Estamos lixados antes mesmo de as bombas explodirem

9 mar, 22:32
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NEWSLETTER ADMIRÁVEL MUNDO TRUMP • EDIÇÃO DIÁRIA COM ATUALIZAÇÕES DO ATAQUE DOS EUA E DE ISRAEL AO IRÃO

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Há uma frase explosiva que vem num livro de contos de um escritor infelizmente morto, é uma frase que qualquer repórter pode tatuar e é mais ou menos assim, “Para cada guerra é preciso uma porção de jornalistas, do contrário estamos lixados antes mesmo de as bombas explodirem”: veja-se Gaza, Israel condicionou o trabalho dos jornalistas, veja-se a Ucrânia, que facilitou que os jornalistas exercessem o seu ofício, veja-se ambos e veja-se o que sabemos sobre um dos sítios, a Ucrânia, e o que não sabemos sobre o outro, Gaza; veja-se como a Ucrânia teve imediatamente o apoio de uma parte influente da comunidade internacional, sobretudo no pós-Bucha, e como Israel teve primeiro esse apoio no pós-7 de outubro mas como o perdeu meses adentro, sobretudo no pós-relatos de fome em Gaza - Israel nega até que essa fome exista mas não deixou os jornalistas irem lá alimentar a verdade: há manipulação de informação em todas as guerras, tanto nas que deixam entrar repórteres como nas que nem por isso, mas sem jornalismo é como naquele slogan do Washington Post, é a escuridão total, Democracy dies in darkness, diz o Washington Post, “para cada Democracia é preciso uma porção de jornalistas, do contrário estamos lixados antes mesmo de a verdade explodir”.

O Irão é um dos casos onde as porções não podem agir em liberdade mas há dias o Sá Pinto fugiu de lá e fez de jornalista, o Sá Pinto treinador de futebol tinha conseguido sair do Irão dias antes do ataque dos EUA e de Israel, enquanto lá esteve viu a humanidade explodir, “a partir das 18:00 evitávamos sair à rua, depois a partir das 20:00, enfim, morreu muita gente que as pessoas não têm ideia - de uma forma inacreditável porque as manifestações foram muito pacíficas, só que havia polícias à paisana misturados entre os manifestantes e foram matando jovens de 20 a 30 anos de uma forma inacreditável, com uma arma na cabeça por trás, jovens, crianças e figuras públicas, ex-jogadores de futebol… um deles eu conheci, jogou contra mim há três anos aqui, estava com a família, deram um tiro na mulher também, a miúda também”. Relato na íntegra AQUI.

A Joana Azevedo Viana, que não precisa de ser circunstancialmente jornalista porque é isso que ela é luminosamente todos os dias na redação da CNN Portugal, afinal Democracy lives in light, a Joana Azevedo Viana conseguiu furar o bloqueio à internet no Irão porque duas iranianas conseguiram furá-lo também, uma delas contou assim à Joana, “nos dias 7 e 8 de janeiro as pessoas foram para as ruas gritar por Pahlavi, o que levou a uma repressão sem precedentes por parte do regime”, é a V. que conta isto, é V. e não um nome e um apelido inteiros porque o medo de sofrer represálias mantém-se, a V. sabe que a escuridão tem espiões dentro mas também fora do Irão, a V. prossegue o relato, “um número enorme de pessoas saiu à rua – cerca de 40 mil”, a V. explica que “muitas ficaram feridas” mas isso nem foi o pior porque “muitas não voltaram para casa”, desapareceram, um eufemismo que a escuridão usa para morte.

A V. é de Meshed, terra-natal do aiatola Ali Khamenei (1939-2026), que foi tramado pelo seu amor à bomba e que vai ser sucedido pelo seu filho - Mojtaba Khamenei é aparentemente tão discreto que quase ninguém ouviu a voz dele e as fotos que lhe são conhecidas são basicamente de um mesmo evento -, a V. é de Meshed e depois daqueles dias de janeiro a V. foi confrontada com isto, “de amigos meus que trabalham em hospitais ouvi relatos de inúmeros casos de remoção de testículos, rotura da bexiga, remoção de olhos e amputações, as imagens e vídeos que vieram à tona eram insuportáveis”, a V. é arquiteta de profissão e mulher de condição, “ser mulher numa sociedade islâmica governada por leis islâmicas é a coisa mais difícil do mundo, eles controlam todos os aspetos da nossa humanidade – as nossas roupas, a nossa maneira de pensar, até mesmo a maneira como falamos – e muitos dos nossos direitos naturais foram violados a tal ponto que isso se tornou normal para nós e nem sequer os consideramos mais como direitos que merecemos”, o jornalismo também serve para isto mesmo, para denunciar e para mostrar que o mundo em que acreditamos é o mundo em que ser mulher deve ser a coisa mais fácil do mundo - que não é, outro exemplo, “depois de terem recusado cantar o hino nacional iraniano - um gesto interpretado como traição pelos setores mais radicais do país -, algumas jogadoras da seleção feminina do Irão foram vistas a fazer o sinal internacional de pedido de ajuda”, a história está contada AQUI, “salvem as nossas raparigas”, diz o título desta notícia, aparentemente salvaram-nas mesmo.

