Maquinistas do Metro de Lisboa denunciam: "Querem obrigar-nos a andar sem condições de segurança"

19 dez 2021, 18:00
Metro de Lisboa
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O Sindicato dos Trabalhadores da Tracção do Metropolitano de Lisboa refere que os trabalhadores "tripulam seis horas por dia" sob pressão, sem que lhes sejam permitidos "dois ou três minutos para beber um copo de água" e, se quiserem fazer uma pausa para ir à casa de banho, "têm de pedir autorização"

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Os maquinistas do Metropolitano de Lisboa dizem ser vítimas de assédio moral pelas chefias, que os obrigam a "andar com comboios sem condições de segurança", denunciou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Tracção do Metropolitano de Lisboa (STTM), em declarações à CNN Portugal.

As declarações surgem dias depois da apresentação de um estudo realizado pelos investigadores do Observatório para as Condições de Vida e Trabalho, apresentado no auditório do Metro no Alto dos Moinhos, em Lisboa, que dava conta de que perto de 20% dos maquinistas do Metropolitano de Lisboa se encontram em “exaustão emocional extrema”. 

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O presidente do STTM, Silva Marques, admitiu que os trabalhadores foram "apanhados completamente de surpresa" por algumas das conclusões da primeira parte do estudo Inquérito sobre as condições de vida de trabalho dos maquinistas no Metropolitano de Lisboa, solicitado e financiado precisamente por aquele sindicato, que desde 2007 tem vindo a assistir à "deterioração das condições de trabalho" no metro.

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Uma dessas conclusões está relacionada com a "consciencialização" por parte dos motoristas - mesmo daqueles que estão na profissão há dezenas de anos - da sua responsabilidade no transporte de milhares de passageiros "num ambiente completamente adverso", apontou Silva Marques, referindo-se à circulação no subsolo.

Henrique Silveira de Oliveira, doutorado em matemática pela Universidade Técnica de Lisboa e responsável pela análise matemática dos dados no estudo, salientou também este aspeto, descrevendo estes profissionais como "uma classe com muito sentido de responsabilidade".

Contudo, a principal conclusão deste estudo está relacionada com o esgotamento emocional dos maquinistas, que, nas palavras de Henrique Silveira de Oliveira, "é o aspeto mais agudo do burnout". "Isto significa que já lhes é muito difícil ir trabalhar", explicou, em declarações à CNN Portugal.

Para Silva Marques, esta situação de exaustão dos trabalhadores pode colocar em causa a segurança dos passageiros: "É claro que as pessoas se sentem psicologicamente cansadas, e o seu nível de atenção e de prontidão não é o mesmo."

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Além de trabalharem no subsolo - que, por si só, já é desgastante, salientou o dirigente sindical, apontando que há estudos que demonstram que "um ano de trabalho no subsolo corresponde a três anos ao ar livre" - os maquinistas fazem "muitas horas noturnas" e "tripulam seis horas por dia" sob pressão, sem que lhes sejam permitidos "dois ou três minutos para beber um copo de água" e, se quiserem fazer uma pausa para ir à casa de banho, "têm de pedir autorização" à hierarquia, contou.

Ameaças de processos para quem não cumprir ordens

Um outro aspeto realçado por Henrique Silveira de Oliveira diz respeito às queixas de assédio moral por parte dos maquinistas, uma vez que um terço dos 150 inquiridos diz ter sido “vítima de assédio moral por parte das hierarquias”. Questionado pela CNN Portugal sobre esta situação, o presidente do STTM adiantou que os maquinistas são pressionados pelas chefias através de "processos disciplinares por não cumprirem ordens superiores".

"Querem obrigar os maquinistas a andar com comboios sem condições de segurança", denunciou, lembrando que, antigamente, "a segurança era uma palavra crucial nos cursos de formação" dos maquinistas. "Hoje em dia já não é assim", lamentou.

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Além do desinvestimento na segurança, Silva Marques revelou ainda que a empresa não aposta na formação dos trabalhadores, que são, no total, 250 maquinistas: "Não temos um número de maquinistas suficiente para programar uma formação", explicou. 

"Alertámos a empresa para isto, e acreditamos que estejam com dificuldades por parte da tutela ou seja de quem for que não disponibilize os meios para termos mais maquinistas", acrescentou o dirigente sindical.

A segunda fase do estudo irá decorrer ao longo dos meses de janeiro, fevereiro e março do próximo ano e será dedicada à realização de entrevistas diretas a grupos de trabalhadores com o objetivo de aprofundar as conclusões que foram retiradas desta primeira parte do estudo, que foi mais dedicada à recolha e análise de dados. "Há dúvidas que ficam no ar e eles vão contar a sua história de vida", revelou Henrique Silveira de Oliveira.

Empresa diz não ter evidências de "exaustão extrema dos seus maquinistas"

Questionado pela CNN Portugal sobre as conclusões do referido estudo e posteriores declarações do STTM, o Metropolitano de Lisboa disse desconhecer "completamente o estudo em causa, quer no que concerne a sua metodologia, conteúdo e conclusões, o qual foi efetuado e apresentado por iniciativa unilateral de um sindicato".

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A empresa adiantou ainda não ter "quaisquer evidências de exaustão extrema dos seus maquinistas", e "repudia a existência de quaisquer práticas de assédio moral".

"Informamos que no ano de 1998 tínhamos um total de 308 maquinistas. A sua redução até ao número atual (250) deve-se essencialmente à adoção de medidas de organização do trabalho e de modelos de operação mais eficientes, nomeadamente com novas ferramentas de planeamento e por exemplo a passagem de composições de 3 para 6 carruagens (entre outras)", refere ainda a empresa.

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