Três tentativas de homicídio a responsáveis pró-Rússia no sul da Ucrânia são sinais da resistência crescente

CNN , Oren Liebermann e Katie Bo Lillis
4 jul, 18:00
Moradores passam por prédios de apartamentos destruídos na cidade de Severodonetsk, na região de Lugansk, na Ucrânia, na quinta-feira, 30 de junho (CNN)

As autoridades norte-americanas dizem que três tentativas de homicídio contra responsáveis pró-Rússia, nas duas últimas semanas, sugerem um crescente movimento de resistência contra autoridades pró-Rússia que ocupam zonas do sul da Ucrânia.

Embora até agora sejam apenas alguns incidentes isolados na cidade de Kherson, as autoridades dos EUA dizem que a resistência pode transformar-se numa revolta mais alargada que representaria um desafio significativo à capacidade russa de controlar o território recém-capturado em toda a Ucrânia.

O Kremlin “enfrenta uma crescente atividade partidária no sul da Ucrânia”, disse Avril Haines, diretora dos serviços de informação nacionais, durante uma conferência em Washington, DC, na quarta-feira.

Os EUA acreditam que a Rússia não tem forças suficientes em Kherson para ocupar e controlar efetivamente a região, disse um representante dos EUA, especialmente depois de retirar forças da zona para os combates a leste, no Donbass. Outro representante dos EUA disse à CNN que a medida pode ter dado aos guerrilheiros ucranianos uma oportunidade para atacar os responsáveis russos instalados localmente.

A Ucrânia também realizou contra-ataques limitados perto de Kherson, sobrecarregando ainda mais as forças russas.

A região é fundamental para que a Rússia consiga controlar a costa ucraniana do Mar Negro e o acesso à península da Crimeia. Não se sabe bem quantos soldados russos estão dentro ou perto de Kherson, mas uma ocupação contra uma população local hostil requer muito mais soldados do que uma ocupação pacífica.

Os líderes russos deram prioridade à campanha militar em detrimento de qualquer espécie de governo. “Claramente, não é algo a que se possam dedicar agora”, disse um representante dos EUA.

Três tentativas de homicídio

O primeiro ataque em Kherson aconteceu a 16 de junho, quando uma explosão partiu as janelas de um Audi Q7 branco. O veículo ficou bastante danificado, mas o alvo do ataque sobreviveu.

Eugeniy Sobolev, o responsável pró-Rússia do serviço prisional da cidade ocupada de Kherson, foi hospitalizado após o ataque, segundo a agência de notícias estatal russa RIA Novosti.

Menos de uma semana depois, um segundo responsável pró-Rússia em Kherson foi alvejado. Desta vez, o ataque foi bem-sucedido. A 24 de junho, Dmitry Savluchenko, o responsável pró-Rússia à frente do Departamento de Juventude e Desporto da região de Kherson, foi morto, informou a RIA Novosti. Serhii Khlan, conselheiro do chefe da administração militar civil ucraniana de Kherson, chamou “traidor” a Savluchenko e disse que ele morreu numa explosão do seu carro. Khlan proclamou: “Mais uma vitória para os nossos partidários.”

Uma vista aérea mostra a cidade de Kherson a 20 de maio de 2022, durante a ação militar russa na Ucrânia

Na terça-feira, o carro de um terceiro responsável pró-Rússia foi incendiado em Kherson, segundo a agência de notícias estatal russa Tass, embora o proprietário não tenha ficado ferido. Não se sabe de quem é a autoria dos ataques.

Não parece haver um comando central a orientar uma resistência organizada, disseram alguns responsáveis, mas os ataques aumentaram em frequência, principalmente na região de Kherson, que a Rússia ocupou em março, logo no início da invasão.

Uma fonte familiarizada com os serviços de informação ocidentais estava mais cética sobre se a resistência poderia evoluir destes ataques partidários para uma campanha mais organizada capaz de gerir os ataques e providenciar armas e instruções.

Até agora, a resistência não afetou o controlo da Rússia sobre Kherson, sublinhou a mesma fonte.

Mas, a longo prazo, os EUA avaliam que a Rússia acabará por enfrentar uma revolta da população ucraniana local.

“Acho que a Rússia terá problemas grandes quando tentar estabelecer qualquer tipo de administração estável nessas regiões, porque os prováveis colaboradores - os mais proeminentes - serão assassinados e outros viverão com medo”, disse Michael Kofman, diretor dos estudos da Rússia no Centro de Análises Navais, um grupo de reflexão sediado em Washington.

