Não, não é a Gronelândia. Os movimentos de Rússia e China à volta deste arquipélago estão fazer soar os alarmes

CNN , Laura Paddison
19 jul, 22:00
O assentamento russo de Barentsburg, Svalbard, abril de 2026 (Julian Quinones, CNN)
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Há uma disputa explosiva a desenrolar-se ainda mais perto da Europa e os dois maiores inimigos do Ocidente já lá estão. Bem-vindos a Svalbard

Durante mais de duas décadas, um par de imponentes leões de granito ladeou a entrada de um edifício vermelho-ferrugem no coração do Círculo Polar Ártico. Isso acabou. No mês passado, desapareceram, e a sua ausência revela uma história sobre a geopolítica cada vez mais tensa no topo do mundo.

Os leões desaparecidos guardavam outrora uma estação de investigação operada pela China no povoado de Ny-Ålesund, em Svalbard, um arquipélago situado entre a Noruega continental e o Pólo Norte. Em maio, foram removidos pela empresa estatal norueguesa que gere o colonato; em junho, a mesma entidade retirou uma placa do edifício que indicava “Estação do Rio Amarelo”.

A ação da Noruega está a ser vista por alguns especialistas como parte das tentativas de reforçar a sua soberania sobre esta porção do Ártico face às profundas alterações geopolíticas e climáticas.

Embora a Gronelândia domine as preocupações com o Ártico, com o presidente dos Estados Unidos a tentar reivindicá-la repetidamente para o seu país, alegando a necessidade de contrabalançar a crescente influência de Pequim e Moscovo, outra disputa potencialmente explosiva está a desenrolar-se em Svalbard - onde a China e a Rússia já têm presença.

E alguns temem que o mundo não esteja a dar a devida atenção.

Svalbard é um arquipélago único. Tem apenas cerca de três mil habitantes, mas não tem população nativa e as mulheres não podem dar à luz ali. Alberga a cidade permanentemente habitada mais setentrional do mundo, Longyearbyen, e é o local que aquece mais rapidamente no planeta, com um ritmo de aquecimento seis a sete vezes superior à média global.

Um tratado centenário concede à Noruega plena soberania, mas também permite que pessoas de quase 50 países signatários, incluindo a China e a Rússia, vivam e trabalhem em Svalbard sem visto.

Nas últimas décadas, tornou-se o principal centro mundial de ciência ártica e um raro exemplo de cooperação internacional. "Pessoas de todo o mundo, com enormes diferenças culturais... reúnem-se para colaborar", refere Hedda Andersen, glaciologista que trabalha na Estação de Investigação de Ny-Ålesund.

Mas esta harmonia está a deteriorar-se à medida que a configuração única de Svalbard entra em conflito com as relações internacionais cada vez mais fragmentadas e com a procura dos países por influência no Ártico, que está a aquecer rapidamente. “Estamos a ver o contexto geopolítico mais amplo a infiltrar-se no território de uma forma que não acontecia nas décadas anteriores”, explica Otto Svendsen, investigador associado do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

A geografia de Svalbard é um dos principais atrativos do arquipélago. O seu oceano oferece ricas áreas de pesca e minerais essenciais no fundo do mar. A sua localização é privilegiada para o controlo e a transferência de dados de satélites em órbita polar, utilizados para ciência, previsão meteorológica e Defesa.

Além disso, o arquipélago encontra-se próximo da Península de Kola, na Rússia, uma das regiões militares mais importantes do país em termos estratégicos, onde se encontra grande parte do seu arsenal nuclear marítimo.

O acesso ao arquipélago é fácil. Os voos regulares a partir da Noruega continental permitem que as pessoas cheguem ao Alto Ártico em questão de horas. Dezenas de países mantêm a sua presença em Svalbard, incluindo a Rússia, a China, o Reino Unido, a Itália, o Japão e a Polónia. As suas estações de investigação representam uma porta de entrada para a influência no Ártico, "quase como uma moeda geopolítica", exemplifica Serafima Andreeva, investigadora associada do Instituto Ártico, um centro de estudos.