Entretanto ficou a saber-se que os EUA admitem uma operação especial com boots on the ground para apreender urânio enriquecido do Irão, soube-se ainda que a NATO abateu mais um míssil disparado pelo Irão contra a Turquia - há imagens AQUI dos destroços -, pelo meio um alto funcionário iraniano disse à CNN que os ataques de Israel a depósitos de petróleo e combustível conduzem a guerra a uma nova fase, quanto a nós em Portugal já sabemos que o aumento do preço do gasóleo e da gasolina é consequência direta, ainda que isso esteja a gerar dúvidas porque Portugal não importa petróleo do Médio Oriente - mas o preço dos combustíveis aumentou mesmo de forma “abrupta”, as razões para isso estão enumeradas AQUI; o que ainda não está enumerado é que preços vão subir depois destes, subidas de preços da gasolina e do gasóleo são prenúncios de outras subidas, já há indícios disso - guerra ameaça fornecimento de materiais essenciais para a indústria alimentar -, também há notícias de milhares de pessoas que tiveram de deixar as suas casas, “o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados indica que pelo menos 734.700 pessoas viram-se obrigadas a abandonar os sítios onde vivem devido à ofensiva dos Estados Unidos e de Israel no Irão, à retaliação do regime iraniano contra países terceiros do Golfo Pérsico e à guerra entre o Paquistão e os talibãs”, sobre refugiados há uma sequência de frases desarmantes que vem num livro delicado de um poeta exilado,

Perguntas: O que significa ‘refugiado’?
Dir-te-ão: É aquele que é arrancado da sua pátria.
Perguntas: O que significa ‘pátria’?
Dir-te-ão: A casa, a amoreira, o galinheiro, a colmeia, o cheiro do pão e o primeiro céu.
Perguntas: Numa palavra tão pequena cabe tudo isso mas não cabemos nós?

É do Mahmoud Darwich (1941-2008) - ou Mahmoud Darwish, a grafia varia consoante a tradução é francófona ou anglófona -, os escritores e poetas têm essa maneira profundamente eficaz de traduzir em palavras os mistérios do mundo, a arte humaniza-nos enquanto com armas nos matamos, “Para cada Central Nuclear é preciso uma porção de poetas e artistas, do contrário estamos f*d*dos antes mesmo da bomba explodir” - é esta a frase explosiva que vem mesmo no livro de contos “Feliz Ano Novo” do Rubem Fonseca (1925-2020), aquela frase no início desta newsletter foi apenas uma derivação criativa mas ainda assim uma derivação democraticamente válida, o Rubem que nos perdoe; e o uso de asteriscos em f*d*dos é uma questão de pudor porque o Rubem não o fez, ele expõe o palavrão na íntegra porque a circunstância de estar escrito num livro de contos assim o permite - mas a convenção e a boa educação impõem que os palavrões fiquem por vezes com um asterisco nas newsletters como esta, da mesma maneira que a convenção e a boa educação pressupõem que para uma homenagem aos mortos não se leve na cabeça um chapéu de golfe ou de basebol ou lá o que aquilo é, que foi o que Trump envergou na cerimónia solene de receção dos corpos dos soldados dos EUA mortos no ataque ao Irão, a cerimónia ocorreu no sábado, sobre isso a Fox News fez assim: em notícias que deu sobre o assunto, e em vez de usar sempre as imagens de sábado para noticiar a chegada dos soldados caídos em combate, a Fox usou imagens antigas de Trump sem chapéu numa outra sessão solene que não aquela, a Fox já pediu desculpa entretanto mas o Guardian escreve assim: “Na tarde de domingo, após o uso enganoso do vídeo antigo ter sido denunciado nas redes sociais, (...) a Fox utilizou partes do vídeo gravado no sábado numa reportagem subsequente mas as imagens foram editadas para mostrar apenas as urnas cobertas pela bandeira dos EUA, sem mostrar imagens de Trump a usar o boné”.

Ou seja: “Para cada guerra é preciso uma porção de grandes líderes, do contrário estamos f*d*dos antes mesmo da bomba explodir”, viram a imprecisão no Português?, é que não há contração de preposição antes de oração infinitiva, devia ser “estamos f*d*dos antes mesmo de a bomba explodir”, “de a bomba” e não “da bomba”, mas “de a bomba” mata o ritmo da frase, “da bomba” salvaguarda a fonética do pensamento, resumindo: enquanto um escritor que viola musicalmente as regras é motivo de admiração, é isso que faz avançar a Língua, um político que faz o que quer das regras é motivo de divisão, é isso que deixa o mundo num impasse bélico mas também económico - há “uma previsão muito segura e nada animadora de que vai haver aumento generalizado dos preços dos bens alimentares, dos bens de consumo e não só. Independentemente disso: Trump diz que ainda vai decidir com Israel quando é que os ataques terminam, as bombas vão mesmo continuar a explodir e a contrair vidas, incluindo as de civis, a proposição é portanto infinitiva - manter a guerra.

 

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