“Assassina dos cogumelos” condenada a três penas de prisão perpétua por matar convidados de almoço 

CNN , Hilary Whiteman
8 set 2025, 10:30

Mulher utilizou cogumelos venenosos para matar os pais, a tia e o tio do ex-marido

A mulher australiana acusada de ter matado três convidados de almoço com os cogumelos mais venenosos do mundo foi, esta segunda-feira, condenada a três penas de prisão perpétua, com um período mínimo de 33 anos antes de poder requerer liberdade condicional. O caso, digno de um drama criminal real, captou a atenção do país e deu origem a vários podcasts e documentários. 

Erin Patterson, de 50 anos, foi considerada culpada em julho pelo homicídio de três pessoas – incluindo os pais, a tia e o tio do seu ex-marido, Simon Patterson – após ter servido um prato de bife wellington deliberadamente envenenado com cogumelos colhidos nas imediações da sua casa rural, no estado de Vitória, em 2023. 

As penas de prisão perpétua vão ser cumpridas em simultâneo com uma sentença de 25 anos por tentativa de homicídio do único sobrevivente, o pastor Ian Wilkinson, cuja mulher há 44 anos, Heather, morreu no hospital dias após o almoço. 

Os pais de Simon, Don e Gail Patterson, também acabaram por morrer após sofrerem uma grave intoxicação gastrointestinal, que evoluiu para falência múltipla de órgãos. 

A sessão foi transmitida em direto a partir do Supremo Tribunal de Melbourne, o que refletiu o intenso interesse público num caso que colocou Patterson, a sua família e a pequena localidade de Leongatha sob os holofotes da atenção internacional. 

Equipas de jornalistas disputavam espaço à entrada do tribunal, enquanto o juiz Christopher Beale se sentava perante uma câmara na sala 4 para proferir a sentença. 

Erin Patterson escoltada até ao tribunal antes da sua sentença no Supremo Tribunal de Victoria, a 8 de setembro de 2025, em Melbourne, Austrália. (Asanka Ratnayake/Getty Images)

O juiz Beale afirmou que os crimes de Patterson exigiram uma “premeditação substancial” e que esta levou a cabo um “encobrimento elaborado” ao aperceber-se de que as suas mentiras iniciais não seriam sustentáveis. 

“Estou convencido de que, a 16 de julho de 2023, quando convidou de forma invulgar Simon, os seus pais, e os tios para um almoço sem as crianças, sob o pretexto de discutir uma questão médica inexistente, fê-lo com a intenção de os matar a todos”, declarou o juiz. 

A acusação pediu prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional, mas o juiz afirmou ter tido em conta a notoriedade de Patterson e a forte probabilidade de que venha a passar muitos anos em regime de isolamento, para sua própria proteção face a outros reclusos. 

Ainda assim, considerou que os crimes de Patterson constituíram uma “enorme traição de confiança” e causaram um “sofrimento incalculável” aos seus próprios filhos, que ficaram sem os avós. 

“O impacto devastador dos seus crimes não se limita às vítimas diretas – os seus atos causaram sofrimento a muitas pessoas”, afirmou Beale. 

Ian Wilkinson, o único convidado que sobreviveu ao almoço com cogumelos venenosos com a assassina australiana Erin Patterson, fala em frente ao Supremo Tribunal de Victoria, em Melbourne, a 8 de setembro de 2025. (Martin Keep/AFP/Getty Images)

Homicídio com cogumelos venenosos 

Patterson estava separada do marido, mas mantinha contacto com os seus pais, Don e Gail. Conhecia os tios, Ian e Heather Wilkinson, há vários anos e via-os com alguma regularidade em cultos da igreja local. 

Convidou os cinco membros da família para almoçar em sua casa, em Leongatha, no dia 31 de julho de 2023. Não apresentou qualquer motivo específico para o convite - afirmou em tribunal que pretendia melhorar a relação com os sogros. 

Contudo, Simon desmarcou-se na véspera, alegando não se sentir confortável, pelo que apenas os pais e os tios compareceram ao almoço de sábado. 

Após o julgamento, revelou-se que Simon acreditava que a mulher já teria tentado envenená-lo várias vezes nos dois anos anteriores, e que desconfiava das suas intenções. Três acusações de tentativa de homicídio relacionadas com esses episódios foram arquivadas antes do julgamento principal. 

Durante o julgamento, com duração de 10 semanas, o júri ouviu que Patterson tinha descoberto a localização dos cogumelos death cap através de um site de ciência cidadã. O Ministério Público referiu que ela comprou um desidratador para os secar e que o descartou num centro de reciclagem de resíduos enquanto os convidados estavam internados em estado crítico. 

Patterson disse à polícia que tinha comprado os cogumelos num supermercado e numa mercearia asiática, levando as autoridades sanitárias a uma investigação infrutífera para rastrear a origem dos fungos. Mentiu também sobre ter estado doente após o almoço e alegou, falsamente, ter dado restos da refeição aos filhos - segundo foi ouvido em tribunal. 

A acusação apresentou a arguida, mãe de dois filhos, como uma pessoa instável, que mentiu repetidamente às autoridades e resistiu aos esforços dos profissionais de saúde para garantir cuidados médicos a si e aos seus filhos. 

Apesar de não terem apresentado uma motivação clara, os procuradores sugeriram que Patterson mostrava “duas faces” ao mundo - uma pública, que aparentava manter boas relações com a família Patterson, e outra privada, revelada em mensagens a amigos no Facebook, carregadas de frustração com os comportamentos e crenças da família. 

Numa mensagem de dezembro de 2022, Patterson escreveu: 

“Estou farta disto. Não quero ter mais nada a ver com eles.” 

Noutra mensagem dizia: 

“Esta família... juro por Deus!” 

Simon Patterson deixa o Tribunal de Primeira Instância de Latrobe Valley, onde Erin Patterson compareceu ao seu julgamento em Morwell, a 2 de maio de 2025. (Martin Keep/AFP/Getty Images)

Atenção mundial centrada numa pequena vila 

O julgamento de Patterson atraiu a atenção mundial para a pequena vila de Morwell, no estado de Vitória, próxima da cena do crime — a sala de jantar de Patterson, em Leongatha. 

Os advogados de defesa alegaram que ela teria adicionado os cogumelos silvestres à refeição por acidente e que só se apercebeu do erro quando os convidados já se encontravam em estado grave no hospital. 

Após seis dias de deliberações, um júri composto por 12 elementos declarou Patterson culpada, apesar das suas insistentes declarações de inocência durante o extenso interrogatório em tribunal. 

Na Austrália, os jurados permanecem anónimos mesmo após o fim do julgamento e estão legalmente proibidos de revelar o conteúdo das deliberações. Assim, nunca se saberá o que levou todos os 12 jurados a chegar a um veredito unânime. 

À saída do tribunal, esta segunda-feira, o sobrevivente Ian Wilkinson agradeceu à polícia pela investigação “profissional, eficiente e eficaz”. 

O pastor da Igreja Baptista de Korumburra agradeceu também aos procuradores, aos profissionais de saúde e aos membros da comunidade que apoiaram a sua família durante o luto. Pediu ainda privacidade e apelou a que “todos sejam bondosos uns com os outros”. 

Wilkinson não se referiu diretamente à mulher que matou três dos seus familiares mais próximos, mas, durante uma audiência prévia, a 25 de agosto, ofereceu-lhe o seu perdão. 

“Já não sou uma vítima de Erin Patterson - ela tornou-se vítima da minha bondade”, afirmou. 

Patterson tem até à meia-noite de 6 de outubro para interpor recurso da sentença ou da condenação. 

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