Peça histórica foi comprada para uma rainha do Egito, mas mudou de mãos depois de uma quezília familiar
Ladrões sem máscara partiram uma vitrina de vidro com um martelo antes de roubar um colar cravejado de diamantes avaliado em 3,5 milhões de euros durante um ousado assalto à luz do dia num museu em Viena, Áustria, na passada quinta-feira.
A polícia austríaca informou que está à procura dos dois homens, que se fizeram passar por visitantes de uma exposição de joias no Museu de Artes Aplicadas (MAK), onde estava exposto o colar de platina — com 673 diamantes, onze dos quais pertencentes à realeza egípcia.
A polícia divulgou fotografias dos dois suspeitos, que foram apanhados pelas câmaras de segurança antes de entrarem na exposição. Acredita-se que a dupla tenha fugido a pé em direção a um parque próximo. A polícia informou que ninguém ficou ferido durante o incidente, embora um dos suspeitos estivesse armado.
Em comunicado, a polícia acrescentou que estão em curso “extensas operações de busca”, incluindo com o uso de cães-pisteiros. A Interpol informou que as autoridades austríacas adicionaram a obra de arte à sua base de dados de obras roubadas.
O colar estava emprestado pela Van Cleef & Arpels, a joalharia francesa que o desenhou para a rainha Nazli do Egito na década de 1930. Fazia parte de uma exposição que reunia peças do acervo do museu com mais de 300 criações da maison.
A exposição encerrou brevemente na quinta-feira, antes de, segundo informações, reabrir ainda no mesmo dia. Já na sexta-feira, um painel azul tinha sido instalado para cobrir a montra danificada.
Composto por diamantes com um peso total superior a 200 quilates, o colar desaparecido apresenta uma pedra central de seis quilates rodeada por fileiras de diamantes em lapidação baguete e centenas de gemas menores dispostas num motivo de raio de sol. Foi encomendado juntamente com uma tiara a condizer pela rainha Nazli, esposa do rei Fuad I do Egito, para o casamento da sua filha Fawzia em 1939.
Em 1950, Nazli e outra das suas filhas, Fathia, foram despojadas dos seus títulos reais pelo seu filho (e sucessor do rei Fuad), Farouk I, devido à sua oposição ao casamento de Fathia com um diplomata cristão copta e plebeu. A rainha viveu o resto da sua vida nos EUA, onde, no meio de dívidas crescentes, vendeu o colar e a tiara na década de 1970.
O colar reapareceu num leilão da Sotheby's em 2015, quando foi vendido por quase quatro milhões de euros. O catálogo do leilão descreveu a sua construção como "verdadeiramente magistral", referindo que a distribuição dos diamantes o tornava "surpreendentemente confortável de usar".
Numa publicação no Facebook, a bisneta da rainha Nazli, Fawzia Farouk, expressou a sua "profunda tristeza" pelo roubo, descrevendo o colar como uma "parte insubstituível da história da nossa família e do património cultural do Egito". Depois acrescentou: "É um testemunho precioso de uma era de elegância, arte e visão, cuja importância vai muito para além dos interesses pessoais."
Num comunicado partilhado com vários órgãos de comunicação social, a CEO do MAK, Lilli Hollein, afirmou que o roubo “atingiu-nos duramente”. A responsável acrescentou: “Considerando especialmente os incidentes em grandes museus nos últimos anos, aproveitamos a oportunidade para rever minuciosamente as nossas medidas de segurança no museu como um todo”.
A imprensa local noticiou que foram instalados detetores de metais na exposição, que se mantém patente até 27 de setembro.
Este é o mais recente de uma série de assaltos relâmpago a museus por toda a Europa. Em outubro passado, num crime apelidado de “roubo do século”, os ladrões arrombaram uma janela do Museu do Louvre, em Paris, antes de fugirem com um acervo de artefactos de valor inestimável da era napoleónica. No início desse ano, ladrões usaram explosivos para entrar num museu na Holanda, onde roubaram quatro objetos antigos, incluindo um capacete de ouro com aproximadamente 2.500 anos, emprestado pela Roménia.
Na passada quinta-feira, num museu arqueológico em Alicante, Espanha — o mesmo dia do roubo em Viena — ladrões levaram dezenas de artefactos de ouro e prata da Idade do Bronze de uma coleção conhecida como Tesouro de Villena. Segundo o jornal espanhol El País, os assaltantes concluíram o assalto, realizado ao início da manhã, em menos de quatro minutos.
A Europol, a agência de segurança da União Europeia, afirma que os assaltos a museus no continente estão a tornar-se cada vez mais agressivos. Num relatório publicado na semana passada, a agência observou um “aumento preocupante de táticas violentas e agressivas”, com os ladrões a visarem artefactos feitos de materiais de alto valor, como metais preciosos e pedras preciosas.
A Europol sugeriu ainda que “novos criminosos” e “oportunistas de outros setores do crime” são atraídos pelos assaltos a museus por serem crimes de “baixo risco e alto lucro”.
