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Ataque de drones na Polónia foi deliberado ou acidental? Isto é o que se sabe

10 set 2025, 22:20
Investigadores polacos trabalham no local da queda de um drone russo na aldeia de Wohyn, no leste da Polónia, a 10 de setembro de 2025. EPA/WOJTEK JARGILO

Varsóvia fala em ameaça sem precedentes, Moscovo nega intenções hostis. A dúvida divide-se entre a hipótese de acidente e a de um teste russo à NATO

A recente violação do espaço aéreo polaco por drones russos está a levantar preocupações no seio da NATO e da União Europeia e vários aliados falam inclusive em ataque deliberado de Moscovo para testar a reação da aliança. E, segundo os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, este tipo de incursão não pode ser encarado como um ato isolado.

O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, afirmou que houve 19 intrusões no espaço aéreo polaco e que uma “grande parte” dos drones entrou a partir da vizinha Bielorrússia. Classificou o incidente como uma “violação sem precedentes do (seu) espaço aéreo” e disse que o episódio durou toda a noite, concretamente ao longo de sete horas.  

O que pode ter acontecido 

Para o major-general Agostinho Costa, especialista militar da CNN Portugal, há diferentes cenários possíveis para o que aconteceu, como o facto de ser improvável uma falha técnica ou desorientação de aparelhos isolados, dada a dimensão do ataque. Tal como afirmou o vice-primeiro-ministro polaco, Radosław Sikorski: “Quando um ou dois drones o fazem, pode tratar-se de uma falha técnica. Neste caso, houve 19 violações e simplesmente não é credível que tenha sido acidental.”  

Na perspetiva do major-general, o cenário mais plausível é que “muito provavelmente um equipamento, uma capacidade nova que a Ucrânia tem em termos de guerra eletrónica, permitiu-lhe desviar um conjunto de drones”. Esta hipótese pode explicar o silêncio da Rússia, que poderá sentir-se “humilhada” pela perda de controlo sobre os seus próprios equipamentos. 

O ministério da Defesa da Rússia confirmou, em comunicado, que realizou um ataque contra a Ucrânia durante a noite. No entanto, alegou que “nenhum alvo em território polaco estava previsto para destruição” e que os drones usados na Ucrânia têm um alcance de voo de no máximo 700 quilómetros. 

O ministério dos Negócios Estrangeiros russo disse depois que estes “factos específicos desmentem completamente os mitos repetidamente espalhados pela Polónia com o objetivo de escalar ainda mais a crise ucraniana”.  

A segunda hipótese apontada por Agostinho Costa relaciona-se com o contexto militar da região. Agostinho Costa recorda que está em preparação “o exercício Zapad [exercício militar russo na Bielorrússia], que pela primeira vez vai envolver a componente nuclear”. A intrusão aérea pode, assim, ter sido uma mensagem dirigida à Polónia e à NATO, um “teste” às suas capacidades defensivas. 

Já o tenente-general Rafael Martins entende que a Rússia está de facto a testar os limites da NATO. Segundo o analista, alguns dos drones “não têm cabeças de guerra, não são destinados a destruir absolutamente nada, mas são destinados a testar o sistema de defesa aérea e fazem com que todos os sistemas, todos os sensores e todo o dispositivo de defesa aérea da NATO se dirija para o local para o proteger e para fazer aquilo que tem a fazer”. 

Agostinho Costa relativiza ainda a intencionalidade direta contra Varsóvia: “Não é patente aqui uma intenção. Se houvesse uma intenção de atacar a Polónia, não era com drones, era com mísseis.” Ainda assim, o major-general ressalta que “estamos efetivamente no momento mais perigoso desde o fim da Guerra Fria”. 

Papel da NATO e reações dos aliados 

Num discurso no parlamento polaco, Donald Tusk afirmou que, embora não haja razão para afirmar que a Polónia está em guerra, o país está mais próximo de um conflito do que em qualquer outro momento desde a Segunda Guerra Mundial. Disse ainda que o país enfrenta um “inimigo que não esconde as suas intenções hostis”. 

A operação marcou a primeira vez que a NATO disparou tiros desde o início da guerra na Ucrânia. Caças polacos e holandeses intercetaram os drones, com assistência de forças italianas, alemãs e da força multinacional da NATO. Tusk anunciou também que a Polónia invocou o Artigo 4.º da NATO, o que significa que o principal órgão de decisão política da aliança vai reunir-se agora para discutir a situação e os próximos passos. 

André Matos, especialista em assuntos internacionais, explica à CNN Portugal que o facto de a Polónia pertencer à NATO “implica que haja uma cláusula de solidariedade e de ativação da defesa mútua”. “Mas não tem necessariamente que ser assim. Essa cláusula não é obrigatória, no sentido em que os restantes Estados-membros não são obrigados legalmente a prestar esse auxílio”, clarifica. 

Donald Trump reagiu ao ataque russo com algum espanto. A Casa Branca disse que Trump planeava falar com o presidente polaco Karol Nawrocki ainda esta quarta-feira. Segundo o Departamento de Estado dos EUA, cerca de 10.000 soldados americanos estão atualmente posicionados na Polónia. 

André Matos diz que se Trump “quiser evitar esta escalada, poderá exercer pressão política ou diplomática sobre os aliados da NATO para que este incidente não represente imediatamente, pelo menos, e diretamente, uma escalada descontrolada”. 

A incursão acontece numa altura em que as tentativas de Trump para negociar um acordo de paz entre a Rússia e a Ucrânia estão estagnadas, com Moscovo a intensificar os seus ataques aéreos. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andrii Sybiha, disse que Putin está “a testar o Ocidente”. 

Os ministros da Defesa do Reino Unido, França, Alemanha e Itália condenaram o incidente, classificando-o de provocação inaceitável. Os ministros, representantes das maiores potências militares da Europa, disseram que apoiariam a Polónia. 

A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, classificou o incidente como “a mais grave violação do espaço aéreo europeu pela Rússia desde o início da guerra”. Acrescentou que os indícios sugerem que foi intencional, e não acidental, e que “a guerra da Rússia está a escalar, não a terminar”. 

Putin mais confiante desde a visita à China 

A atividade militar sobre a Polónia surge menos de uma semana depois de Putin visitar a China, onde se encontrou com o líder Xi Jinping e o líder norte-coreano Kim Jong-un, numa demonstração de unidade. E, de acordo com uma análise da CNN Internacional, desde então a Rússia tem levado a cabo os maiores ataques aéreos contra a Ucrânia desde o início da invasão total há mais de três anos. 

A Polónia anunciou anteriormente que iria fechar a sua fronteira leste com a Bielorrússia, aliada da Rússia, devido ao início, na sexta-feira, de exercícios militares conjuntos russo-bielorrussos. “Na sexta-feira, manobras russo-bielorrussas, muito agressivas do ponto de vista da doutrina militar, terão início na Bielorrússia, muito perto da fronteira polaca”, indicou o primeiro-ministro Tusk numa reunião do governo. 

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