O que são as "árvores explosivas"? Este fenómeno de inverno pode não ser o que pensa

CNN , Jacqueline Howard
15 fev, 12:00
Uma mulher tira fotos de árvores cobertas de neve e geada num dia de inverno com temperaturas abaixo de zero na Baviera, em fevereiro de 2026. (Imagem: Sean Gallup/Getty Images)

Uma vaga de frio intenso nos EUA trouxe de volta os alertas para as chamadas “árvores explosivas”, um fenómeno de inverno que pode assustar pelo ruído, mas que, segundo especialistas, não envolve explosões reais e é causado pela rápida congelação da água no interior dos troncos

John Seiler caminhava pelo campus da Universidade Virginia Tech com os seus alunos, na manhã de uma quinta-feira, quando algo os fez parar: uma cerejeira-doce com uma cicatriz irregular e profunda ao longo do tronco.

Professor e especialista em fisiologia das árvores na universidade, percebeu imediatamente que a marca era o resultado daquilo a que nas redes sociais se chama uma “explosão de árvore”.

A árvore “tinha-se aberto com o frio”, explica à CNN internacional. 

Enquanto mais de metade dos Estados Unidos se prepara para uma forte tempestade de inverno, alguns meteorologistas nas redes sociais estão a alertar para a possibilidade destas chamadas “árvores explosivas”.

Mas embora a neve intensa, o gelo e o frio extremo possam, de facto, causar estragos nas árvores, John Seiler diz que há um ponto importante a esclarecer: elas não estão realmente a explodir, pelo menos não da forma como a expressão sugere.

O que algumas pessoas chamam “explosões de árvores”, os cientistas chamam “fendas de gelo” (frost cracks), explica John Seiler.

O fenómeno ocorre quando as temperaturas descem de forma súbita ou quando as árvores não têm tempo para se adaptar ao frio, fazendo com que a seiva ou a água no interior comece a congelar.

“Essa água expande-se quando congela, e isso costuma acontecer em quedas de temperatura muito, muito drásticas”, diz Doug Aubrey, professor da Warnell School of Forestry and Natural Resources da Universidade da Geórgia.

Essa expansão exerce uma pressão intensa sobre a casca e a madeira, o que por vezes provoca fendas ou rachas, produzindo um estrondo forte que pode soar como uma explosão.

Cicatrizes numa cerejeira causadas por repetidas fissuras de geada. (Imagem: John R. Seiler)
As fissuras ocorrem quando as árvores não têm tempo para se adaptar ao frio. (Imagem: John R. Seiler)

“É mais um som parecido com um tiro, um estalido muito alto”, diz John Seiler. “Sabe quando, às vezes, está com pressa de beber uma Coca-Cola bem fria, mete a lata no congelador e se esquece dela, e a lata acaba por rebentar? É isso que acontece com a árvore.”

Segundo a National Forest Foundation, existem “numerosas observações históricas e atuais” de árvores que se abrem devido ao frio extremo.

John Seiler afirma que este tipo de ocorrência não é, necessariamente, perigosa para quem passa nas proximidades nem para a própria árvore.

“Vai fazer barulho, mas não é perigoso. A madeira não sai a voar”, diz. “E, para a árvore, quando se abre assim, isso não a vai matar. Mas como a casca fica aberta, pode acabar por morrer se insetos entrarem, ou se surgirem infeções como fungos ou bactérias". 

Além disso, explica Doug Aubrey, “se a base do tronco congelar, então toda a árvore pode morrer, mas isso também depende da espécie, já que muitas árvores conseguem rebentar de novo a partir de gomos subterrâneos. Se o congelamento ocorrer num ramo, então talvez tudo nesse ramo morra, mas a árvore sobreviverá”.

Durante a tempestade, há um risco acrescido de ramos pesados caírem das árvores devido ao peso do gelo ou da neve, alerta Doug Aubrey. Um ramo pesado pode danificar uma casa, um veículo ou até ferir uma pessoa.

“O tamanho da árvore influencia o tipo de impacto que pode ocorrer”, diz. 

“Os pinheiros-de-folha-longa, que têm agulhas mais compridas, têm maior probabilidade de acumular mais gelo do que um pinheiro-loblolly ou outras espécies com agulhas mais curtas”, explica. “No que toca à quebra de ramos, árvores grandes e mais isoladas tendem a ter ramos maiores e mais área foliar, em comparação com florestas densas, onde as árvores estão mais próximas umas das outras.”

John Seiler concorda que as pessoas devem estar mais preocupadas com a acumulação intensa de gelo nas árvores, que pode provocar a queda de ramos ou o colapso do topo das árvores.

“Se houver uma acumulação pesada de gelo e de neve molhada, não quer que um ramo lhe caia em cima da cabeça”, afirma. “Isso é extremamente, extremamente perigoso.”

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