Dificultar a governação russa

Na terça-feira, responsáveis nomeados pela Rússia na região de Kherson detiveram o presidente da câmara ucraniano da cidade, Ihor Kolykhaiev, horas antes de anunciarem planos para a realização de um referendo para se juntarem à Rússia. A administração civil-militar pró-Rússia acusou Kolykhaiev de encorajar as pessoas a “acreditar no regresso do neonazismo.”

O assessor de Kolykhaeiv disse que as autoridades russas também apreenderam os discos rígidos dos computadores, pilharam os cofres e vasculharam documentos. No início deste mês, as forças armadas ucranianas disseram que os “invasores” tinham entrado na Universidade de Kherson e raptado o reitor.

As forças russas têm instituído gradualmente o rublo como a moeda local e emitiram passaportes russos.

Em Mariupol, as autoridades pró-Rússia comemoraram a chamada “libertação” da cidade em maio. A República Popular de Donetsk, alinhada com a Rússia, mudou os sinais de trânsito de ucraniano para russo e ergueu a estátua de uma mulher idosa a segurar uma bandeira soviética. Enquanto isso, a icónica placa de Mariupol, pintada com as cores ucranianas, foi repintada com as cores russas.

Apesar dos esforços da Rússia para eliminar a história, a etnia e o nacionalismo ucranianos de Kherson e de outros territórios ocupados, a população ucraniana mostra vontade de resistir.

A imagem de um prédio destruído após uma área industrial ser atingida por um míssil russo em Kharkiv, na Ucrânia, a 29 de junho de 2022

“Os ocupantes e os colaboradores locais estão a fazer declarações cada vez mais veementes sobre Kherson juntar-se à Rússia”, disse um responsável ucraniano na semana passada, “mas todos os dias, mais e mais bandeiras e inscrições ucranianas aparecem na cidade.”

As tentativas de apagar à força a cultura ucraniana e ditar a hegemonia russa produziram o efeito oposto em alguns casos, segundo um alto representante da NATO.

“Houve relatos de tentativas de homicídio contra alguns dos colaboracionistas que foram destacados para serem governadores, presidentes da câmara [e] empresários”, disse o representante da NATO. Um colaboracionista é um traidor que colabora com a força inimiga, e o nome em inglês, “quisling”, vem de um oficial norueguês da Segunda Guerra Mundial que colaborou com os nazis. “Isso deve ter dissuadido de ocupar esses cargos os simpatizantes russos, os russos ou quem quer que tenham lá posto para assumi-los."

Enquanto força de ocupação em Kherson - em especial uma força que parece empenhada em manter o controlo - a Rússia precisa de fornecer os serviços básicos aos territórios que administra, como água potável e recolha de lixo. Mas os EUA avaliam que os atos de resistência estão a dificultar uma boa governação e a prestação dos serviços básicos.

Os EUA sabiam que havia uma “rede forte de resistência” dentro da Ucrânia que seria capaz de assumir o controlo se e quando os militares falhassem, disse o representante dos EUA. Antes da invasão, os EUA previam o aparecimento dessa insurgência, aliada à guerrilha, após um breve período de intensos combates em que a Rússia prevaleceria. Mas a guerra já se arrasta há meses, com muitos analistas a prever um conflito muito mais longo.

Aldeias disputadas e recuperadas entre Mykolaiv e Kherson, na zona de Zelenyi Hai, na Ucrânia, a 15 de maio de 2022

Um alto representante dos EUA alertou um colega russo, antes do conflito, sobre a possibilidade de enfrentarem uma insurgência caso invadissem a Ucrânia e tentassem ocupar território, disse a fonte. Mas o aviso caiu em saco roto e a invasão prosseguiu, impulsionada em parte pela arrogância e por más informações.

A Rússia acreditava que as suas forças seriam recebidas de braços abertos e esmagariam qualquer resistência rapidamente, fantasias erradas que desmoronaram rapidamente, mas pouco fizeram para mudar os cálculos do presidente russo, Vladimir Putin.

Kofman diz que não se sabe que tipo de estrutura de governo a Rússia tentará criar para exercer o controlo, mas não há dúvida de que pretende manter os territórios. Depois de enfrentar insurgências prolongadas e sangrentas no Afeganistão e na Chechénia, o Kremlin sabia que devia esperar outra potencial insurgência na Ucrânia.

“Eles sabiam que ia acontecer”, disse Kofman. “Por isso é que montaram campos de filtração e enviaram grande parte da população para fora das áreas ocupadas.”

Relacionados

Europa

Mais Europa

Patrocinados