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Artur Jorge: «Tenho a minha cara tatuada no corpo de algumas pessoas»

31 dez 2024, 09:25
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Artur Jorge em entrevista ao Maisfutebol - Parte IV

A despedida ainda não é certa, mas Artur Jorge leva no coração a paixão dos adeptos do Botafogo e aquela final histórica da Libertadores.

Nesta parte da entrevista, o técnico português explica a conquista inédita do Botafogo no Monumental de Nuñez, em Buenos Aires, há um mês. E como a equipa reduzida a dez no primeiro minuto de jogo acabou por vencer o Atlético Mineiro por 3-1 e sagrar-se campeã da América do Sul.

Do «silêncio de morte» ao «vulcão de emoções».

Uma final épica, «para constar dos livros de história». O jogo da sua vida, confessa, para mais tarde ver com os netos.

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MAISFUTEBOL - Destaca muito a relação que teve com os adeptos nesta temporada no Brasil. Foi esse o aspeto que o marcou mais?

ARTUR JORGE - Hoje sou treinador, já fui jogador, mas sempre fui e serei um adepto de futebol. Ser adepto é paixão, viver de forma intensa. Não conheço sítio onde a paixão pelo futebol seja vivida de forma mais bonita do que no Brasil. Cada jogo é uma festa, antes, durante e depois.

Houve algum episódio que o marcasse mais?

Tenho a minha cara tatuada no corpo de algumas pessoas. Por exemplo, uma imagem minha com a taça durante um passeio na enseada de Botafogo, após a conquista da Libertadores. Tivemos um percurso de 800 metros em que o autocarro não andava, estava bloqueado por um corredor humano impressionante. Numa das cidades onde fomos jogar, houve um adepto que chamou por mim e estava a empunhar uma foto dos meus pais…

Estranhou, não?

Claro. Depois percebi. Esse adepto tinha vindo a Braga e, como estava com a camisola do Botafogo, foram até os meus pais a abordarem-no. Há inúmeras histórias de paixão dessa torcida, que era muito sofrida e estava muito carente de títulos.

Sentia-se o fantasma do título brasileiro perdido no ano passado quando parecia praticamente ganho?

Eles dizem «Há coisas que só acontecem ao Botafogo». Mas nós também dizíamos em jeito de slogan para este ano: «Das cinzas renascer para vencer!»

Libertadores ou Brasileirão? Se pudesse escolher só um título, com qual ficava?

Libertadores, por aquilo que é a dimensão internacional. O Brasileirão exige muita consistência da jornada 1 à 38. Passa-se por muitos altos e baixos. Felizmente, tivemos consistência e uma capacidade mental forte. Estivemos mais de metade do campeonato em primeiro lugar. Por outro lado, a Libertadores era uma competição quase inatingível há um ano para nós, equipa técnica, e para o clube. Foi o primeiro título continental do Botafogo.

E não começou bem.

Tivemos dificuldades na fase de grupos, deram-nos quase como afastados. Depois, nas eliminatórias, passámos três históricos: Palmeiras, São Paulo e Peñarol. Fomos capazes de nos superar e terminámos com aquela final épica frente ao Atlético Mineiro, onde desde o minuto 1 jogámos com menos um jogador e muitos pensaram que tínhamos deitado tudo a perder.

O coletivo aí foi determinante…

É o melhor exemplo da essência dessa equipa. É um jogo que vai ficar na história do futebol. O que é ser uma equipa: está ali tudo! A jogar com menos um, vencemos 3-1. Não foi fazer um golo num remate à baliza. Os meus netos vão ouvir falar nesse jogo daqui por uns anos.

Foi fundamental resistir à tentação de não mexer na equipa, após a expulsão?

O primeiro pensamento é: «Tanto trabalho e agora tudo parece mais distante». Conseguimos controlar as emoções, o impulso para ajustar a equipa no imediato. Era uma final, tínhamos de ganhar. Não podia sujeitar a minha equipa a levar pancada próximo da sua grande área durante 90 ou 120 minutos.

Qual foi a estratégia?

Pensámos no que tínhamos de fazer para ganhar a final. Para isso, não podíamos abdicar dos nossos quatro jogadores da frente: o Savarino, o Thiago Almada, o Luiz Henrique e o Igor Jesus fazem a diferença e podiam decidir o jogo a qualquer momento. Se lhes pudéssemos pôr algum comprometimento defensivo, teríamos a equipa equilibrada. E isso funcionou. Naquele momento não pensámos: «Vamos defender e ver o que isto dá para o fim.» Pensámos em ganhar.

Artur Jorge e a sua equipa técnica com os troféus do Brasileirão e da Libertadores

Essa serenidade também foi determinante passar para a equipa e para os adeptos?

Durante alguns minutos, eu e os meus auxiliares discutimos ali o que fazer e dissemos: «Nós vamos lutar para ganhar isto. Vamos manter a equipa como está, para chegarmos à baliza adversária e não ficarmos só a defender a nossa.» A equipa conseguiu estabilizar-se em 10, 15 minutos e dar sinais de segurança. É a partir daí que do lado de fora vem aquilo que nós precisávamos: toda aquela energia, a crença… O vulcão despertou outra vez e não mais parou até ao fim.

Revelou que as frases que mais ouviu de adeptos foi: «Vocês não têm noção do que acabaram de fazer.» Já tem mais noção do vosso feito?

Sem dúvida! Lembro-me dos nossos 50 mil adeptos na Argentina, muitos deles fizeram um sacrifício enorme para lá estar. Também por brio, por uma questão de ego, porque não era suposto levarmos tanta gente. Diziam que a final não ia ter tanta energia em termos de torcida, mas nós fizemos a nossa parte. Já falei isto com a minha família, que estava lá: naqueles minutos após a expulsão, fez-se quase um silêncio de morte no nosso setor. A grande euforia antes do início do jogo, para nós, durou um minuto. É como eles dizem: «Há coisas que só acontecem ao Botafogo…»

Daqui por uns anos, quando tiver de mostrar o jogo da sua vida aos seus netos, provavelmente vai mostrar essa final, não?

É o jogo da minha vida, sem dúvida nenhuma. Eles vão ver este jogo que me deixou muitas marcas, que fica na memória daqueles que são apaixonados pelo futebol – um jogo para constar dos livros de história. Então, eles vão perceber como o avô foi reconhecido como cidadão honorário do Rio de Janeiro.

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