O acontecimento continua a ser a tempestade geomagnética mais intensa de que há registo
Quando as tempestades solares entram em erupção e atingem a Terra, a sua intensidade é medida em relação a uma referência histórica: o Evento de Carrington. Agora, foi descoberto um retrato do astrónomo solar britânico do século XIX, Richard Carrington, fornecendo, finalmente, uma imagem do homem que deu nome ao evento.
A um de setembro de 1859, fortes picos de corrente elétrica provocaram choques nos operadores das estações de telégrafo e chegaram mesmo a desencadear incêndios nos escritórios. Algumas máquinas telegráficas receberam mensagens sem sentido, enquanto outras enviaram mensagens apesar de não estarem ligadas à corrente. A informação é avançada pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).
Auroras incrivelmente brilhantes, normalmente vistas em climas mais a norte, como a Noruega e o Alasca, dançaram no céu até latitudes tão a sul como o Panamá.
O acontecimento continua a ser a tempestade geomagnética mais intensa (uma grande perturbação do campo magnético da Terra devido à atividade solar) de que há registo.
Na altura, os efeitos da atividade solar na Terra, designados por meteorologia espacial, não eram conhecidos.
No dia anterior, Carrington tinha observado uma grande erupção solar a desprender-se da nossa estrela, a primeira alguma vez testemunhada e registada. O astrónomo detetou o clarão brilhante enquanto utilizava um telescópio para projetar a imagem do Sol num ecrã.
Embora o seu colega Richard Hodgson também tenha observado a erupção, foi Carrington quem estabeleceu o que é considerado a primeira ligação direta entre a atividade solar e geomagnética, ou seja, entre a erupção e a tempestade que se seguiu e que chegou à Terra 17 horas depois. A explicação é dada por Mark Miesch, investigador no Centro de Previsão de Meteorologia Espacial da NOAA.
O investigador acrescenta que essa ligação deu mais tarde origem à ciência da meteorologia espacial, garantindo que "Richard Carrington testemunhou o poder incrível do Sol como ninguém antes ou depois".
Apesar das suas grandes contribuições para a física solar, Carrington não é muito conhecido, e os especialistas suspeitam que isso se deve, em parte, ao facto de não haver um rosto para associar ao seu nome.
Agora, o trabalho de detetive de Kate Bond, arquivista assistente na Royal Astronomical Society em Londres, revelou a primeira e talvez única fotografia conhecida de Carrington, 150 anos após a sua morte.
Um retrato desaparecido
Os arquivos da Royal Astronomical Society contêm as observações originais de manchas solares feitas por Carrington entre 1853 e 1861, sendo das mais solicitadas para consulta por incluírem o seu desenho da erupção solar de 1859.
Porém, os investigadores que queriam ver uma fotografia de Carrington não tinham tido sorte, uma vez que não existia qualquer registo fotográfico do astrónomo, explicou Kate Bond.
A arquivista começou a interessar-se por Carrington depois de ler o livro "The Sun Kings", de Stuart Clark, no qual o autor menciona que gostaria de poder ver um retrato do astrónomo. Um artigo científico de 2021, da autoria de membros da Royal Astronomical Society, também mencionava a busca pela fotografia.
Nem mesmo as pesquisas na internet revelaram um rosto, à exceção de uma fotografia errónea pertencente ao matemático britânico Lord Kelvin, tirada por volta de 1900, mais de duas décadas após a morte de Carrington.
Kate Bond e Hisashi Hayakawa, professor assistente no Instituto de Investigação Ambiental do Espaço-Terra da Universidade de Nagoya, no Japão, debateram o aspeto que um retrato perdido de Carrington poderia ter. A conversa decorreu durante a visita de Hayakawa à biblioteca da sociedade para uma investigação independente, em junho.
À semelhança de outros cientistas da época, Carrington era membro do Clube de Retratos Literários e Científicos. Todos os associados eram obrigados a tirar um retrato no estúdio Maull & Polyblank, em Londres. O clube funcionou entre 1854 e 1865, numa altura em que a fotografia estava ainda a dar os primeiros passos.
A National Portrait Gallery tem uma lista dos membros do clube, que inclui o nome de Carrington, bem como o seu cargo entre 1857 e 1862: secretário da Royal Astronomical Society.
O artigo científico de 2021 também fazia referência a uma carta de convite enviada a George Airy, o Astrónomo Real, para se juntar ao clube de retratos. Dez membros do clube que já tinham sido fotografados assinaram a carta, incluindo Carrington.
Contudo, pesquisas exaustivas em museus e arquivos, incluindo a National Portrait Gallery do Reino Unido e a Royal Society, bem como o Museu Getty em Los Angeles e uma impressionante coleção de fotografias do estúdio Maull & Polyblank no Harry Ransom Center, no Texas, não deram qualquer resultado.
Durante a conversa com Hayakawa, Kate Bond decidiu pesquisar a frequência de vendas de fotografias ou álbuns do estúdio em sites de leilões. Por brincadeira, recorreu ao eBay.
Num comunicado, a arquivista relatou a descoberta, explicando que "apareceu uma loja de fotografia nos EUA a vender um grupo destas fotografias, e uma delas tinha 'o falecido Carrington' escrito a lápis no suporte". O vendedor tinha listado a imagem simplesmente como "Foto do Sr. Carrington", sem qualquer detalhe biográfico, algo que deixou a especialista incrédula.
Pistas reveladoras
A olhar para ela estava a fotografia de um jovem com cerca de 30 anos, a idade que Carrington teria em 1856, quando o retrato foi tirado. Junto à menção do nome na fotografia encontravam-se as letras FRS, a abreviatura de Membro da Royal Society.
