Nove teses sobre a operação “incompetente e mal organizada” dos EUA contra o Irão. “Matará milhares de pessoas se for usado o método de Gaza”

2 mar, 22:01
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A CNN Portugal publicou uma daquelas entrevistas que apetece citar toda, transcrever cada resposta para depois rebatê-la ou aplaudi-la, é dessa maneira que se lê, a preto ou branco, é contestar ou concordar porque a maneira de se ficar em neutralidade perante uma entrevista destas é uma maneira que as respostas não permitem, mas qual entrevista?, calma: ao contrário da entrevista, o mundo não está preto ou branco, não há só bons ou maus, há gente que ora é melhor ora é pior e depois é vice-versa, e nem todos os atos no mundo são transparentes, preto no branco. O mundo está cinzento e nem sequer é cinzento uniforme, é cinzento com múltiplas camadas e nuances, cinzento ora mais fulgurante ora mais obscurecido, porventura cinzento mais otimista ou eventualmente mais pessimista, são diversos tons de cinzento mas todos cinzentos imperfeitos porque não há soluções aparentemente perfeitas para os milhões de pessoas de todas as cores e de todos os credos conviverem pacificamente no planeta: as soluções que vemos, sobretudo as soluções políticas a que assistimos pela força dos mísseis ou por outras variações de força, são soluções que têm gerado imperfeições o tempo todo - e até essa dádiva vital que é a democracia tem ela própria as suas imperfeições, a começar pela fragilidade de permitir que acabem com ela, mas a democracia teria imperfeição maior se não possuísse essa debilidade de permitir que a matem democraticamente - e se não fosse assim não seria democracia, seria outra coisa qualquer: um aspirante a ditador pode ir a votos e ser eleito numa democracia mas um aspirante a democrata pode ir para a prisão e ser morto numa ditadura.

A democracia requer responsabilidade a todas as pessoas que serve e que se servem dela, impõe isso a pessoas também elas imperfeitas - essa é a condição das pessoas todas e a democracia é feita à imagem e semelhança das suas pessoas: é certo que a democracia já foi mais fértil e que já se multiplicou melhor mas as imperfeições da democracia, que resultam da sua bondade de permitir que se escolha desde o melhor até ao pior que há, são esperançosamente suportáveis diante das imperfeições das alternativas, em que simplesmente não se pode escolher - e quem não aceita é punido com repressão, perseguição, opressão, violência, morte. Na democracia, quem não aceita tem de esperar pela próxima eleição: a ditadura até pode ser boa para alguns mas a democracia pode ser sempre melhor para todos.

E por isso a entrevista a Viriato Soromenho-Marques, que a CNN publica AQUI, é uma daquelas que nos impõem reflexões sobre este mundo imperfeito em que somos pessoas imperfeitas lideradas por gente imperfeita que ordena atos imperfeitos, é uma entrevista que se lê a preto ou branco sobre o acontecimento cinzento que é o ataque ao Irão: há momentos na vida coletiva em que algumas pessoas se recusam a ser cinzentas, escolhem um lado, Viriato Soromenho-Marques escolhe o seu nesta entrevista à CNN Portugal, pode ler AQUI na íntegra ou antever parcialmente em baixo nove teses contra o ataque dos EUA e de Israel ao Irão:

1. “É patético acreditar no conto de fadas de que o derrube do regime iraniano é para instaurar uma democracia”;

2. “Este ataque conjunto de Israel e dos Estados Unidos, com o que me parece ser a liderança de Telavive sobre Washington, tem todos os ingredientes para, no menor dos casos, atirar o nosso mundo para um turbilhão económico ou para uma guerra generalizada, se não existir um recuo dos agressores”;

3. “Mohammed Mossadegh governou o Irão entre 1951 e 1953. Foi derrubado por um golpe organizado pelo MI6 britânico — preparado pelo governo trabalhista de Clement Attlee, mas realizado no tempo do último governo de Winston Churchill – e pela CIA, no tempo do presidente norte-americano Dwight D. Eisenhower. Como? Usando os instrumentos do costume: sanções económicas; suborno de altos funcionários e militares; organização de grupos de civis armados, muitos deles delinquentes comuns, e, sobretudo, oferecendo ao Xá Reza Pahlavi poderes absolutos, em violação clara da Constituição então vigente”;

