A missão DART marcou a primeira vez que um objeto construído pelo homem alterou a trajetória de um corpo celeste enquanto este orbita o Sol, segundo os autores do estudo — e se, no futuro, se descobrir que um asteroide está em rota de colisão com a Terra, esta poderá não ser a última vez
Em 2022, uma nave espacial da NASA colidiu intencionalmente com o minúsculo asteróide Dimorphos durante um teste de defesa planetária. O objetivo era avaliar se a humanidade seria capaz de proteger a Terra de ameaças cósmicas, como rochas espaciais. Novas observações revelam agora que o teste de defesa planetária foi um sucesso, tendo alterado a órbita de Dimorphos, bem como a de um asteroide maior chamado Didymos.
Dimorphos e Didymos são um par binário, o que significa que os asteroides orbitam um ao outro enquanto também giram em torno do Sol — e uma alteração mensurável num deles afetará o outro.
Os novos dados mostram que o tempo necessário para Didymos e Dimorphos completarem uma órbita solar, o que demora cerca de 770 dias, diminuiu permanentemente em menos de um segundo após o Teste de Redirecionamento de Asteroide Duplo, ou DART, de acordo com um estudo publicado a 6 de março na revista Science Advances.
"A alteração na velocidade orbital do sistema binário foi de cerca de 11,7 microns por segundo, ou 4,31 centímetros por hora", afirmou o autor principal do estudo, Rahil Makadia, um cientista de defesa planetária que trabalhou na equipa DART e concluiu recentemente o seu doutoramento em engenharia aeroespacial na Universidade de Illinois Urbana-Champaign, num comunicado. "Ao longo do tempo, uma alteração tão pequena no movimento de um asteroide pode fazer a diferença entre um objeto perigoso atingir ou não o nosso planeta.”
A missão DART marca a primeira vez que um objeto construído pelo homem alterou a trajetória de um corpo celeste enquanto este orbita o Sol, segundo os autores do estudo — e se, no futuro, se descobrir que um asteroide está em rota de colisão com a Terra, esta poderá não ser a última vez.
As consequências de uma colisão
Embora Didymos e Dimorphos nunca tenham representado um risco para a Terra, o sistema binário proporcionou à NASA o cenário perfeito para avaliar a eficácia com que uma nave espacial poderia ser utilizada como ferramenta de desvio.
Mas, para avaliar o sucesso do teste, os investigadores precisavam de medir como Dimorphos e Didymos foram alterados pelo impacto.
Didymos tem a forma de um pião e acredita-se que seja um asteroide de pilha de detritos — essencialmente uma coleção de poeira e rochas mantidas juntas de forma solta pela gravidade. Dimorphos, também uma pilha de detritos, provavelmente formou-se a partir de fragmentos que se aglomeraram após serem ejetados por Didymos.
Quando a DART colidiu com Dimorphos, uma enorme nuvem de detritos foi lançada para o espaço, estimada em 16 milhões de quilogramas. Embora a rocha espacial com 170 metros tenha perdido apenas 0,5% da sua massa, os detritos libertados foram 30 mil vezes superiores à massa da nave espacial, de acordo com investigações anteriores.
Os cientistas determinaram que a força dos detritos ejetados pelo asteroide teve, na verdade, um impacto maior do que o da nave espacial quando esta colidiu com a rocha espacial. O aumento do impulso contribuiu para reduzir o tempo que o par de asteroides demora a orbitar o Sol.
Estudos anteriores demonstraram que a órbita de 12 horas de Dimorphos em torno de Didymos diminuiu em 33 minutos.
O novo estudo destaca que a enorme quantidade de material ejetado do sistema de asteroides também aumentou a velocidade a que ambas as rochas espaciais orbitam o Sol, reduzindo o tempo total de órbita em 0,15 segundos.
Para medir esta alteração orbital, os astrónomos basearam-se em observações terrestres de Didymos, bem como em dados de quando o asteroide passou diretamente à frente de estrelas. Conhecidos como ocultações estelares, esses movimentos permitem aos cientistas medir a posição direta, a velocidade e a forma de um asteroide.
Mas detetar quando uma estrela pisca por uma fração de segundo enquanto um asteroide passa à sua frente, da nossa perspetiva na Terra, é incrivelmente desafiante. As conclusões do estudo basearam-se em 22 ocultações estelares registadas entre outubro de 2022 e março de 2025 por astrónomos voluntários de todo o mundo.
"Quando combinadas com anos de observações terrestres já existentes, estas observações de ocultação estelar revelaram-se fundamentais para nos ajudar a calcular como a missão DART alterou a órbita de Didymos", afirmou num comunicado Steve Chesley, coautor principal do estudo e investigador sénior do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, em Pasadena, Califórnia. "Este trabalho depende muito das condições meteorológicas e requer frequentemente viagens a regiões remotas, sem garantia de sucesso. Este resultado não teria sido possível sem a dedicação de dezenas de observadores voluntários de ocultação em todo o mundo."
Patrick Michel, investigador principal da missão de acompanhamento Hera da Agência Espacial Europeia, lançada em 2024 e que passará pelas consequências da colisão da DART, ficou surpreendido por ser possível medir uma diferença tão pequena nas órbitas de ambos os asteroides.
“Sabíamos que uma mudança tão pequena poderia ocorrer, o que não representa qualquer risco para a Terra, mas medi-la efetivamente foi outro desafio que a equipa enfrentou extremamente bem”, escreveu Michel num e-mail. “Fazer isso requer uma coordenação internacional bem organizada, porque é preciso cronometrar com precisão os piscares causados pela passagem de um asteroide à frente de uma estrela, tal como vistos por diferentes observadores em todo o planeta. Se isso for feito corretamente, como neste estudo, então é possível realizar medições com uma precisão incrível.”
Seguir asteroides perigosos
Serão partilhadas mais observações e medições do efeito da missão DART nas rochas espaciais assim que a sonda Hera chegar à órbita do sistema de asteroides ainda este ano. A Hera irá capturar e partilhar as primeiras imagens novas de Dimorphos neste outono, afirmou Michel.
Entretanto, a missão Near-Earth Object Surveyor da NASA, atualmente em desenvolvimento, poderá detetar asteroides escuros e perigosos que têm permanecido praticamente invisíveis aos observatórios terrestres.
Identificar asteroides potencialmente perigosos e compreender como uma pequena alteração na órbita pode levar a um desvio significativo anda de mãos dadas com a forma como as agências espaciais pretendem proteger a Terra.
"A medição incrivelmente precisa da equipa valida mais uma vez o impacto cinético como técnica para defender a Terra contra os perigos dos asteroides e mostra como um asteroide binário pode ser desviado ao impactar apenas um dos membros do par", afirmou Thomas Statler, cientista principal para pequenos corpos do sistema solar na NASA, num comunicado, que não esteve envolvido no estudo.
Se for encontrado um asteroide que represente riscos para o nosso mundo com tempo suficiente para o desviar, um impactador cinético como o DART poderia ser enviado para empurrar a rocha espacial, ou o seu companheiro, para uma órbita mais benigna que não atinja a Terra.