Por vezes é o Starlink que ajuda, outras vezes é uma VPN: a internet como a conhecemos não existe no Irão porque não é uma internet livre; a velocidade de troca de mensagens como a conhecemos também não é rápida como cá: fazemos uma pergunta a quem está no Irão e as respostas demoram horas ou até mais de um dia a chegar. Mas chegam, chegaram: "Eles controlam cada aspeto da nossa humanidade – o que vestimos, a nossa forma de pensar, até a forma como falamos. Muitos dos nossos direitos naturais foram violados a um ponto que se tornou normal para nós, deixámos de os considerar direitos que merecemos". Duas mulheres furaram o bloqueio no Irão, onde "ser mulher é a coisa mais difícil do mundo" e onde ser manifestante é a segunda mais difícil. A guerra não é desejável, assumem, mas é a derradeira esperança para derrubar a teocracia
O acesso à internet dentro do Irão chegou a ser temporariamente reposto entre os protestos em massa do início do ano e o início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel no passado fim de semana. Mas com o eclodir da guerra, os iranianos comuns voltaram a estar sob apagão cibernético, que se estende a todo o país e que dificulta a ligação ao estrangeiro – e a comunicação uns com os outros dentro do próprio país.
Desde segunda-feira, a CNN tem falado com duas iranianas de forma intermitente por causa disso mesmo. A cada troca de mensagens seguem-se horas de silêncio; quando voltam a ter acesso à internet, pedem desculpa pela ausência forçada. Uma consegue aceder ao chat de mensagens encriptadas via Starlink; a outra usa uma VPN.
Ambas pedem para não ser identificadas por questões de segurança. Uma, Z., está na casa dos 30 anos e prefere não revelar a sua ocupação nem o local para onde fugiu quando abandonou Teerão, rumo ao norte, assim que as primeiras bombas caíram na capital, no sábado. A outra, V., tem 37 anos, é arquiteta e vive em Meshed, coração da província de Razavi, no nordeste do país, perto da fronteira com o Turquemenistão.
“A cidade ainda não foi atacada, salvo um ou outro incidente, mas diria que a ameaça de ataque é de 100%”, diz V., “porque Meshed é uma das maiores e mais importantes cidades do Irão e é muito provável que seja atacada nos próximos dias da mesma forma que Teerão também já foi”.
O sítio para onde Z. fugiu também tem escapado aos ataques. Como aqueles que deixou para trás na capital, a iraniana está nervosa com a situação – mas não sente só nervosismo.
“Sinto um misto de emoções. Vim para aqui para estar segura, saí de Teerão logo a seguir ao primeiro ataque no sábado.” Dentro dos possíveis, mantém-se em contacto com os amigos que ficaram em Teerão: “Eles estão bem, muito stressados e assustados, claro, mas ao mesmo tempo cheios de esperança e de alegria, é difícil de explicar. Estão a fazer os possíveis para sobreviver, mas estão prontos para celebrar quando isto acabar”.
Uma espécie de rei
Quando é que isto vai acabar ninguém sabe. Não há fim à vista para a guerra e as informações que chegam de Washington e Telavive quanto à duração da operação militar variam. Na sexta-feira antes do ataque, fontes envolvidas nas negociações EUA-Irão davam conta de “avanços" e o plano de retomar as conversas em Genebra na semana seguinte. Horas depois, Trump dava ordens para os primeiros ataques aéreos. Alguns tiveram como alvos figuras militares e outros líderes iranianos. O que seria apenas uma operação cirúrgica transformou-se rapidamente num conflito regional, extravasando as fronteiras do Irão.
Desde sábado, Israel deu início a mais uma operação terrestre no Líbano, reduto do Hezbollah apoiado pelo Irão, e Teerão fechou o Estreito de Ormuz e retaliou contra quase todos os países da região onde os EUA têm bases militares, incluindo contra a embaixada norte-americana em Riade, na Arábia Saudita. Notícias iniciais davam conta de que também teria atacado uma base militar do Reino Unido em Chipre, no coração da União Europeia – mas o ataque, dizem fontes cipriotas e britânicas, não teve origem no Irão.
Em poucos dias, a NATO foi arrastada para o conflito, forçada a abater um míssil balístico lançado contra a Turquia, na quarta-feira. Horas depois, o secretário norte-americano da Guerra, Pete Hegseth, garantiu que EUA e Israel vão “deter o controlo total do espaço aéreo iraniano dentro de dias”, apesar de Trump dizer que a guerra pode durar semanas – ou para lá disso, com o Politico a noticiar que o Pentágono está a preparar-se para uma guerra prolongada pelo menos até setembro.
