O pai chegou a ser suspeito, por ter casado seis meses depois da morte da mulher, mas um teste de ADN acabou por excluí-lo. Mas Marla não desistiu e a oportunidade de desvendar o crime acabou por surgir
(Na foto acima: Barbara Waldman em Long Island em 1974, o ano em que foi assassinada. Cortesi a Marla Waldman)
Marla Waldman Conn estava de férias em família, a relaxar junto a uma piscina em Lake of the Ozarks, no Missouri, quando recebeu uma chamada de um detetive de Nova Iorque. Afastou-se para ter privacidade, atendeu o telefone e ouviu as palavras que esperava há décadas: “Temos uma correspondência.” Marla caiu de joelhos.
A notícia referia-se ao caso de homicídio da mãe de Marla, Barbara Waldman, assassinada na sua casa em Long Island, Nova Iorque, a 11 de janeiro de 1974. Cinquenta anos depois, a polícia tinha feito corresponder o ADN recolhido na cena do crime a um homem que tinha vivido no bairro de Oceanside, onde Waldman morava, na mesma altura.
O homicídio de Waldman permaneceu durante décadas como um caso arquivado, mas os filhos recusaram aceitar não saber o que tinha acontecido. Procuraram respostas incansavelmente e, finalmente, encontraram-nas.
"Não falávamos sobre isso"
Marla e os dois irmãos, Larry e Eric, tinham apenas 7, 6 e 5 anos quando a mãe morreu, aos 31 anos.
Foi Eric, o filho mais novo, quem encontrou o corpo da mãe na casa de família depois de sair do autocarro escolar, após um dia no jardim de infância. Diz que a última memória que tem da mãe é dela deitada no chão do andar de cima, com o roupão coberto de rosas, as mãos amarradas atrás das costas e uma fronha enfiada na boca. A unidade de homicídios da polícia de Nassau concluiu que Waldman tinha sido baleada na cabeça.
“Tenho essa imagem na cabeça desde que a encontrei quando tinha 5 anos, e vou tê-la até morrer”, diz Eric.
Vizinhos viram uma pessoa a caminhar perto da casa no dia do homicídio e a polícia fez um retrato-robô de um homem com um casaco com capuz forrado a pelo. Mas o retrato não foi suficiente. Não foi possível identificar um suspeito e o caso ficou por resolver, juntando-se às centenas de milhares de crimes violentos que nunca foram esclarecidos.
Depois da morte da mãe, os filhos Waldman tentaram viver vidas normais. O pai, o dentista local Gerry Waldman, voltou a casar seis meses depois e as crianças aceitaram a nova mulher como madrasta.
“Foi difícil crescer. Não falávamos sobre isso”, conta Eric. “As fotografias desapareceram das paredes — uma, duas, três fotografias da minha mãe na casa, por isso não havia nada dela.”
Mas, à medida que cresceram, os filhos começaram a pensar cada vez mais na mãe e no que lhe tinha acontecido.
“Acho que nos desligámos emocionalmente e basicamente guardámos o segredo e fingimos”, assume Marla. “Até que engravidei e foi aí que comecei realmente a questionar o meu pai: ‘Pai, isto não está certo, quero saber sobre a minha mãe’.”
"Não vou deixar isto ficar assim"
Havia também divisões familiares e rumores em torno do pai, o que contribuiu para esse silêncio. Alguns vizinhos e familiares especulavam que ele poderia estar envolvido na morte da mulher e o facto de ter voltado a casar tão rapidamente “não parecia bem”, aponta Eric. Mas em 2004, à medida que as técnicas de análise de ADN evoluíam, a polícia diz que ele forneceu uma amostra genética aos detetives. Foi nessa altura, disseram os filhos, que o pai foi excluído como suspeito. Morreu alguns anos depois, sem nunca saber quem tinha sido responsável pela morte da mulher.
Marla disse que ficou “um pouco obcecada” com o caso da mãe depois disso. Começou a ver programas de crimes reais e a ligar todos os anos para o Departamento de Polícia de Nassau para saber do caso, que, segundo os agentes, não podia ser reaberto sem novas provas.
Naquilo que pensou poder ser uma grande pista, Marla recorda que familiares “bombardearam o telefone” com chamadas em dezembro de 2022 quando o assassino em série Richard Cottingham admitiu ter matado cinco mulheres em Long Island no final dos anos 1960 e início dos anos 1970 — o mesmo período e local do assassínio da sua mãe. Ela e o irmão contactaram detetives e o procurador distrital. Foi o suficiente para reabrir o caso da mãe e obter um perfil completo de ADN a partir das provas recolhidas na cena do crime.
“Fiquei extremamente feliz — nem consigo explicar, foi como euforia”, descreve Marla. “Na minha cabeça, fosse o Cottingham ou não, tínhamos um perfil completo da pessoa que matou a minha mãe. Depois de ver todos aqueles programas, pensei: vou descobrir quem foi, aconteça o que acontecer.”