Durante décadas, o lema na região foi “Alto Norte; baixa tensão”, lembra Eivind Vad Petersson, secretário de Estado do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Noruega, mas “esta já não é uma descrição precisa da realidade”.

A invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia em 2022 abalou profundamente a ideia de que o Ártico era imune às turbulências geopolíticas e evidenciou a dissonância de a Rússia ter um colonato em território da NATO.

Barentsburg, um posto avançado de mineração e investigação em Svalbard, é habitado quase na totalidade por russos e é vigiado por um enorme busto de Vladimir Lenine.

A lua cheia nasce atrás de uma estátua de Lenine no posto avançado de investigação de Barentsburg, em Svalbard, Noruega (Daniel Cole/AP)
A lua cheia nasce atrás de uma estátua de Lenine no posto avançado de investigação de Barentsburg, em Svalbard, Noruega (Daniel Cole/AP)

As ações russas em Svalbard acirraram ainda mais as tensões. Em 2023, a Rússia realizou um desfile militar em Barentsburg, com direito a um comboio de camiões e motos de neve ostentando bandeiras russas e um helicóptero a baixa altitude, pelo qual foi multada pela autoridade de aviação norueguesa.

No ano passado, o parlamentar russo Sergey Mironov sugeriu que Svalbard fosse renomeada como Ilhas Pomor, em referência a um grupo de caçadores e exploradores russos presentes no arquipélago há séculos.

A Rússia também tem utilizado o mesmo tipo de discurso que emprega para justificar as suas ações na Ucrânia, argumentando que precisa de proteger os falantes de russo em Svalbard, lembra Svendsen, do CSIS. E tem acusado repetidamente a Noruega de tentar militarizar as ilhas.

Nikolay Korchunov, embaixador da Rússia na Noruega, afirma que a Noruega "confunde os limites" da estipulação do Tratado de Svalbard que proíbe a utilização das ilhas para "fins bélicos". A Rússia nunca pôs em causa a soberania da Noruega, garante Korchunov, mas está, em vez disso, a "tentar esclarecer" como exerce essa soberania.

O assentamento russo de Barentsburg, Svalbard, abril de 2026 (Julian Quinones, CNN)

O secretário de Estado da Noruega, Petersson, rejeita as alegações de militarização, afirmando à CNN que o Tratado de Svalbard impede o estabelecimento de uma base da NATO nas ilhas ou a sua utilização para fins bélicos, mas que esta é "muito mais restrita e algo muito diferente de ser uma zona desmilitarizada".

"Svalbard faz parte da Noruega; Svalbard faz parte da NATO; Svalbard faz parte dos planos noruegueses de Defesa", reitera.

Poucos acreditam que a Rússia esteja a planear uma ação militar direta. O país já possui quase tudo o que deseja em Svalbard e está sobrecarregado na Ucrânia, aponta Andreas Østhagen, investigador sénior do Instituto Fridtjof Nansen, em Oslo.

Em vez disso, a Rússia parece querer usar Svalbard como um local "para mostrar que não se deixará intimidar pela Noruega, ou pela NATO em geral", afirma o especialista.

O povoado de investigação de Ny-Ålesund em Svalbard (Julian Quinones, CNN)
O povoado de investigação de Ny-Ålesund em Svalbard (Julian Quinones, CNN)

Mas não são apenas as ações da Rússia em Svalbard que têm gerado preocupação. Há também a China.

Ao contrário da Rússia, a China não é uma potência ártica, mas tem ambições. No seu documento de estratégia para o Ártico de 2018, o país asiático auto-intitulou-se um “Estado quase ártico” e referiu-se repetidamente a Svalbard. Pequim tem também planos para uma “rota da seda polar”, um corredor de infraestruturas e transporte marítimo que atravessaria o topo do mundo.

Em 2024, enquanto a China comemorava o 20.º aniversário da sua estação de investigação de Ny-Ålesund, uma empresa de turismo chinesa levou mais de 100 turistas a Svalbard. Alguns agitavam bandeiras; um deles vestia uma roupa camuflada com o que parecia ser um emblema militar chinês.

