Augusto Santos Silva, o político "bulldozer" que se interessou pelo punk e que gosta de preparar discursos enquanto lava a loiça

28 out, 23:12

Uma entrevista da jornalista Anabela Neves, onde a segunda figura do estado recorda a sua carreira política de 50 anos. Desde o tempo em que foi ministro da Educação até um futuro em que não descarta nenhuma possibilidade (nem mesmo a de candidato à Presidência da República).

Começa na escadaria principal da Assembleia da República e termina na Sala das Sessões, esta visita guiada à casa da democracia conduzida por Augusto Santos Silva.

O presidente da assembleia falou dos tempos em que acompanhou José Sócrates, de quem foi ministro da Defesa e ministro dos Assuntos Parlamentares, mas apenas do lado político. Sobre a outra parte, que a justiça ainda irá julgar, diz apenas que também é "uma das pessoas que gostará de saber o que é que realmente se passou".

Sobre o atual mandato, recusa um perfil anti-Chega, que alguns lhe querem atribuir, diz apenas que tem um limite: o discurso de ódio. E há um botão no seu lugar no Parlamento que espera nunca vir a ter de utilizar. O botão que tira o som ao deputado que está a falar.

Distinguiu entre dois conceitos: pátria, que inclui, e nação ou nacionalismo, que exclui. Esse discurso não excluiu de alguma forma também uma parte do eleitorado porque foi lido como sendo um discurso contra o Chega?

Não, não. Foi um discurso programático. Tudo o que eu tenho feito como presidente da Assembleia da República é cumprir o que disse no dia em que fui eleito.

A dúvida é exatamente essa. Se não escolheu um inimigo, que é o Chega. Não criou um perfil anti-Chega que o condiciona no exercício do seu mandato?

Não, nem sequer me dirigi apenas a esse partido. Eu fiz duas grandes citações, uma explícita e outra implícita.

A explícita foi de Mário Soares, a quem ouvi muitas vezes dizer “a minha arma é a palavra”. E disse, bom, isto é a casa da palavra, da palavra totalmente livre. Qual é o nosso limite? É que não haja aqui discurso de ódio.

A segunda grande citação que fiz foi implícita, foi de François Mitterrand. Porque ele disse uma frase muito importante para mim, que é, “o patriota ama a sua pátria e as pátrias dos outros”.

E o nacionalista, não.

Ao passo que o nacionalista quer afirmar o valor da sua nação contra o valor das outras nações. Ora, isso não faz sentido nenhum, sobretudo para um país que se exprime numa língua que é hoje a língua de várias nações. Se há povo que deve compreender isso, é o povo português, que fala uma língua que partilha com o Brasil, com Angola, com Moçambique e por aí fora.

É religioso, não católico no sentido de praticante. Como é que tem olhado para isto que está a atormentar a igreja, e com que uma parte da igreja está a lidar mal, que são os casos de abusos sexuais?

Todas as grandes instituições podem ter momentos mais difíceis e podem até desenvolver no seu interior gangrenas, cancros, que devem ser identificados e corrigidos. A instituição tem que retirar as lições. Os órgãos judiciais próprios devem continuar a fazer o seu trabalho e devemos todos um pedido de perdão às vítimas e uma assunção das responsabilidades.

O Presidente da República fez bem em pedir desculpa por causa da declaração que fez, dando a entender, parecia, que 400 ou cerca de 400 eram poucos casos de pedofilia?

Não me peça a mim que comente palavras do senhor Presidente da República. 

Estamos agora no gabinete de trabalho do Presidente da Assembleia da República. Estou a ver ali aquilo que considero uma espécie de santinho. 

É público, toda a gente sabe que a Maria de Lurdes Pintassilgo é a minha grande inspiração, quer política, quer de vida, quer de influência social. 

Tem aqui a fotografias de netos, cinco netos. 

Como as famílias portuguesas, nós somos uma família dividida e, portanto, uma das minhas filhas vive no Porto, a outra vive em Bordéus, o outro vive em Berlim e, portanto, é no Algarve, na quinzena algarvia, que nós convergimos. E, por isso, essa quinzena é sagrada para mim. 

E faz sandes para a família toda, para a praia. 

Sim. Como me levanto cedo, sou o primeiro a sair, vou comprar o pão fresco e, depois, preparo as sandes que levamos para a praia. E à noite a minha função é lavar a louça.

Lavar a louça é uma coisa muito importante e de que eu gosto. É um momento muito importante para, por exemplo, preparar discursos. A gente está ali a lavar, e vai pensando umas coisas.