Logo na manhã de sábado, na primeira série de ataques ao Irão, EUA e Israel atingiram uma escola primária feminina em Minab, perto de uma base da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), provocando a morte de mais de 160 pessoas, na sua maioria crianças; cinco dias depois, novo ataque a duas escolas em Parand. Ao longo da semana, bombas caíram em várias cidades, matando mais de 1.300 pessoas, na sua maioria civis. Os ataques com alvos definidos vitimaram vários líderes e ex-líderes do Irão, incluindo o antigo presidente Mahmoud Ahmadinejad e, acima dele, o aiatola Ali Khamenei.
Nascido em Meshed, a cidade onde V. vive e trabalha, Khamenei era o líder supremo do Irão desde 1989, quando sucedeu ao aiatola Ruhollah Khomeini no rescaldo da morte deste. Khomeini morreu dez anos depois de ter chegado ao poder por via da chamada Revolução Islâmica, que transformou o coração da antiga Pérsia numa república islâmica teocrática, baluarte do xiismo duodecimano, onde a Sharia, ou lei islâmica, é rainha – e o aiatola uma espécie de rei.
“Tiro já este estúpido trapo medieval”
Ainda as brasas da revolução de 1979 ardiam, Oriana Fallaci viajou até ao Irão para entrevistar o imã Khomeini, um homem que a intrépida jornalista italiana via então como um homem a sério, “não um fantoche como Arafat [na Palestina ocupada] ou Kadhafi [na Líbia]”, mas que viria mais tarde a responsabilizar pelo fanatismo islâmico que deixaria marcas no mundo inteiro ao longo das décadas seguintes, do Irão a Nova Iorque.
Fallaci esperou dez dias até Khomeini aceder ao pedido de entrevista, sob a condição de ela se apresentar descalça e de chador, o manto que cobre todo o corpo à exceção da cara; a jornalista também teve de entrar numa espécie de acordo temporário formal com o seu intérprete para contornar as rígidas regras morais islâmicas que tinham acabado de ser impostas e que, de outra forma, teriam restringido a sua liberdade de movimentos na cidade sagrada de Qom, acompanhada de um homem que não era seu familiar.
A entrevista arrancou ao bom estilo Fallaci, largada na ofensiva, chutando perguntas, umas atrás das outras, sobre o encerramento de jornais da oposição, o tratamento de minorias como os curdos iranianos e as execuções sumárias às mãos do novo regime liderado pelo imã Khomeini. O aiatola conseguiu proteger a baliza sem se comprometer com qualquer das questões, até a italiana sacar do seu maior trunfo: a condição de ser mulher.
Porque é que as mulheres iranianas, que tinham lutado ao lado dos homens nesta revolução, tinham agora de andar “escondidas como feijões debaixo de uma roupa tão incómoda e absurda” como o chador? Irritado, Khomeini respondeu que todas as mulheres iranianas usavam “vestuário islâmico” e que não eram como Fallaci, que andava “por aí de cabeça descoberta, arrastando atrás de si um comboio de homens”. “Nada disto lhe diz respeito, os nossos costumes não lhe dizem respeito", acrescentou o imã. “Se o vestuário islâmico lhe desagrada, não é obrigada a usá-lo, até porque é para as mulheres jovens e respeitáveis.”
Em tom de escárnio, a italiana respondeu-lhe enquanto arrancava o chador: “Muito gentil. Visto que me diz isso, tiro já este estúpido trapo medieval”. Como relataria anos mais tarde à jornalista Margaret Talbot, na última entrevista de Fallaci antes da sua morte, em setembro de 2006: “[Khomeini] levantou-se como um gato, ágil como um gato, uma agilidade que nunca esperaria num homem tão velho como ele, e deixou-me. Tive de esperar 24 horas (ou 48?) para o ver de novo e concluir a entrevista.”
Quarenta e sete anos depois, ser mulher no Irão continua a ser “a coisa mais difícil do mundo”, partilha Z.
Mas alguma coisa aconteceu há quatro anos, depois de Mahsa Amini, de 22 anos, ter sido espancada até à morte pela polícia da moralidade por usar incorretamente o véu islâmico.
“Após Mahsa Amini, a situação mudou significativamente, desencadeou uma revolta popular – uma revolução cultural”, continua Z. “O hijab feminino nunca foi uma prioridade para aqueles que queriam derrubar o governo; as mulheres sempre foram silenciadas sobre essa questão. Mas após os eventos de 1401 (2022), todos perceberam que o hijab era simplesmente uma ferramenta de pressão usada para silenciar as mulheres e confiná-las aos seus lares. A revolta das mulheres e a queima dos seus véus foram um golpe certeiro no coração do regime, que o forçou a recuar.”
