"Começa a haver um padrão de violência que não é habitual" no ataque contra líderes mundiais. E "Portugal não é imune"

18 jul 2024, 07:00
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Donald Trump foi a mais recente vítima de uma tentativa de assassínio. Poucos meses antes, o primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, tinha sido baleado por um homem no meio da multidão. Na Dinamarca, a líder do governo teve de ser hospitalizada após ser atacada na rua e, em Portugal, manifestantes climáticos conseguiram aproximar-se de vários políticos. O que é que se passa com a segurança dos líderes mundiais?

Uma falha de segurança poderia ter mudado o mundo em poucos segundos. O ex-presidente norte-americano Donald Trump escapou com ferimentos ligeiros a uma tentativa de assassínio, no sábado. Pouco menos de um mês antes, o presidente da Eslováquia, Robert Fico, foi atingido por seis tiros à queima roupa quando se aproximava de uma multidão. Ambos acabaram por sobreviver aos ataques, mas os especialistas admitem que há uma “nova tendência” que pode vir a alterar profundamente a segurança no Ocidente.

“Começa a haver um padrão de violência que não é habitual, devido ao crescimento dos movimentos extremistas e a polarização das sociedades. É já uma tendência, algo empírico e a segurança que é feita atualmente não é suficiente, principalmente no espaço europeu, onde as ameaças não são levadas a sério. Os serviços secretos vão ter de ser reforçados”, alerta o major-general Isidro de Morais Pereira.

Nos Estados Unidos da América, este crescimento de violência já era esperado. Uma avaliação de ameaça para o ano 2024 publicada pelo Departamento de Segurança Interna norte-americano apontava o aumento da violência política no contexto das eleições como um dos cenários mais prováveis. O documento precisava que cidadãos “motivados por teorias da conspiração” e por um sentimento antigoverno poderiam tentar perturbar a eleição através do uso da violência.

Mas no velho continente, o cenário não é muito diferente. Recentemente, também a primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen foi atacada na rua por um homem. Poucos dias antes, uma senadora alemã tinha sido violentamente atacada em Berlim, confirmando a tendência de crescimento apresentada pelas estatísticas do governo alemão. Apenas nos últimos cinco anos, a violência contra políticos no país duplicou. O cenário é idêntico em França. Em 2023, de acordo com dados do Ministério do Interior, foram registados 2.380 incidentes, mas espera-se que o número volte a subir. Apenas nos dias que antecederam a segunda volta das eleições francesas, 51 políticos e apoiantes “de origens extremamente diferentes” foram atacados.

Os especialistas sublinham que a continuação da degradação do discurso político público, marcados por violência verbal e ataques pessoais, contribui para o aumento da violência física.

“Parece que estamos um bocado desatentos à gravidade da situação. O que assistimos é uma onda de violência bastante preocupante. Líderes políticos de topo são alvo. Isto é uma consequência de um processo de fragmentação e de polarização do discurso político, com uma ideia de quem não é de nós é contra nós. A manter-se esta desagregação isto pode ter consequências muito graves. Se Trump morresse, a polarização seria tremenda”, explica o especialista em questões de Segurança, o major-general Agostinho Costa.

O contexto geopolítico também preocupa os especialistas, que não descartam a possibilidade de interferência dos serviços secretos russos e iranianos na Europa e nos Estados Unidos para explorar o clima polarizado e atacar figuras estratégicas no continente. Os próprios serviços secretos norte-americanos terão reforçado a segurança de Donald Trump nas vésperas do ataque, após receberem informações de que o Irão estaria a planear um ataque contra o antigo presidente americano.

Dias antes, os serviços secretos alemães e americanos descobriram um plano do governo russo para assassinar o líder do principal fabricante de armas europeu, a Rheinmetall. A empresa alemã é um dos principais fornecedores de artilharia e de veículos blindados à Ucrânia e, de acordo com três fontes diferentes, não é caso isolado.

