Há 300 trabalhadores no setor artístico em Portugal que revelam ter sofrido assédio sexual

CNN Portugal , MJC
25 nov, 20:56
Bailarina (AP)

Questionário feito pelo projeto MUDA recebeu 611 respostas, maioritariamente de mulheres. Grande parte delas nunca apresentou queixa, sobretudo por medo das consequências na carreira

Quase 75% dos trabalhadores das artes performativas que participaram no questionário nacional sobre assédio nas artes em Portugal admitiram ter vivido situações de assédio moral e perto de 50% passaram por assédio sexual, revelam os resultados preliminares do questionário nacional sobre assédio laboral no setor artístico em Portugal, realizado pelo projeto MUDA – Assédio nas Artes em Portugal, financiado pela Direção-Geral das Artes.

Entre junho e setembro, o MUDA recebeu 611 respostas ao questionário. De acordo com o comunidado, 74,8% das pessoas inquiridas (perto de 450 pessoas) afirmam ter experienciado situações de assédio moral e 49,8% (ou seja, cerca de 300) referem ter passado por assédio sexual.

Entre 40% e 77% dos casos reportados, os agressores são pessoas que estão hierarquicamente acima das vítimas, ocupando frequentemente posições de chefia artística ou pedagógica.

Entre 39% e 70% das pessoas afetadas nunca apresentaram queixa formal, apontando como razões principais: o receio de consequências na carreira; o desgaste emocional; e a ausência de provas ou testemunhas.

Os contextos em que estas situações de assédio ocorrem distribuem-se entre atividade remunerada (entre 43% e 74%, consoante o tipo de assédio) e ambientes de formação, incluindo ensino artístico certificado e não certificado.

As situações registam-se tanto em atividade profissional remunerada (43% a 74%) como em contextos de formação artística, certificados ou não certificados.

Da amostra, 70,2% são mulheres cisgénero. As pessoas que responderam ao inquérito têm uma média de 38,49 anos, predominância de residência urbana, elevado nível de formação superior e forte presença de profissionais independentes.

Em comunicado, o MUDA sublinha que "estes resultados têm caráter preliminar e devem ser cautelosamente interpretados". Lembra ainda que "a participação no questionário foi voluntária e disseminada online, o que pode gerar viés de auto-seleção e não permite afirmar que a amostra é representativa de todo o setor artístico em Portugal".

Desta forma, e até serem publicados os detalhes metodológicos do questionários, "os valores apresentados não devem ser interpretados como prevalência absoluta, mas sim como indicadores de tendência e sinais de preocupação que reforçam a necessidade de aprofundar o diagnóstico e estruturar respostas institucionais", dizem as responsáveis pelo projeto.

A equipa do MUDA está agora a analisar detalhadamente os dados para produzir o relatório final, previsto para publicação no final de Março de 2026. 

O Muda é um projeto liderado por três atrizes - Catarina Vieira, Raquel André e Sara de Castro - e tem como objetivo prevenir e combater os diferentes tipo de assédio nas artes em Portugal. Este questionário é apenas um ponto de partida para conhecer melhor a incidência do assédio no setor e, depois, elaborar um plano que visa transformar práticas de trabalho de modo a prevenir situações de assédio e abuso laboral, moral e sexual nas artes performativas em Portugal. 

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