“A maioria das pessoas está à espera de que o regime fique mais fraco - e depois vão para as ruas tomar as cidades”
Sob o slogan curdo “Mulher, Vida, Liberdade”, essa pequena revolução em 2022 teve um custo elevado para muitos dos que ousaram sair às ruas, mas ajudou a plantar uma semente na sociedade iraniana - a qual, quatro anos depois, voltaria a mobilizar-se em massa contra o elevado custo de vida e a desvalorização do rial iraniano, a moeda oficial do país, e do toman, a moeda mais usada nas trocas correntes, nas lojas, mercados e restaurantes.
Nos últimos anos, também por causa do isolamento a que o regime tem sido votado e das sanções internacionais ao seu programa nuclear, a inflação tornou-se galopante e os preços dos bens mais básicos dispararam. E desde sábado, com os ataques dos EUA e de Israel, a situação piorou ainda mais.
Os protestos por melhores condições de vida que eclodiram pouco antes da passagem de ano atingiram um pico sangrento a 7 e 8 de janeiro – em apenas dois dias, a IRGC e os seus vários tentáculos levaram a cabo violentas operações de repressão, não se sabendo até hoje quantos manifestantes foram detidos, torturados e mortos. Desde então, diz V., “a única reivindicação da maioria da sociedade é a mudança de regime e a remoção do governo islâmico”.
No passado, diz a arquiteta, “houve numerosos protestos populares em larga escala no Irão” - mas “receberam pouca atenção internacional ou foram silenciados por meio de propaganda, encobrimento e mentiras das forças da República Islâmica”. Desta vez, “com as manifestações maciças de 7 e 8 de janeiro e a atenção global gerada por milhões de iranianos que vivem no estrangeiro, o mundo ouviu o apelo do Irão por ajuda”.
Foi a esse apelo que Trump prometeu responder ainda em fevereiro, quando disse aos manifestantes iranianos para “aguentarem” porque a ajuda ia “a caminho”. Um mês depois, à guisa de destruir um programa nuclear que a administração Trump dizia ter “obliterado” na Guerra dos 12 Dias, em junho, começou a guerra – uma que as duas iranianas encaram como necessária, ainda que indesejável numa situação ideal.
“Acho que não temos outra escolha, este regime está a tentar matar o seu povo e a maioria das pessoas quer que eles saiam”, diz Z. “A maioria das pessoas está à espera que o regime esteja mais fraco - com a ajuda dos ataques dos EUA, é claro - e depois vão para as ruas e vão tomar as cidades. Queremos que eles caiam. Não podemos viver lado a lado com assassinos nas cidades, eles matam facilmente pela sua ideologia.”
Z. compara a atual intervenção estrangeira à dos aliados durante a II Guerra Mundial que, em última instância, derrubou o III Reich. “Esta guerra é semelhante à intervenção militar estrangeira durante a era nazi e não deve ser interrompida enquanto os clérigos não forem removidos do poder. Talvez se possa dizer que este momento tornou-se um ponto de viragem, quando os EUA, Israel e o povo iraniano agiram em simultâneo em prol de um objetivo comum: combater os assassínios perpetrados por este regime. Em geral, o objetivo de alguns iranianos ao apoiarem uma intervenção militar estrangeira era a mudança de regime; caso contrário, ninguém apoiaria de facto uma guerra.”
Ainda sem indicação de que o regime vá colapsar, só há uma pessoa capaz de liderar a transição do país para uma democracia, dizem as iranianas.
A dinastia Pahlavi
Reza Pahlavi, de 65 anos, é o filho de Mohammad Reza Pahlavi, o último xá do Irão, cujo poderio foi reposto em 1941 por via de um golpe orquestrado pela CIA (como os EUA reconheceram em 2013) contra o primeiro-ministro secular Mohammad Mossadegh, perante a sua decisão de nacionalizar a indústria petrolífera. Na sequência do golpe, o poder foi centralizado sob os comandos de Pahlavi pai, que voltou a permitir a entrada de petrolíferas estrangeiras no país por via do Acordo de Consórcio, de 1954.
Até 1979, durante a chamada Revolução Branca, o Irão assistiu a uma rápida modernização e ocidentalização, com o xá a conceder às mulheres o direito ao voto e o direito a serem eleitas para o Parlamento. Contudo, o reinado Pahlavi também foi marcado pela perseguição de críticos e opositores às mãos da polícia secreta SAVAK, levando um conjunto de movimentos políticos e sociais a unirem-se para depor a monarquia autocrática.
Essa revolução acabaria por ser tomada por Khomeini, que voltou do exílio enquanto líder supremo do Irão, fazendo aprovar a Constituição islâmica que vigora até hoje – sob a qual declarou, por exemplo, que o direito de voto concedido às mulheres pelo xá equivalia a prostituição.