Escreve livros para os netos. 

Já fazia isso com alguns dos meus filhos. Sim, com histórias que eu invento.

Esta faceta contrasta muito, imagino que saiba isso, com a imagem pública que tem. Muito frio, racional, metódico, austero, pouco. Concorda?

Vamos lá ver, ser racional, ser metódico e ser sóbrio não são, em primeiro lugar, defeitos e, em segundo lugar, não são coisas que não sejam compagináveis com ter, por exemplo, humor. Eu tenho, aliás, um sentido de humor britânico que às vezes me trai, porque às vezes a ironia não se não se percebe bem. 

O senhor presidente, pelo menos, nunca teve problemas de incompatibilidades com familiares.  

Não sei, com um nível de loucura, se me permitem a expressão, que não é insultuosa para ninguém, que estamos perto de atingir. Não sei se teria.

Os seus antecessores estavam todos em fim de carreira, pelo menos a maior parte deles. Carreira política, atenção. Não parece ser o caso do senhor presidente, porque já disse que não enjeita nenhum futuro. E quando estamos a falar de futuro, a pergunta era sobre ser candidato a Presidente da República.

Ou presidente da junta de freguesia.

Ou presidente da junta de freguesia. Que nunca foi.

Eu já fui membro da assembleia de freguesia.

O que eu digo, em 2022, é que não sei o que é que vai ser no futuro. O meu presente, sei, é ser presidente da Assembleia da República. É isso que serei nesta legislatura, que vai até outubro de 2026. E, se me perguntam, mas há alguma coisa que recuse? Eu digo não, porque não tem sido essa a minha conduta ao longo do tempo.

Agora, quanto a eleições presidenciais, seria ridículo estarmos a discutir em 2022 algo que só vai suceder em 2026.

O facto do seu nome aparecer tão cedo, diz que é ridículo aparecerem nome já nesta altura, não será para evitar o que aconteceu nas outras duas eleições. Que apareçam outros candidatos que dividam o eleitorado socialista? 

Eu acho que é responsabilidade de todos, incluindo de mim próprio, que a grande área política do centro-esquerda e dos milhões de portugueses que nela se reconhecem, esteja unida na próxima eleição presidencial. Foi, infelizmente, uma coisa que não sucedeu nem em 2006, nem em 2011, nem em 2016 e mesmo em 2021.

Se puder, vai ajudar a que isso aconteça.

Claro.

Apresentando-se eventualmente como candidato, se fosse chamado a essas funções.

Não foi isso que eu disse.

É um académico, portanto, sociólogo, da cultura, especialista na área da cultura, com uma obra bastante vasta. Escreveu sobre "As palavras do punk", em 2015.

Sim, foi um livro que publiquei juntamente com a minha colega Paula Guerra. Aliás, dava-se um caso curioso, porque nalgumas entrevistas que nós fizemos havia alguns velhos militantes do punk e um deles lembro-me de ter dito "mas como é que um punk deu ministro da Defesa?"

Eu nunca fui punk na vida.

Nem é muito apreciador. Era mais Led Zeppelin, Rolling Stones.

Eu sou do tempo do rock. Para mim, Janis Joplin, Led Zeppelin, Lou Reed, são os heróis. O Dark Side of the Moon, dos Pink Floyd, é o melhor disco de música rock que eu conheço.

Mas devo dizer que também ouço muito contemporâneos. Gosto dos The National, dos Arcade Fire. Vários da corrente chamada indie, que eu aprecio bastante.

Nasce para a política, curiosamente, aos 16 anos, há pouco disse-nos isso, no radicalismo de esquerda, estamos a falar de movimentos trotskistas. Como é que chega ao PS?

É uma evolução que foi normal na minha geração. Não fui só eu. Antes do 25 de Abril, éramos anti-fascistas, formados no ambiente do esquerdismo juvenil.

Mas no Twitter e nalgumas redes sociais já se começa a recordar esse passado como quase um perigoso radical de esquerda. Provavelmente isso pode ser desenterrado. Essa ideia de que era radical de esquerda.

Faz parte do meu passado, como noutros meios se diz de mim próprio que sou um perigoso centrista. Também já ouvi dizer isso, que sou da ala direita do PS, alguns até dizem sou o chefe de fila da ala direita do PS. As opiniões são livres.

Aqui é a Sala das Sessões, onde esteve como governante de cinco pastas. Nunca teve dúvidas de que tinha competências para estas pastas todas? Diz que o que vale são as competências políticas e comunicacionais. Isso é o mais importante?

