Os cientistas estão preocupados com o que isto significará para a época de degelo da primavera e do verão. Os últimos 19 anos registaram os níveis de gelo marinho mais baixos de sempre
(Na foto acima: o gelo marinho do Ártico atingiu este ano um mínimo recorde no inverno. Michael Runkel/imageBROKER/Alamy/File)
Neste momento, o Ártico está no seu máximo de gelo marinho — o frio do inverno acumulou-se ao longo de meses de escuridão e o gelo espalhou-se tão a sul quanto consegue em todo o ano. É o máximo anual de gelo marinho do Polo Norte, exceto que este ano está alarmantemente baixo.
Falta cerca de 1,3 milhões de quilómetros quadrados de gelo neste “máximo” em comparação com a média — uma área duas vezes maior do que o Texas.
É o mais recente sinal profundamente preocupante vindo do topo do planeta, uma região que se tornou uma vítima evidente da crise climática à medida que os humanos queimam combustíveis fósseis, e cada vez mais um ponto crítico geopolítico à medida que o gelo a derreter abre oportunidades comerciais e militares.
O inverno é quando o gelo do Ártico se acumula, atingindo normalmente a sua extensão máxima em março. Este ano, quando cientistas da NASA e do National Snow and Ice Data Center (NSIDC) o mediram a 15 de março, descobriram que o gelo tinha atingido 14,3 milhões de quilómetros quadrados — cerca de 9% abaixo da média entre 1981 e 2010.
O valor ficou ligeiramente abaixo do máximo recorde do ano passado, de cerca de 14,3 milhões de quilómetros quadrados, mas suficientemente próximo para ser tecnicamente um empate, sendo o pico mais baixo observado desde que os registos por satélite começaram em 1979.
“Um ou dois anos com valores baixos não significam necessariamente muito por si só”, diz Walt Meier, cientista de gelo do NSIDC, mas quando analisados no contexto de uma trajetória descendente ao longo de várias décadas “reforçam a mudança dramática no gelo marinho do Ártico ao longo de todas as estações”.
Os cientistas estão preocupados com o que isto significará para a época de degelo da primavera e do verão. Os últimos 19 anos registaram os níveis de gelo marinho mais baixos de sempre.
O Ártico ficará sem gelo no verão em algum momento até 2050, mesmo que os humanos deixem de emitir poluição, segundo um estudo de 2023.
O desaparecimento do gelo marinho tem impactos globais. O gelo funciona como um espelho gigante, refletindo a luz solar para longe da Terra e de volta para o espaço. À medida que diminui, mais energia do sol é absorvida pelo oceano escuro, o que acelera o aquecimento global.
Este novo recorde não é uma surpresa, uma vez que o gelo marinho do Ártico esteve perto de mínimos recorde durante todo o inverno, afirma Jennifer Francis, cientista sénior do Woodwell Climate Research Center. Mas é mais um sinal de alarme.
“Tal como quando a pressão arterial de uma pessoa está descontrolada e indica um problema de saúde, a perda contínua de gelo marinho é mais um sintoma que indica que o clima da Terra está em grandes dificuldades”, defende.
A causa não é nenhum mistério, acrescenta. “A acumulação contínua de gases que retêm o calor na atmosfera, provenientes da queima de combustíveis fósseis, está a aquecer os oceanos, a aquecer o ar, a derreter o gelo e a agravar fenómenos meteorológicos extremos em todo o mundo.”