Nascida cerca de uma década depois da Revolução Islâmica, V. reconhece que nem tudo era perfeito na era Pahlavi, mas contrapõe que o atual regime é ainda pior. “A monarquia tinha as suas falhas e, embora eu não estivesse viva na época, admito que podia ter sido reformada; no entanto, o atual regime opera com base numa ideologia islâmica que não tem lugar no mundo tecnológico de hoje.”
Z. invoca argumentos semelhantes:
Ambas acreditam que, aconteça o que acontecer, o destino do regime está traçado – mesmo tendo em conta que um país com 93 milhões de habitantes e milénios de história, a viver há quase meio século sob uma ditadura religiosa, dividido entre crentes e laicos, está longe de ser um monólito.
“Diria que a maioria dos iranianos compartilha o mesmo desejo: a mudança de regime”, destaca Z. “Temos muitas preocupações com o futuro do nosso país, muitas perguntas sem resposta e um futuro incerto pela frente, [mas] mantemos a esperança e tentamos ser otimistas. E esperamos que Reza Pahlavi possa ajudar-nos durante o período de transição, para que possamos alcançar a liberdade. É claro que não queremos outra ditadura, mas Pahlavi vai guiar-nos e ajudar-nos rumo à democracia.”
Ao longo dos últimos meses, Pahlavi, que vive exilado nos EUA desde a deposição do pai, tem apelado ao derrube do regime, prometendo regressar para dar voz aos desejos da maioria por via de um referendo – uma chama de esperança que tanto Z. como V. acalentam.
“A única opção fiável e com visão nacional para o povo, considerando o seu histórico familiar, é Reza Pahlavi”, diz V.. “Neste momento, o nosso único objetivo é recuperar o controlo do nosso país e construir um Irão livre, próspero e forte. A forma do futuro governo iraniano deve ser determinada pelo povo, os cidadãos devem ter o direito a escolher o sistema que querem por meio de um referendo, como defende Pahlavi.”
Com a realidade no terreno a mudar de hora a hora e as dificuldades de comunicação entre iranianos e destes com o mundo exterior, as informações verificáveis escasseiam. Ainda no início da semana, V. invocava “relatos de que o regime está a planear uma reformulação ministerial e a participação do partido reformista no governo”, algo que rejeita liminarmente – até porque “alguns dos piores crimes deste regime ocorreram durante períodos em que os chamados reformistas, que são um produto do mesmo regime, estavam no poder”.
Dias depois, surgiram notícias de que o sucessor do supremo líder Khamenei já estava escolhido.
“O povo do Irão, com a consciência adquirida após 47 anos de um regime traiçoeiro e mortal, quer a sua destruição completa e não quer mais clérigos – só quer a democracia”, garante V. “Com a confirmação da morte de Khamenei, não houve manifestações de protestos mas ocorreram ataques a centros de segurança e à destruição dos seus equipamentos – e estou certa de que, assim que as ruas forem consideradas seguras, as pessoas vão sair de casa para recuperar o seu país. Queremos a mudança do regime e que o sangue de todos os jovens que foram mortos por essa causa seja vingado, mas isso deve ocorrer por meio de um referendo. A sabedoria coletiva dos iranianos está agora mais forte do que nunca.”
Dias depois de partilharem o desejo de verem Pahlavi regressar e tomar as rédeas da transição democrática, dias depois de Donald Trump ter pedido aos iranianos que se preparem para sair às ruas e tomarem as rédeas do próprio país, o mesmo Donald Trump levantou dúvidas sobre a hipótese de o herdeiro do xá no exílio voltar a Teerão para liderar o povo iraniano, dizendo que “alguém de dentro talvez fosse mais apropriado”.
Mas dentro do Irão, garantem as duas iranianas entrevistadas pela CNN, não resta ninguém de confiança que possa alumiar as esperanças do povo iraniano. E isto, adianta V., pode ser só uma jogada do presidente americano. “Dado o seu estilo particular de fazer política, parece-me completamente natural que não apoie abertamente qualquer pessoa em específico neste momento.”
Com bombas ainda a cair, é a possível queda da teocracia que mantém viva a esperança de ambas.
Meshed, a cidade de V. e de Ali Khamenei, está entretanto “cheia de apoiantes [do aiatola] nas ruas, a fazerem o luto” pela sua morte. Aguarda-se a data do seu funeral, que, dada a guerra em curso, ainda não foi marcada – “se alguma vez for marcada, o local ficará lotado e poderá ser um dia perigoso”. Mas isso já pouco importa.
“Os eventos que vivenciamos nos últimos anos parecem um filme de ficção científica, inacreditáveis e inimagináveis para quem vive em países livres. Contudo, com estes eventos a serem retratados e disseminados repetidamente em todo o mundo, talvez as pessoas prestem atenção por curiosidade e as nossas vozes sejam ouvidas com mais força em todo o planeta. Nós só queremos liberdade.”