O acontecimento gerou alarme na Noruega, onde crescem as preocupações sobre o que a China pretende em Svalbard. Houve “alertas do serviço de segurança da polícia e do serviço de informações militares sobre as intenções chinesas”, lembra Østhagen.

Um porta-voz da embaixada da China na Noruega afirma que o país participa nos assuntos do Ártico "de acordo com o direito internacional" e que as suas intenções na região são "salvaguardar os interesses comuns de todos os países".

Os turistas tiram fotografias em frente às placas de sinalização localizadas no aeroporto de Longyearbyen, no arquipélago norueguês de Svalbard (Oriane Laromiguière/AFP/Getty Images)
Os turistas tiram fotografias em frente às placas de sinalização localizadas no aeroporto de Longyearbyen, no arquipélago norueguês de Svalbard (Oriane Laromiguière/AFP/Getty Images)

Há um outro fator importante nas tensões latentes: as alterações climáticas provocadas pela ação humana.

No verão de 2024, Svalbard bateu todos os recordes anteriores de degelo, perdendo mais de 60 gigatoneladas de gelo, cerca de 1% do seu total, enquanto as temperaturas subiam 4 graus Celsius acima da média. Quatro dos últimos cinco anos estabeleceram novos recordes de perda de gelo.

As alterações climáticas são, "em muitos aspetos, o que está a impulsionar grande parte do interesse geral pelo Ártico", justifica Østhagen. Existe uma narrativa de que o degelo abrirá oportunidades económicas e estratégicas.

A realidade é mais complexa; há décadas que se prevê um fluxo de navios pelo Oceano Ártico e uma corrida ao petróleo, gás e minerais sob as suas águas gélidas - mas isso ainda não aconteceu. A região continua inóspita e hostil.

Svalbard é o local que está a aquecer mais rapidamente no planeta e os seus glaciares estão a recuar drasticamente (Evelio Contreras)
Svalbard é o local que está a aquecer mais rapidamente no planeta e os seus glaciares estão a recuar drasticamente (Evelio Contreras)

Se o degelo acabar ou não por abrir a região, “não importa”, acrescenta Torbjørn Pedersen, professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Nord. O “medo de ficar de fora” está a impulsionar os países a estarem presentes no Ártico e a exercerem influência política, reforça.

E, ao fazê-lo, a Noruega parece estar a reforçar o seu controlo sobre Svalbard.

Em 2022, o governo alterou as regras de votação para impedir os estrangeiros de votar nas eleições de Longyearbyen, a menos que tivessem residido na Noruega continental durante três anos. “Isto fazia parte do esclarecimento necessário; Svalbard não é uma zona internacional”, sublinha o secretário de Estado Petersson.

A Noruega também deixou clara a sua ambição de explorar uma vasta extensão do leito marinho ártico em redor de Svalbard e mais além, em busca de minerais críticos. O plano foi contestado pela Rússia - “gostaríamos de lembrar mais uma vez ao lado norueguês que não exerce soberania incondicional” sobre Svalbard, disseram as autoridades russas num comunicado em 2023.

Em seguida, veio a remoção dos leões chineses, juntamente com outros símbolos nacionais, de edifícios de outros países em Ny-Ålesund. "Não há nenhuma estação de investigação chinesa em Svalbard", recorda Petersson. "Há uma estação de investigação norueguesa com inquilinos chineses", afirma. "Essa é uma distinção importante".

Para já, a Noruega está confiante de que conseguirá "manter um certo nível de estabilidade nesta região", garante Petersson.

Mas o mundo está a mudar rapidamente. À medida que Trump repete as suas afirmações de que os EUA devem ser proprietários da Gronelândia, a aliança da NATO sofre uma pressão crescente e os países procuram cada vez mais posicionar-se como potências fortes no Ártico numa região em rápida transformação, o futuro parece cada vez menos certo.

Os países podem começar a pensar que "o que importa agora é o poder e a capacidade para o exercer", diz Østhagen, "e não necessariamente as normas e leis que estabelecemos ao longo do último século".

Julian Quinones, da CNN, contribuiu para esta reportagem

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