“A atividade subversiva está a ser conduzida pela Rússia e nós na Europa não estamos a levar a sério as ameaças feitas por Moscovo. Já não são só atos de sabotagem com fábricas incendiadas e ações de vigilância. O atentado planeado contra o CEO da Rheinmetal é um exemplo disso. Não se pode varrer os indícios para debaixo do tapete. Não podemos ignorar o problema”, defende Isidro de Morais Pereira.

Para o especialista em assuntos de Defesa, a explosão de violência política no Ocidente tem de ser ativamente combatida pelos serviços secretos e pelas autoridades. O principal elemento, defende o major-general, é sempre “o elemento humano”. É preciso aumentar o número de profissionais treinados e capazes de proteger as lideranças políticas de potenciais ataques.

Ao mesmo tempo, os especialistas defendem o emprego de tecnologia de ponta para travar potenciais novas tentativas. Para Agostinho Costa, um dos elementos que deveria ser introduzido é a utilização de drones para perceber aquilo que se passa no terreno. No caso do ataque a Donald Trump, a operação de segurança “foi mal conduzida” e poderia ter detetado facilmente a presença do potencial atirador caso existissem drones a sobrevoar o recinto. “A forma como a operação de segurança foi conduzida denota incompetência”, insiste.

O major-general Isidro de Morais Pereira sugere também que a União Europeia crie um sistema de análise de dados de grandes capacidades, semelhante ao utilizado pela Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla original), para processar todos os tipos de comunicações digitais. Este mecanismo permitiria às autoridades processar os conteúdos dos emails, chamadas telefónicas, mensagens, buscas de internet.

Há, no entanto, quem tema que a busca pela sensação de segurança possa levar à perda de liberdades individuais e a abusos. “Vamos trocar uma parte da nossa liberdade pela garantia da segurança. Vamos testemunhar o aparecimento de novas políticas securitárias”, considera o politólogo José Filipe Pinto, que recorda que as populações aceitaram a limitação de não ter líquidos nos aviões devido à ameaça de ocorrerem atentados com recurso a explosivos líquidos.

Para o professor catedrático que estudou o populismo e o terrorismo, estes atentados terroristas contra o primeiro-ministro húngaro e contra Donald Trump têm algumas características semelhantes à vaga de ataques anarquistas que marcaram o final do século XIX e o início do século XX, tirando a vida a diversos monarcas, um pouco por todo o mundo. Um dos elementos que permitiu o sucesso desses atentados voltou hoje a estar presente: o poder aproximou-se do público. “Neste momento, este terrorismo de extrema-direita pode perfeitamente recuperar estes elementos”, alerta o professor.

E a proximidade dos políticos pode tornar-se cada vez mais um fator de vulnerabilidade. A imagem de um líder político próximo da população pode vir a alterar-se caso continue uma espiral de violência política. E isso pode levar ao aparecimento de “novas barreiras” e do aumento de políticas securitárias, aumentando “a bolha que isola o político das multidões”. Esta nova realidade pode alterar por completo a forma como os políticos e os cidadãos se relacionam.

“Numa altura que se defende a proximidade da política, essa proximidade pode deixar de ser física. Pode passar a ser mediatizada e intermediada, precisamente porque se sucedem os casos de violência contra os políticos”, refere José Filipe Pinto.

José Filipe Pinto recorda ainda que os extremistas responsáveis pelos ataques a Trump e Fico pertenciam aos grupos políticos dos líderes, mas sentiam-se traídos por já não se sentirem representados por eles. E, num mundo cada vez mais polarizado, não existem países imunes à ameaça da violência política.

“Desde o tempo de Eça de Queirós se dizia, tudo nos chega de França, mas com atraso. Neste momento, tudo nos chega do exterior, mas com um atraso cada vez mais reduzido. As forças extremistas também vão começar a agir em Portugal. Não há países imunes a estes ataques”, alerta.

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