Pichardo à TVI: «Na parte do meu salto, o Governo cubano tirava a imagem»

12 ago 2021, 22:05

Medalha de ouro no triplo salto dos Jogos Olímpicos de Tóquio recordou os tempos difíceis em Cuba e explicou o que o levou a tomar a decisão de deixar o país de origem e tornar-se português

Em entrevista no Jornal das 8 da TVI, Pedro Pablo Pichardo falou sobre o título olímpico no triplo salto em Tóquio e recordou o período difícil da carreira no qual teve de deixar Cuba depois de muitos episódios que o levaram a tomar essa decisão.

«Toda a gente sabe que Cuba é um país comunista. Em Cuba fazem-se as coisas como o Governo quer, esteja bem ou mal. É assim em todo o lado. Tudo o que se faz em Cuba tem a ver com o Governo, que decide tudo. Eu era obrigado a trabalhar com um treinador com quem tive uma fratura num tornozelo e não consegui estar nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Estive castigado seis meses e depois quatro meses. Tiraram o trabalho ao meu pai e tentaram tirar-lhe o licenciamento de treinador. Chegámos à conclusão de que para continuar a ser atleta de alto nível, era saindo de Cuba. Não havia outra opção lá», lembrou.

Esse acumular de situações fez amadurecer uma ideia que acabou por ser tomada durante um estágio da seleção cubana na Alemanha em 2017. «Já tinha isso planeado há alguns anos com o meu pai e a minha família. Só estávamos à espera de eu e o meu pai estarmos juntos fora de Cuba, o que nunca acontecia. O meu pai já estava a trabalhar na Suécia há dois anos com treinador num clube. Quando ele saía para treinar, eu estava em Cuba. E quando eu saía para competir, ele estava em Cuba. Mas sempre falámos que quando estivéssemos juntos fora de Cuba, eu ia embora.»

E assim foi: Pichardo desertou, assinou pelo Benfica e, mais tarde, tornou-se português e persona non grata para o Governo cubano, que procurou que o ouro de Pichardo não fosse notícia no país. «Quando chegava a parte do meu salto [na final], o Governo tirava a imagem e não mostrava o salto. E também falaram algumas coisas que não são verdade: disseram que foi o país que me fez como atleta e nunca falaram do que o meu pai e a minha mãe fizeram para eu chegar onde cheguei», comentou.

Pichardo falou sobre a relação fria que mantém com Nelson Évora. Disse acreditar que a sua naturalização não foi bem vista por alguns e, possivelmente, também pelo medalha de ouro dos Jogos de 2008. «Adquiri a nacionalidade portuguesa e acho que isso magoou algumas pessoas e o Nelson também. Penso que foi aí que começou a polémica. Nunca tive nem tenho problemas com o Nelson. Respeito o que ele atingiu e foco-me em fazer o meu trabalho. (...) Mas nunca falou comigo e nunca me explicou o que aconteceu», disse.

Residente no Pinhal Novo, concelho de Palmela, Pichardo já está há alguns anos em Portugal. Sente-se integrado, mas deixou um lamento. «Gosto de tudo, mas a única coisa que não entendo é a pouca importância que a minha modalidade tem cá. Isso ainda me choca um pouco como atleta», considerou, apelando a uma mudança de mentalidade.

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