A imagem correspondia também às dimensões de todas as outras fotografias associadas ao clube.
Depois de pensar no assunto durante toda a tarde, Kate Bond comprou a fotografia nessa mesma noite, receando que a oportunidade lhe escapasse.
O vendedor, Bruce Klein, tinha adquirido um álbum com fotografias do estúdio num leilão no início dos anos 2000, enquanto procurava uma imagem específica para a sua coleção, e decidiu colocar o resto à venda.
Mas foi necessário mais trabalho de investigação para confirmar que se tratava efetivamente de Carrington na fotografia. A inscrição "o falecido Carrington" suscitava dúvidas por ter sido escrita após a sua morte em 1875, o que significava que qualquer pessoa a poderia ter acrescentado, mesmo sem saber qual era o aspeto do astrónomo.
Quando a fotografia chegou, a arquivista detetou o que considera ser a prova irrefutável, algo que não era visível na internet.
A responsável descreveu que, ao ter a fotografia nas mãos, conseguiu ver algo escrito de forma muito ténue na própria imagem. Como não conseguia decifrar o texto, colocou-o numa mesa de luz, momento em que este se tornou mais claro, mas estava invertido.
Decidiu então levar a fotografia ao departamento fotográfico da Biblioteca John Rylands, em Manchester, para perguntar se a escrita seria uma inscrição no verso da impressão ou a marca de uma carta que tivesse ficado decalcada na imagem.
Colocada virada para baixo sobre uma mesa de luz, a fotografia revela uma inscrição. Royal Astronomical Society
Os especialistas da biblioteca concluíram que se tratava de uma inscrição no verso da fotografia, feita antes de esta ser montada no suporte.
Kate Bond sublinha a importância desta descoberta, referindo que a inscrição dita: "R. C. Carrington, Escudeiro, para C. V. Walker, Escudeiro".
Charles Vincent Walker nomeou Carrington para ser membro da Royal Society e os dois eram amigos, frequentando juntos os eventos do Clube de Jantar da Royal Astronomical Society. Walker também era membro do Clube Fotográfico e a inscrição sugere que foi ele o proprietário da fotografia em determinada altura.
A arquivista assinala que "o erro do assistente do fotógrafo ao escrever no verso da impressão, danificando o que teria sido uma fotografia cara, tornou a identificação possível".
Agora, a recordação de Walker foi adicionada aos arquivos da Royal Astronomical Society. E a fotografia de Carrington já figura na sua página da Wikipédia.
Kate Bond considera apropriado que a fotografia também pertença à sociedade, como se o astrónomo estivesse a "voltar a casa". Embora não saiba quantificar as probabilidades de isto ter acontecido, nem quantas cópias da impressão existem, admite que esta pode ser a única, mas deixa a porta aberta para a existência de outras.
Uma nova visão do Sol
Ao longo de um período de nove anos, Carrington fez grandes descobertas sobre o Sol. Contudo, o caso da sua imagem desaparecida era único entre os mais distintos cientistas solares dos últimos 400 anos. A observação é do investigador Ed Cliver, autor principal do artigo de 2021 e astrónomo emérito do Observatório Solar Nacional em Boulder, no Colorado.
Carrington foi galardoado com a Medalha de Ouro da Royal Astronomical Society em 1859 pelo seu catálogo de estrelas circumpolares (estrelas que nunca parecem descer abaixo do horizonte a partir de determinados pontos de observação na Terra).
Em 1857, o britânico entregou a Heinrich Schwabe uma medalha de ouro pela sua descoberta do Ciclo de Schwabe relativo às manchas solares, também conhecido como ciclo solar. O Sol passa por um período de 11 anos de atividade crescente e decrescente, que corresponde a manchas e erupções que ocorrem na sua superfície.
Contudo, Carrington notou que as manchas perto do equador solar giravam mais rapidamente do que as situadas em latitudes mais elevadas, assinalou Mark Miesch. As suas observações foram as primeiras a sugerir que a nossa estrela é mais fluida do que sólida (especificamente, plasma), com correntes globais que transportam as manchas solares a diferentes velocidades, dependendo da latitude.
Num e-mail, Miesch escreveu que "Carrington não só testemunhou o poder incrível do Sol, como viu profundamente a sua verdadeira natureza". O investigador acrescentou que a imagem do astrónomo mostra a intensidade de um cientista, mas também o seu fascínio de menino. E concluiu: "Lembra-nos que a ciência é, e sempre foi, um esforço intimamente humano".
E há também o acontecimento histórico que tem o seu nome. Tempestades solares como o Evento de Carrington acontecem aproximadamente a cada 500 anos, enquanto as que têm metade da intensidade ocorrem a cada 50 anos, indicam os dados da NOAA.
Lyndsay Fletcher, uma das autoras do artigo de 2021 e professora de astrofísica na Universidade de Glasgow, na Escócia, descreveu a descoberta do retrato como um incrível golpe de sorte e trabalho de detetive.
Durante anos, a professora estudou as chamadas erupções de luz branca do Sol, descobertas por Carrington.
Lyndsay Fletcher acredita que o astrónomo "ficaria espantado ao saber que 167 anos depois ainda não compreendemos totalmente a sua causa". A especialista sublinhou ainda que "o seu artigo sobre a observação está maravilhosamente bem escrito, transparecendo muito da sua personalidade, pelo que é algo extraordinário ver agora o rosto do cientista dedicado e hábil que lhe deu origem".