Artur Jorge em entrevista ao Maisfutebol - Parte II
Depois de uma vida inteira ligada ao Sp. Braga, Artur Jorge abraçou uma proposta do Botafogo e cruzou o Atlântico.
Para trás, ficou um legado em que se destaca a conquista da Taça da Liga, dois terceiros lugares no campeonato, presença na Champions, recordes de pontos e golos marcados.
Ainda assim, a saída causou desagrado público do presidente do Sp. Braga, António Salvador, que inclusivamente não deu os parabéns a Artur Jorge pelos recentes títulos de campeão brasileiro e sul-americano.
«Ninguém poderá apagar a sua história no Sp. Braga», sublinha este bracarense e braguista, que como treinador e jogador percorreu diversos escalões do clube, tendo feito 240 jogos pela equipa principal e envergado a braçadeira de capitão desde os 23 anos.
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MAISFUTEBOL - Como é que John Textor o convenceu a ir para o Brasil?
ARTUR JORGE - Foi muito fácil. Tivemos uma conversa pessoal. Ele veio a Portugal propositadamente para jantar comigo.
O tal jantar em Matosinhos?
Sim, em que, curiosamente, falámos pouco de futebol. Estivemos umas três, quatro horas a conversar, mas não sobre chavões relacionados com táticas, modelos de jogo ou jogadores. Seria demasiado redutor. Falámos sobre as nossas vidas pessoais, sobre temas que estavam na altura a acontecer pelo mundo fora. Foi uma boa forma de nos conhecermos, de perceber que tipo de relação podíamos ter para, depois, aí sim, abraçar um projeto desportivo de sucesso. Foi tudo muito fácil. A partir dessa conversa, tomei uma decisão imediata e disse: «O meu futuro passa pelo Botafogo e já.»
Esse jantar desagradou ao presidente do Sp. Braga.
Por vezes, há quem tenha dificuldade em olhar para dentro. Eu era treinador do Sp. Braga e soube que havia conversas com outros treinadores, até já para questionar sobre alguns jogadores [reforços]. Isto acontece no futebol. A minha decisão estava tomada e era sair para o Botafogo. Logo após ter vencido um título no Sp. Braga, disse que poderia ser ali o momento em que fechássemos ali um ciclo. Não há timings perfeitos. Não concluir a temporada em Portugal, abria a possibilidade de começar a temporada no Brasil.
Sentiu-se desobrigado a avisar desse jantar com Textor a partir do momento em que o próprio António Salvador comentou publicamente a possibilidade de ter outro treinador na época seguinte?
O presidente do Sp. Braga quis fazer uma manobra de diversão. Tudo para que a verdade não fosse toda contada. O treinador que veio para me substituir [Daniel Sousa] estava já contratado ou pelo menos apalavrado. Foi uma forma de minimizar o meu trabalho. Isto faz parte do futebol, mas é o lado de que menos gosto. O presidente falou muitas vezes com outros treinadores, umas para poder sondar, outras para falar sobre jogadores. O importante é estarmos seguros do que fazemos e do que somos. Tive um jantar com Textor, falámos e o futuro acabou por ser decidido no imediato, face à vontade de ambas as partes.
Ao invés de o Sp. Braga o ter indemnizado, por quebrar o contrato que tinha até ao final de 2025, acabou por garantir um encaixe para o clube. É nesse sentido que considera ter havido uma manobra de diversão por parte de Salvador?
Eu fui comprado. O Botafogo pagou por mim. Dei um título ao Sp. Braga, conseguimos dois terceiros lugares no campeonato, a presença na Liga dos Campeões e ainda rendi dinheiro. Fui um ativo altamente rentabilizado pelo clube.
Também por isso, dada a sua história no clube, como jogador e como treinador, lamenta que o presidente do Sp. Braga não lhe ter dado os parabéns pela conquista da Libertadores e do Brasileirão?
Não lamento nada. Ninguém tem de fazer aquilo que não quer fazer. O Sp. Braga é a minha casa. Estou no Sp. Braga desde os 12 anos, passei lá mais de metade da minha vida. A minha gratidão é muito maior do que qualquer lamento. Sou eternamente grato ao Sp. Braga, pelas oportunidades que me deu. Isso nunca será apagado. Da mesma forma, não será apagado o meu nome, que está na história do Sp. Braga.
