A CNN Internacional obteve informações exclusivas sobre um caso que envolve o almirante dos EUA Frank "Mitch" Bradley - que foi responsável por ordenar um segundo ataque contra um suposto navio de narcotráfico que operava no Mar das Caraíbas a 2 de setembro, depois de o primeiro ataque não ter matado todos a bordo. Os EUA usaram quatro mísseis neste ataque, que está a levantar suspeitas sobre se foi ou não um crime de guerra - porque duas pessoas que sobreviveram ao ataque inicial foram assassinadas quando flutuavam no mar
EXCLUSIVO Os sobreviventes que se agarraram ao barco virado não pediram reforços por rádio, diz o almirante que supervisionou o ataque
por Katie Bo Lillis, Natasha Bertrand e Haley Britzky, CNN (Allison Main, Manu Raju, Ellis Kim, Morgan Rimmer, Annie Grayer e Kaanita Iyer contribuíram para este artigo)
Os dois homens mortos no início de setembro enquanto flutuavam agarrados ao seu barco virado, num ataque secundário contra um navio suspeito de tráfico de droga, não pareciam ter rádio ou outros dispositivos de comunicação, disse esta quinta-feira aos legisladores norte-americanos o oficial militar de topo que supervisionou o ataque. Trata-se de informações apuradas pela CNN Internacional junto de três fontes com conhecimento direto das reuniões no Congresso dos EUA.
Desde setembro que os oficiais da defesa têm vindo a contestar discretamente as críticas de que a morte dos dois sobreviventes constituiria um crime de guerra, argumentando, em parte, que eram alvos legítimos porque pareciam estar a pedir reforços pelo rádio — reforços que, se os tivessem recebido, podiam teoricamente ter-lhes permitido continuar a traficar a droga a bordo do navio que se afundava.
De acordo com uma fonte familiarizada com a sessão entre o almirante e os legisladores, os responsáveis da Defesa fizeram essa afirmação em pelo menos uma sessão de informação em setembro para os funcionários do Congresso - e vários meios de comunicação social citaram responsáveis que repetiram essa justificação na última semana.
Mas, esta quinta-feira, o almirante Frank "Mitch" Bradley reconheceu, nas informações que deu aos legisladores, que os dois sobreviventes do ataque inicial dos militares dos EUA não estavam em condições de fazer um pedido de socorro. Bradley estava encarregado do Comando Conjunto de Operações Especiais na altura do ataque e era o oficial militar de topo que dirigia o ataque.
O impacto inicial sobre a embarcação, que se acreditava estar a transportar cocaína, matou imediatamente nove pessoas e partiu o barco ao meio, virando-o e lançando uma enorme nuvem de fumo para o céu, disseram as fontes que viram o vídeo como parte das reuniões de informação. Parte do vídeo de vigilância era uma visão ampliada e de alta definição dos dois sobreviventes agarrados a uma parte ainda flutuante e virada, dizem as mesmas fontes.
Durante pouco menos de uma hora — 41 minutos, de acordo com um outro funcionário dos EUA —, Bradley e o resto do centro de comando militar dos EUA discutiram o que fazer enquanto viam os homens a lutar para virar o que restava do barco, revelam estas fontes.
Por fim, disse Bradley aos legisladores, ordenou um segundo ataque para destruir os restos da embarcação, matando os dois sobreviventes, com o argumento de que parecia que parte da embarcação continuava a flutuar porque ainda continha cocaína, segundo uma das fontes. Os sobreviventes podiam, hipoteticamente, ter flutuado até um local seguro, ter sido resgatados e continuado a traficar a droga, segundo a lógica enunciada pelo almirante.
A outra fonte com conhecimento direto do briefing chamou a esse raciocínio "uma loucura do caraças".
O Pentágono não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.
Segundo o presidente dos serviços secretos do Senado, Tom Cotton, republicano do Arkansas, e o senador democrata Chris Coons, do Delaware, que também foram informados, os militares utilizaram um total de quatro mísseis para afundar o barco: dois mísseis no ataque inicial, segundo Coons, e dois no segundo ataque.
Foi o relato mais pormenorizado até à data sobre o ataque de 2 de setembro — mas não chegou a criar uma visão consensual.