4. “Teerão já revelou o caminho da sucessão. O que importa é perceber como os pormenores do assassínio de Khamenei são horríveis. Parece que terá saído sexta-feira do seu abrigo para falar com os negociadores sobre as promessas das conversações com os Estados Unidos. Apesar da armadilha montada por Washington aos negociadores iranianos antes da Guerra dos 12 Dias, em junho passado, Khamenei continuou a acreditar na bondade de um acordo com os Estados Unidos que trocasse a renúncia ao nuclear pelo fim das sanções e relações pacíficas com Washington. Terá sido isto que o fez perder a vida.”

5. “O terrorismo de Estado israelita e norte-americano é de uma sinistra eficácia. Contudo, só quem não conhece o valor do martírio na cultura xiita é que não percebe que este abominável assassínio de um chefe religioso não irá unir apenas o xiismo. O mundo sunita pensará mais do que duas vezes no modo desprezível como o Ocidente trata o mundo islâmico. Estou à espera de uma declaração condenatória deste ato terrorista por parte do Papa Leão XIV, líder de mais de mil e quatrocentos milhões de católicos. Espero que o ecumenismo não tenha morrido com o Papa Francisco”;

6. “O que é incrível é a existência de uma narrativa condenatória do regime já estar pronta antes mesmo de os acontecimentos sangrentos estarem consumados. A repetição de 1953 é tão grosseira que até foram buscar Reza Pahlavi, o filho já idoso do antigo Xá, como se daí viesse alguma melhoria para o povo iraniano”;

7. “A operação militar, incompetente e mal organizada dos Estados Unidos, pode matar muitos milhares de pessoas, sobretudo se os israelitas usarem o método de Gaza, que é o extermínio sem contemplações de civis. Mas, internamente, acabará por unir a resistência em torno do regime”;

8. “A sociedade iraniana é muito complexa e sofisticada. O grau de instrução da população, incluindo a feminina, é muito elevado. Sim. A sua capacidade tecnocientífica faz inveja à maioria dos países europeus”;

9. “Os Estados Unidos querem continuar a manter o mais possível a sua hegemonia, usando o único argumento que lhes resta: a força bélica e a influência no sistema financeiro internacional. Ao lançar o Irão no caos, os Estados Unidos atingem a China, que é um importantíssimo cliente do petróleo iraniano.”

Posto tudo isto: é uma entrevista sobre as democracias que temos e as democracias que queremos, sobre democracias que atacam e as ditaduras que são atacadas, sobre as forças e fraquezas de quem está na ofensiva ou na retaliação, sobre que liberdade estamos ou não a assegurar às pessoas que estão num país por onde entramos com bombas adentro, é uma entrevista sobre ataques de outrora com consequências imperfeitas que os ataques de agora podem agravar, é uma entrevista sobre tomar uma posição perante um evento potencialmente catastrófico, é uma entrevista sobre determinar o que é preto ou branco porque quem vive nos cinzentos é que morre indefeso, os civis. E é uma entrevista que abre a versão diária desta newsletter que habitualmente é uma versão semanal, hoje calhou-me a mim escrevê-la e nos próximos dias vai calhar a jornalistas magníficos fazê-lo - mas a si, cara pessoa que me está a ler, vai calhar-lhe todos os dias na caixa de correio. Amém. 

Antes do adeus deste texto: lançámos um podcast sobre o ataque ao Irão, é diário, curto, prático, explica e contextualiza, antecipa e analisa - procure por Fúria Épica na sua plataforma de podcasts preferida (em Spotify está AQUI, por exemplo, e no site da CNN AQUI - mas está disponível em Apple Podcasts e etc.). E pronto: bom dia e boa sorte. 

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