paulo Futre foi a primeira grande «descoberta» de Aurélio Pereira. «Antes do departamento de formação, ele era treinador de juvenis e fez muitos jogadores da altura. O Paulo Futre foi a primeira grande descoberta dele, numa equipa do Estabelecimentos Cancela, do Montijo. Houve um torneio, ele viu um miúdo e disse logo, “epah, este gajo vai dar”. Depois foram todos os outros, o Quaresma, o Simão Sabrosa, o Hugo Viana».

E também o Luís Figo, o primeiro Bola de Ouro formado no Sporting. «Foi um dos tais olheiros que ligou ao Aurélio a dizer que havia um miúdo no Pastilhas. Eu conheci esse olheiro que descobriu o Figo. Ele vinha aqui a Alvalade e fomos lá com ele ao Pastilhas. Era a alcunha do Figo nos primeiros tempos, ficou o Pastilhas. Depois foi o Cristiano Ronaldo, que é a coroa de glória do Sporting. Também foi alguém que ligou da Madeira a avisar que havia ali um miúdo que fazia "assim e fazia assado". Foi um juiz, que era um grande sportinguista, que ligou ao Aurélio para ele meter-se em campo. E assim foi, lá veio o Cristiano Ronaldo, como muitos outros. O Aurélio andava sempre num lufa-lufa constante. Quase todos os dias havia pessoas a ligar-lhe a dar-lhe conta de jovens talentos, aqui e acolá. Saudades», conta-nos ainda o antigo jornalista.

A poucos metros de Vítor Cândido, estava Vítor Sério, filho de José Carvalho Sério, antigo guarda-redes do Belenenses, que foi campeão nacional e chegou à seleção principal ainda nos anos quarenta e cinquenta do século passado. Vítor Sério foi, durante mais de trinta anos, um dos roupeiros da formação do Sporting, sempre ao lado de Aurélio Pereira que lhe deu a mão para entrar no Sporting. «Comecei nos anos oitenta, nas escolinhas até à equipa B, ainda em Alvalade. Depois fui para Alcochete, mas não me senti lá bem e vim para Pina Manique, para tratar das escolinhas outra vez, sempre com os miúdos», conta-nos.

Vítor Sério era o responsável pelos equipamentos dos «miúdos», portanto, esteve sempre muito próximo de Aurélio. «Tinha um contato muito próximo com o Aurélio e com o filho Carlos [Pereira]. Tínhamos uma relação muito boa, ele ajudou-me muito no início. Eu não percebia nada daquilo e ele é que me dizia, "faz isto, faz aquilo". Tomei-lhe o gosto e fiquei por lá trinta anos. Ele tinha uma relação com os miúdos formidável, era como se fosse de pai para filhos», conta-nos.

Do Lumiar, arrancámos até à Praça Centenário, junto ao Estádio de Alvalade, onde o Sporting prestou uma última homenagem a Aurélio Pereira, com um mural dedicado ao senhor da formação e, como não podia deixar de ser, com a presença de todos os escalões da formação do clube, desde os Sub-14, até à equipa principal, representada pelos capitães Morten Hjulmand, Gonçalo Inácio e Daniel Bragança, mas também pelo treinador Rui Borges.

Daniel Bragança: «O senhor Aurélio dava-me gasolina para continuar»

Daniel Bragança, ainda de muletas, foi o porta-voz, não apenas da equipa principal, mas de toda a formação do clube que estava ali para o último adeus a «um senhor muito respeitado por tudo o que conquistou».

«Muitas memórias. Particularmente tive muitos momentos com o Senhor Aurélio e sou um felizardo por isso. Na Academia, lembro-me que crescia dois palmos sempre que me elogiava. Aquilo dava-me uma gasolina para continuar. É esse respeito que conseguiu por tudo o que fez pelo Sporting, mas não só… também pelo que fez pelo país. O senhor Aurélio tinha tudo, não só a nível profissional, mas também como pessoa», declarou o jogador, orgulhoso por «ter feito parte, nem que seja numa percentagem mínima, da carreira do senhor Aurélio Pereira».

Além dos jogadores do plantel atual, estavam muitos outros, de várias gerações que fizeram questão de ir prestar uma última homenagem ao senhor Aurélio. Foram os casos de Luís Boa Morte, Luís Vidigal, Carlos Xavier, Daniel Carriço e também Nani, este último visivelmente emocionado.