O ADN acabou por não corresponder ao de Cottingham. Sem desistir, Marla pressionou a polícia de Nassau para envolver o FBI e ter acesso a técnicas de ADN mais avançadas. “Não vou deixar isto ficar assim”, recorda Marla ter dito. “Isso não vai acontecer.”
O FBI acabou por aceitar o caso e tentou identificar o suspeito através de genealogia genética forense.
“Sabia que iam encontrar a pessoa. Não sabia quem seria, e era um pouco assustador, porque nessa altura podia ser qualquer pessoa. Podia ser um vizinho; podia ser um familiar”, lembra Marla.
Um ano e meio depois de o caso ter sido reaberto Marla recebeu a chamada que mudou a sua vida. A polícia tinha encontrado uma correspondência de ADN.
As autoridades identificaram a pessoa como Thomas Generazio, que tinha vivido no bairro de Oceanside na altura da morte de Waldman. Não era mencionado no processo original de 1974, mas já tinha sido detido anteriormente por agressão e posse de correspondência roubada, disse a polícia. Generazio morreu de cancro em 2004, aos 57 anos.
Mas a ligação por ADN, por si só, não era suficiente para encerrar o caso, disseram as autoridades a Marla. “O ADN por si só nem sempre constitui causa provável”, diz a polícia de Nassau à CNN. “Por vezes é necessária investigação adicional.”
"Fiquei obcecada com ele"
Sem desistir, Marla aprofundou a investigação. Numa tentativa de ligar o ADN ao homem do retrato-robô, começou a investigar onde Generazio tinha vivido e trabalhado na sua cidade natal, consultando registos locais, contactando familiares — à procura de qualquer coisa que pudesse ajudar os detetives a confirmar que tinha sido ele a matar a sua mãe. Preencheu um grande quadro branco com nomes, datas, locais e notas de inúmeras conversas.
“Fiquei obcecada com ele”, confessa Marla. “Liguei a pessoas do anuário da escola. … Quem eram os amigos dele? E mergulhei mesmo em perceber quem era este tipo.”
Ao longo de vários meses, Marla falou com vários filhos de Generazio — alguns dos quais, acrescenta, nunca tinham conhecido o pai. Só quando Marla entrou em contacto com uma das filhas de Generazio é que a investigação avançou. Falaram ao telefone e trocaram mensagens durante dias.
A filha de Generazio acabou por enviar a Marla várias fotografias do pai, incluindo uma em que ele aparece com um casaco com gola forrada a pelo muito semelhante ao representado no retrato-robô da polícia de 1974. Essa fotografia tornou-se uma peça-chave de prova que ligava Generazio à pessoa vista a afastar-se da cena do crime, conta Marla.
A filha de Generazio, que falou com a CNN sob anonimato por questões de privacidade, disse que não acreditava que a fotografia provasse que o pai correspondia à pessoa do retrato-robô e não conseguia imaginar que ele tivesse matado alguém.
No final, a polícia disse que foi “a totalidade das provas derivadas do ADN, genealogia genética forense, entrevistas e fotografias” que deu à família algum encerramento. Este mês, mais de 52 anos após o homicídio de Waldman, o departamento de polícia de Nassau anunciou que tinha identificado Generazio como responsável pelo homicídio de Barbara Waldman. Caso encerrado.
“Poder dizê-lo ao mundo”, afirma Marla, “foi muito gratificante”. “Nunca vou ter a minha mãe de volta. Isso é um dado adquirido, certo? Ela não vai voltar. Reabriu memórias muito difíceis e dolorosas, mas algumas dessas memórias eram muito boas e devo guardá-las.”
Para Eric, fechar o caso não trouxe um encerramento total — mas foi um passo em direção à verdade e à justiça para a mãe e para o pai.
“Não traz a minha mãe de volta. Continuo triste e gostava que ela estivesse aqui. Mas estou feliz porque já não temos de nos perguntar quem foi.”
Depois de anos a trabalhar no caso como se fosse “um emprego a tempo inteiro”, Marla diz que se sente mais próxima do que nunca da mãe.
“Sinto-me bem com isso”, confessa Marla. “Sei quem ela era. … Era uma pessoa linda, uma mãe maravilhosa e uma amiga.”
Eric e Marla dizem que esperam que o sucesso na resolução do caso da mãe possa inspirar outras famílias que esperam há anos para saber o que aconteceu aos seus familiares.
“Há uma resposta para todos os homicídios”, defende Marla. “Alguém sabe alguma coisa. Acredito mesmo nisso.”
Ela incentiva outros a persistirem.
“Espero mesmo que haja outras pessoas que se sintam inspiradas por esta história, porque, sinceramente, se não fores persistente e não tiveres coragem, isso não vai acontecer. É preciso encontrar força, ter esperança e acreditar.”