É considerado um crime de guerra matar náufragos, que o manual de leis de guerra do Pentágono define como pessoas "necessitadas de assistência e cuidados" que "devem abster-se de qualquer ato hostil". Embora a maioria dos republicanos tenha manifestado apoio à campanha militar mais ampla do presidente Donald Trump nas Caraíbas, o ataque secundário de 2 de setembro atraiu o escrutínio bipartidário — incluindo uma promessa do Comité de Serviços Armados do Senado de realizar uma supervisão.
Mas, após a ronda de reuniões à porta fechada de Bradley esta quinta-feira, o que se preparava para ser o mais importante escrutínio da campanha pelo Congresso até à data pareceu fraturar-se ao longo das divisões partidárias.
As interpretações do vídeo diferem bastante: Cotton disse que "viu dois sobreviventes a tentarem virar um barco carregado de droga, que tinha como destino os Estados Unidos, de forma a poderem continuar a lutar".
Cotton disse à CNN esta sexta-feira que não viu provas de que os homens no barco estivessem a tentar usar um rádio para pedir ajuda. O senador continuou a defender o segundo ataque, dizendo: "Os homens não estavam claramente incapacitados. Não estavam angustiados".
O presidente dos serviços secretos da Câmara dos Representantes, Jim Himes, democrata do Connecticut, considerou o vídeo "uma das coisas mais preocupantes" que já viu enquanto legislador.
"Qualquer americano que veja o vídeo que eu vi verá os militares dos Estados Unidos a atacar marinheiros náufragos — maus, maus, mas a atacar marinheiros náufragos", disse Himes. "Sim, eles estavam a transportar drogas. Eles não estavam em condições de continuar a sua missão de forma alguma."
Mais tarde, Himes disse a Jake Tapper, da CNN, que "o resultado final foi dois indivíduos sem qualquer armamento, sem quaisquer ferramentas de qualquer tipo, agarrados a um barco naufragado". "Foi tomada a decisão de os matar e foi isso que de facto aconteceu. E foi muito difícil assistir a isso."
Mudança de história
O aparente abandono das alegações dos oficiais de defesa de que um pedido de socorro era uma prova da continuação da intenção hostil — e, portanto, da validade do ataque secundário — é apenas o mais recente de uma série de relatos mutáveis da administração Trump desde que surgiram os primeiros relatos na imprensa durante o fim de semana.
O secretário da Defesa, Pete Hegseth, e os seus porta-vozes opuseram-se inicialmente à informação sobre o segundo ataque, tendo Hegseth dito que se tratava de uma "reportagem fabricada, inflamatória e depreciativa". No entanto, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, confirmou dias depois a ocorrência do segundo ataque e disse que foi Bradley quem o ordenou.
O papel de Hegseth no ataque secundário — incluindo as ordens exatas que deu a Bradley — continua a ser um ponto de escrutínio.
Himes e outros legisladores disseram esta quinta-feira que o almirante disse-lhes que Hegseth não emitiu uma ordem para "matá-los a todos", como o Washington Post inicialmente noticiou.
Também esta quinta-feira, os legisladores foram informados de que Hegseth tinha deixado claro, antes do início da missão, que os ataques deviam ser letais, mas que só teve conhecimento dos sobreviventes depois de terem sido mortos, disse uma das fontes com conhecimento direto.
Durante uma reunião governamental na terça-feira, Hegseth disse que observou o primeiro ataque ao barco, mas que depois saiu para participar noutras reuniões e soube do segundo ataque horas mais tarde.
Os legisladores republicanos apoiaram amplamente Hegseth após a reunião desta quinta-feira.
"Sinto-me confiante e não tenho mais perguntas a fazer a Hegseth", disse à CNN o presidente dos serviços secretos da Câmara, Rick Crawford, do Arkansas.
Mas a linguagem exata das ordens de Hegseth relativas ao ataque de 2 de setembro — ou aos mais de 20 outros que os militares levaram a cabo — permanece pouco clara, tal como a justificação legal mais geral para a campanha.
Desde o ataque de 2 de setembro, os militares norte-americanos efetuaram mais de 20 ataques adicionais a embarcações que consideraram ser tripuladas por "narcoterroristas", matando pelo menos 87 pessoas numa campanha que um vasto leque de juristas externos argumentou ser provavelmente ilegal.
"O juízo subjacente que enquadra toda esta operação é a de que, se houver um barco com narcóticos e pessoas ligadas a uma organização de tráfico de narcóticos, esse é um alvo legítimo", afirmou Coons aos jornalistas, esta quinta-feira. "Ainda tenho dúvidas sobre isso."