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"Sucesso" ou Sorte? Os erros críticos de segurança que colocaram a vida de Trump em risco

28 abr, 08:00
Esta foto do suspeito do incidente no Jantar dos Correspondentes da Casa Branca foi publicada na conta do Truth Social do presidente Donald Trump a 25 de abril de 2026. Donald Trump/Truth Social
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Entre perímetros relaxados e falhas na triagem de hóspedes, o terceiro atentado contra Donald Trump expõe as fissuras na segurança presidencial. Especialistas alertam que a rápida resposta não apaga o fracasso de um sistema que permitiu a um homem com uma caçadeira chegar perto do presidente

A Casa Branca não deixa espaço para outras sugestões: a resposta dos serviços secretos americanos à tentativa de assassinato do presidente Donald Trump foi "um enorme sucesso em matéria de segurança". Mas, para os especialistas em segurança, a questão não é tão clara quanto isso. Longe da retórica institucional do governo americano, os factos apontam para uma realidade mais complicada, com um sistema a falhar na sua principal missão.

"Uma operação desta natureza não é um sucesso quando não corre a 100%. A preparação tem um número grande de fatores que se têm de interligar. Não é sucesso quando um tipo se explode num concerto, morrem 20 pessoas e ficamos contentes porque o INEM chegou rápido e estancou hemorragias. Isso não é sucesso", afirma Hugo Costeira, especialista em Assuntos de Segurança. 

Essa fragilidade ficou bem exposta nas imagens partilhadas pelo próprio presidente norte-americano, na sua rede social, a Truth Social. Nas imagens, é possível ver o suspeito, Cole Tomas Allen, armado com uma caçadeira e várias facas, a passar a correr por um grupo de agentes dos serviços secretos norte-americanos. Estes agentes, responsáveis pela penúltima camada de segurança ao presidente americano no evento, aparentavam estar com uma postura relaxada junto aos detetores de metais, quando são surpreendidos pelo atirador, que passa por eles em grande velocidade.

A postura "displicente" destes agentes pode, em parte, ser explicada pela própria natureza da operação. A operação de segurança é feita por camadas e começa bem no exterior do hotel Washington Hilton - que foi reconstruído específicamente a pensar na segurança do presidente americano, após a tentativa de assassinato de Ronald Reagan, em 1981. Para Hugo Costeira, é possível que os agentes daquele perímetro tenham relaxado porque todas as pessoas que chegam àquele ponto de controlo já passaram várias outras camadas de segurança, o que diminui a possibilidade de ameaças. 

"Eles fazem ali uma segurança por casca de cebola, com várias camadas. E não devia ser normal que, quanto mais para dentro nós chegamos, mais as pessoas sejam displicentes. Porquê? Porque acham que a ameaça já passou por três perímetros de segurança." No entanto, adverte, o último perímetro "tem que ser o máximo intransponível", algo que claramente não aconteceu no acesso ao salão onde estavam 2.600 pessoas, incluindo o presidente e o vice-presidente. 

Mas possivelmente o maior erro por parte das autoridades norte-americanas aconteceu "a montante". Allen viajou de comboio de Los Angeles até Washington D.C., de forma a contornar o rigoroso controlo de bagagens dos aeroportos. Além disso, conseguiu-se hospedar no hotel onde ia decorrer o evento, infiltrando-se na "bolha" de proteção do presidente.

"O que é que falhou? Falhou o screening. Ou seja, não analisaram corretamente quem lá estava", afirma o especialista.

Uma investigação feita pela CNN confirma esta tese. Os serviços secretos americanos não exigiram a revista das bagagens dos hóspedes do hotel, algo que costuma acontecer no protocolo noutros casos, como durante a Assembleia Geral da ONU. Segundo a investigação, as autoridades limitaram-se a cruzar a lista de reservas com bases de dados criminais e mandados de detenção. Como Allen era um professor de 31 anos sem antecedentes criminais e com armas compradas legalmente, passou despercebido à análise das autoridades.

O facto de este perfil não ter levantado "bandeiras vermelhas" permitiu-lhe orquestrar um ataque que, segundo fontes policiais ouvidas pela CNN, tinha todos os contornos de uma missão suicida. A escolha de uma caçadeira e a forma como o atirador avançou pelo átrio do hotel sugerem que Allen não planeava sobreviver ou iniciar um longo tiroteio, mas sim focar-se em causar o máximo de dano a curta distância. Na carta publicada, minutos antes do ataque, Allen admite que não pretende disparar contra agentes da polícia, mas que o fará caso seja necessário para atingir os seus alvos. Quando finalmente foi intercetado, a poucos passos das escadas que davam acesso ao salão principal, o atirador ainda conseguiu disparar, atingindo um agente dos serviços secretos no colete à prova de bala. 

Apesar do fracasso na prevenção da operação, a rápida reação das autoridades acabou por evitar o pior. Hugo Costeira nota que, no momento do confronto, a doutrina norte-americana de intervenção rápida faz a diferença em milésimos de segundo. Ao contrário do que acontece com forças policiais em Portugal, que estão sujeitas a procedimentos mais rígidos quanto ao uso de munição na câmara, os agentes de proteção americanos operam com armas e protocolos pensados para neutralizar a ameaça de imediato. 

"Cá em Portugal morriam todos. Morriam todos. Os polícias estão proibidos de usar munição na câmara, por exemplo. Um evento desta natureza, que exige uma resposta em milésimos de segundos, não se compadece com o tempo que os polícias demoram a colocar a arma", explica o especialista.

Hugo Costeira destaca que, apesar de tudo, ainda existia uma última barreira a separar o presidente de uma potencial ameaça. A sala principal do Washington Hilton onde decorria o evento funciona como "um bunker", protegendo quem está no seu interior. A própria mesa onde Donald Trump e JD Vance se encontravam estaria revestida com painéis balísticos, que protegeriam a liderança americana, em caso de um ataque. Este detalhe, admite o especialista, é o que pode explicar a diferença de atuação dos serviços secretos para com o presidente e o vice-presidente. 

"Há uma diferença muito grande entre arrancar dali um homem de 30 anos ou um de 80. É muito diferente olharmos à locomoção de um e de outro", destaca. Nestes cenários, a mesa blindada serve como um porto de abrigo imediato enquanto a extração não é possível.

Este incidente no Washington Hilton ganha ainda maior relevância por ser já a terceira tentativa de assassinato contra Donald Trump em menos de dois anos, após os ataques em Butler, na Pensilvânia, e em West Palm Beach, na Florida. Esta recorrência coloca uma pressão sem precedentes sobre os protocolos dos serviços secretos, e levanta dúvidas sobre se o nível de alerta máximo se tornou o "novo normal" ou se o sistema está simplesmente exausto.

Apesar de falar num "enorme sucesso", a CNN Internacional adianta que muitos em Washington já estão a analisar os vários erros cometidos na preparação do evento, incluindo a decisão de permitir que o presidente e o vice-presidente comparecessem ao mesmo evento fora da Casa Branca. Para os especialistas, o rasto de Cole Allen no Washington Hilton prova que a sorte foi o último perímetro de segurança.

"Não podemos considerar um evento desta natureza um sucesso quando há uma violação tão grave do perímetro de segurança. O grande problema não está na reação, está na fragilidade que levou à entrada dele", explica Hugo Costeira.

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