Sim. Eu dizia sempre aos diplomatas, ou aos militares, ou aos técnicos do Ministério da Cultura o seguinte: vocês têm de me explicar a mim, para eu perceber bem, que eu depois tenho de ser capaz de explicar às pessoas porque esse é o meu trabalho. O meu trabalho é falar com os senhores deputados, responder aos deputados, responder aos jornalistas e responder aos eleitores.

Mas deve-se lembrar do que diziam os seus adversários. Francisco Louçã disse que durante o período de ministro dos Assuntos Parlamentares em que fez a defesa acérrima do Governo de José Sócrates, na altura, que era como um bulldozer. O senhor presidente já disse que era um cão que guarda a casa. Assume que teve esse papel?

Não, não era necessariamente esse. O debate político pode ser duro. Agora, quando se diz que o ministro dos Assuntos Parlamentares funciona para um governo como um cão de guarda para casa. A metáfora não é para deslustrar a figura do ministro, mas...

Foi feita por si essa metáfora.

Mas explica bem qual é a sua posição. A sua posição não é criticar o seu governo, é defender o seu governo.

Foi, de facto, um defensor muito forte de José Sócrates. E há quem diga que não fez autocrítica suficiente. Não se apercebeu de algumas das coisas de que depois José Sócrates foi acusado e que estariam a acontecer?

Há uma avaliação política do primeiro governo de Sócrates, que eu acho que foi um dos governos mais reformistas que o país teve. Há uma avaliação política do segundo governo, que foi um governo que caiu nas consequências da crise e também da impossibilidade de conseguir aqui um acordo no Parlamento que permitisse escapar à troika.

Mas não é desse lado que estamos a falar.

E quanto às questões a que quer aludir, elas estão em justiça. Deixemos a justiça tratar. Porque eu também sou uma das pessoas que gostará de saber o que é que realmente se passou.

Desse período ficou uma imagem, digamos assim, que tem que ver com aquela expressão, “malhar na direita”, que, curiosamente, estava a referir-se aqui às bancadas da esquerda, ao Bloco de Esquerda e ao PCP. É uma imagem que ainda lhe está colada à pele, de alguma forma? 

Há uma coisa que se chama os níveis de língua. Essa expressão, eu usei-a na sede do meu partido, numa reunião partidária à uma da manhã. 

Em que havia críticos de José Sócrates, na altura. 

Em que havia pessoas que achavam que o Partido Socialista está a fazer mal e tal. E eu disse, não contem comigo para a autoflagelação, eu gosto mais... e depois disse a frase. Hoje, devo dizer que não usaria esse tipo de frases porque o ambiente mudou muito. 

Esta é a sua cadeira, onde se senta o presidente da assembleia. 

Exactamente, rodeado dos secretários da mesa. Tenho aqui o microfone que ligo e desligo para fazer as intervenções. Tenho um botão que eu não sei onde fica, porque nunca utilizei, aliás, e não tenciono utilizar. 

O que é que esse botão pode fazer? 

Pode tirar a palavra, tirar o som ao deputado que está a falar. Sei que existe aqui, mas nunca tive de usar. 

Até agora, eu interrompi uma vez, nunca tirei a palavra a ninguém. E, nos dois únicos casos em que me pareceu que estava a envolver-se um discurso ofensivo em relação a uma comunidade étnica ou em relação aos estrangeiros que vivem no nosso país, intervim, tornando claro que essa não era a posição do Parlamento português. Uma das qualidades ou uma das características requeridas por esta cadeira é frieza.

Mas, como sabe, o próprio PSD, argumenta, ainda há pouco absteve-se na votação da moção de censura do Chega contra si, com a ideia de que há um confronto aqui entre o senhor presidente e o Chega. E que é para seu benefício. E, portanto, lavam daí as mãos. 

A maneira como os partidos políticos se relacionam entre si é uma coisa que compete a esses partidos políticos justificar ou explicar.

Falámos há pouco desta cadeira, no dia 9 de Março de 2026 vai sentar-se aqui o novo presidente eleito depois das eleições. Pode sentar-se nesta cadeira? 

Eu estou a perceber a sua tentativa de cercar por várias portas, mas não vai ter sucesso. Neste momento, esta cadeira é a cadeira do presidente da Assembleia da República que, por decisão destes senhores e estas senhoras, sou eu. E é disso que eu trato. Não trato de mais nada.

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