Rita é mãe e, por causa dos escândalos sexuais na faculdade, inscreveu-se com a filha no Krav Maga

8 abr, 15:35
Rita Isabel no protesto contra o assédio sexual na Universidade de Lisboa

A entrada da Reitoria da Universidade de Lisboa foi palco de um protesto estudantil contra o assédio sexual. No meio de centenas de jovens esteve Rita Isabel, mãe e antiga estudante de arquitetura

“Quem diria, quem diria, que a sala de aula temeria”. As palavras de ordem de centenas de estudantes ecoam na Alameda da Cidade Universitária, em Lisboa. Estão ali num protesto contra o assédio sexual, não só na Faculdade de Direito, mas no Ensino Superior. “Precisamos de mudança. Acabar com a insegurança”, exigem.

Em frente à reitoria estão maioritariamente jovens entre os 18 e os 25 anos, exibindo cartazes com as mais variadas frases. “Assédio não é elogio”; “Ainda temos de sair à rua por isto?”; “As minhas propinas não têm o vosso assédio incluído”. Rita Isabel espreita o tumulto. Com 46 anos, parece distanciar-se dos presentes, mas segura o seu próprio pedaço de cartão com as palavras "não ao assédio".

“Vim em solidariedade para com as minhas colegas arquitetas de há 22 anos”, começa por dizer. Na altura, conta, houve um “escândalo sexual com umas célebres cassetes de vídeo”. O docente – cujo nome prefere não pronunciar – acabou por nunca ser afastado. “Felizmente não fui aluna dele, mas sei que continuou a exercer”.

Mais de 20 anos depois, Rita não vê uma evolução. "Vim aqui por duas razões", acaba por revelar. Por um lado, para pedir justiça pelas antigas colegas, por outro, pela sua filha de 18 anos, que ingressou na Faculdade de Letras de Lisboa em outubro, mas interrompeu o seu percurso em meados de dezembro. Em causa estará um episódio de assédio sexual por parte de um professor, mas a mãe não quer revelar as circunstâncias. Apenas garante ter sido "muito traumático".

"Ela simplesmente não conseguia frequentar a faculdade", explica. Ainda assim, a jovem avisou várias alunas que, tal como ela, terão suspendido a matrícula. "Tem uma noção dos limites incrível", embora nem sempre seja suficiente em casos de assédio. Foi por isso que se inscreveram juntas no Krav Maga - arte marcial israelita com base na defesa pessoal. "Ela agradeceu-me a ideia", diz Rita com orgulho.

A arquiteta olha à volta e vê-se rodeada de jovens com a idade da sua filha. "O papel das mães é ensiná-las que 'não é não'", declara. Por outro lado, acredita que o assédio sexual também envolve cativar a vítima, levando-a a sentir-se especial. "De repente, paga um preço muito alto". Mas como é que se atinge esse ponto? "O que está na base disto são os predadores disfarçados de pedagogos", explica. "Para uma jovem de 18 anos, é muito difícil de gerir. Roubam-lhe a alma".

Rita alerta para a necessidade de haver uma alteração no enquadramento legal do assédio, tal como acontece com os casos de violência doméstica. Tal deverá passar por códigos de conduta. "São professores que veem alunas novas e não sabem estar. Há comportamentos impróprios", esclarece, destacando ainda situações de "abuso de poder". "Metade das pessoas não fala por medo e por saber que não acontece nada".

O caso Tomás Taveira

Rita não menciona o nome do professor da Faculdade de Arquitetura, mas o caso de Tomás Taveira acabou por se tornar conhecido. Foi protagonista de um dos maiores escândalos do país em 1989. Gravações caseiras do arquiteto a ter relações sexuais com várias mulheres, entre elas algumas alunas suas, foram divulgadas pela imprensa. As respetivas imagens tinham sido registadas no seu gabinete nas Amoreiras, em Lisboa. 

Numa entrevista ao jornal i já em 2018, o professor catedrático garantiu que a situação "não teve influência" no seu afastamento da vida pública, referindo-se a ela como "uma página branca" na sua vida. Tomás Taveira continuou a exercer na Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa até 2003.

Rita explica que o docente filmava os seus atos sexuais com alunas, mostrando posteriormente as imagens ao seu circuito de amigos. “Imagine que entre esses homens está alguém que vê a sua namorada”. Não esconde a indignação. Na sequência da polémica, o seu atual marido, que estaria na associação de estudantes, prendeu os portões da faculdade num ato de contestação. Foi quando o professor o terá ameaçado. "Disse-lhe que ali podia fazer aquilo, mas que lá fora levava uma tareia", conta.

Lembra os tempos em que estudava e via "o terror" nos rostos das colegas. Era recorrente "raparigas com mais palminho de cara e mais palminho de corpo" verem-se obrigadas a gerir as aulas, os trabalhos e ainda os avanços do professor. Rita descreve-o como "masculinidade tóxica associada a abuso de poder". E pior ainda é a sensação de "impunidade".

 

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