Proibir o que não se gosta não é um bom sinal. Era bom que os estudantes de Coimbra aprendessem também isso
Houve muitas palmas e congratulações quando a Associação Académica de Coimbra anunciou que decidira excluir o Chega dos eventos ou iniciativas cívicas, sociais, económicas, mediáticas ou políticas dos órgãos centrais, intermédios e estruturas estudantis. Houve até antigos dirigentes estudantis que escreveram nos media que é assim que a “juventude lembra ao País o valor da democracia excluindo o Chega” e que o maior legado de tal decisão seria de que “não há democracia adulta sem juventude consciente. E sempre que os estudantes assumem essa consciência, o País inteiro respira um pouco mais fundo. E todos nos orgulhamos!”
Justificado assim em público, ou com omissas atitudes dos representantes da generalidade dos partidos políticos e de muitos comentadores do espaço público, o comportamento da mais antiga, e porventura representativa, associação de estudantes do País ficou sustentado na votação da sua Assembleia Magna (o órgão deliberativo máximo), com os alunos presentes a traçarem este veredito democrático de proibição com 273 votos a favor, três contra e 30 abstenções.
No total, foram 306 votantes a representar cerca de 30 mil alunos que, pelos estatutos, são automaticamente seus sócios e fazem parte das várias faculdades da Universidade de Coimbra. Só os diversos órgãos da Associação de Estudantes – direção, secções (inclusive uma Política) e afins – têm quase 80 membros. Melhor dito: 1,02% dos estudantes decidiram por todos a exclusão do diálogo com um partido político de um regime democrático que representa atualmente mais de 1,4 milhões de portugueses, tem 60 deputados e o respetivo líder conseguiu 1,7 milhões de votos nas últimas Presidenciais.
Argumente-se o que se quiser em termos de princípios, o intitulado “Posicionamento global da Associação Académica de Coimbra perante o partido Chega” é na sua essência uma ação de proibição que visa um partido do sistema democrático, não é uma ação justificada de revolta de uma associação académica que se diz herdeira da luta contra o Estado Novo. Passaram mais de 50 anos do 25 de Abril, e a atitude de afastar, de não querer discutir, de proibir, é apenas uma forma de exclusão e tentativa de silenciamento em democracia, concorde-se ou não com a matriz política e social de um qualquer partido. Uma ação que, para mais, não tem qualquer paralelo no espectro político português onde coexistem naturalmente outros partidos com ideias, programas e comportamentos políticos bastante questionáveis para muitos portugueses (agora e no passado) sobre a vida em democracia.
A censura política e a intolerância ideológica, mais ainda num meio universitário que está a formar as futuras elites políticas, sociais e económicas do País, não é um bom sinal. Discordar nunca se deve confundir com não ouvir. Afastar e impor o silêncio não deve ser um meio e um fim. Muitas vezes confunde-se este tipo de atitudes com o combate legítimo de certas ideias e mesmo de ideologias. Isto quando o verdadeiro princípio geral democrático deve ser que as ideias se combatem com ideias, com diversidade e discussão, sobretudo quando está em causa o que não se gosta ou mesmo aquilo que nos afronta em termos muito pessoais. Quando o meio universitário, e as associações de estudantes (ou estudantes individualmente) surgem imbuídos de um espírito justiceiro disfarçado de altruísta, rapidamente se dá o passo seguinte para o saneamento coletivo ou individual, e isso é muito, mesmo muito preocupante.
Não me canso de repetir, as ideias não se combatem com mordaças ou silenciamentos forçados. Numa democracia plena devem existir poderes e contrapoderes, um sistema de equilíbrio saudável de vigilância democrática. Mas será sempre um péssimo sinal ter alunos a fazer vigilâncias e bloqueios à entrada de políticos e outros cidadãos que são convidados para estarem num evento universitário, como já sucedeu com Jaime Nogueira Pinto na Universidade Nova de Lisboa. Ou a pintarem paredes com frases como “Faculdade progressista não paga salário a fascista”, como também já aconteceu. Ou surgirem alianças de abaixo-assinados de docentes e alunos (ou vídeos avulsos de ódio nas redes sociais) a atacarem o universitário Riccardo Marchi por um trabalho académico sobre o Chega ou a pugnarem pela não contratação de docentes, como está a acontecer com a antiga líder do BE Mariana Mortágua ou já se passou com o antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho.
Transformar (ex) políticos, e correntes políticas de um regime democrático, em encarnações do Diabo ou em símbolos a serem silenciados é o primeiro passo que atenta contra a democracia liberal. E seria bom que isso também fosse ensinado e aprendido nas universidades.