«Recordo uma pessoa positiva, alegre, divertida, que sempre que regressei a Portugal, depois de já ter ido para Manchester, quis estar comigo, procurou-me, quis saber como estava e deu-me muitos bons conselhos», recorda o antigo extremo, campeão europeu por Portugal. Nani diz que as histórias com Aurélio «são muitas» e revela uma delas. «Antes de me tornar profissional, tive de esperar dois anos para poder ser inscrito e o senhor Aurélio esteve sempre presente, a acalmar-me e a dar-me os parabéns pela minha atitude e comportamento, por não desistir e não perder o foco nos treinos», recordou com saudade.

Luís Boa Morte foi outro dos jogadores «descobertos» por Aurélio Pereira, nos anos noventa, quando ainda não existia a Academia Cristiano Ronaldo em Alcochete. O antigo avançado acabou por nunca chegar a jogar pela equipa principal e fez praticamente toda a carreira em Inglaterra (Arsenal, Southampton, Fulham e West Ham), mas não esquece os «conselhos» do senhor Aurélio.

«O Aurélio acaba por fazer parte do meu crescimento na altura em que chego ao Sporting. Guardo os conselhos que ele sempre deu, como dava a todos os novos jogadores que chegavam ao Sporting. Eu, na altura, cheguei com onze anos e a minha formação foi feita no Sporting e fora do Sporting. Saí dois anos e depois voltei mais dois anos, mas sempre com uma boa relação com o senhor Aurélio. Fazia-nos perceber o que é a formação do Sporting, dava-nos bons conselhos, a mim e a todos os que vieram depois. Todos nós temos um grande apreço pelo Aurélio pelo que fez por nós. Mesmo os que não foram descobertos por ele, ele tinha sempre uma preocupação de nos fazer sentir em casa e que nós percebêssemos logo na altura o que é o Sporting».

Além do futebol também estiveram as modalidades, como foi o caso de Salvador Salvador, capitão da equipa de andebol do Sporting. «O Aurélio não estava ligado ao meu desporto, que é o andebol, mas está ligado ao meu clube, que é o Sporting. Infelizmente este é um momento triste, é um momento de luto para o nosso clube e a seção de andebol quis marcar presença. É uma figura que transcende o futebol, foi uma pessoa extremamente importante para o Sporting, deixa um legado, todas as memórias ficarão. Os miúdos que hoje estão aqui, se calhar, não têm ainda bem noção do que foi o senhor Aurélio, mas, mais tarde com certeza que terão. Quem conhece o legado, está cá para contar todas as suas histórias», destacou.

A formação do Sporting prossegue agora sem o seu máximo líder, mas com um legado que o clube quer preservar, como nos conta Paulo Gomes, o diretor-geral da Academia do Sporting. «O maior ensinamento que eles nos deixa é a sua forma alegre e bem-disposta de falar com toda a gente. Conseguia convencer todos os jogadores que podiam chegar ao topo. Não há outro Aurélio em Portugal, ele era único. Vamos continuar o legado de bom trato e cordialidade com os jogadores Não é preciso gritar para conseguir impor as nossas ideia, há que fazê-lo sendo transparente e honesto», destacou.

Tomaz Morais, que também trabalha com a formação do Sporting, destaca a «naturalidade» com que Aurélio abordava os jovens. «Para muitos pode ser difícil e científico, para o senhor Aurélio era demasiado natural. Descobriu o melhor do mundo. Tinha a capacidade de não olhar só para o jogador, mas para tudo o que o envolvia. O senhor Aurélio era uma pessoa extraordinária em todos os domínio. O legado ele deixa acaba por ser de grande responsabilidade e representa os valores, a identidade e a cultura do Sporting, aquilo que é o futebol português na sua essência mais pura e genuína. Vamos incorporar os valores do Senhor Aurélio. O seu profissionalismo, a sua competência e o seu conhecimento. Jamais será esquecido», acrescentou.

A chegada do carro funerário trouxe novo momento solene. Fez-se um minuto de silêncio, Frederico Varandas e Pedro Proença depositaram coroas de flores junto ao mural dedicado a Aurélio Pereira e, depois, ouviram-se aplausos, como é tradição, nos momentos de despedida, em Alvalade. Ouviram-se palmas das pessoas que estavam a acompanhar a cerimónia, mas também fora do recinto, onde também estavam muitos adeptos que quiseram estar presentes neste último adeus.

Até sempre, senhor Aurélio.

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