Há muito que o Ártico enche os humanos de admiração, mas há agora sinais profundamente preocupantes vindos da paisagem gelada no topo do nosso planeta, e os cientistas estão profundamente preocupados com o seu futuro, numa altura em que a administração Trump retira os EUA da estratégia climática global e destrói as suas agências científicas.
O mês passado foi extremo: as temperaturas em partes do Ártico subiram 20 graus Celsius acima do normal. No final do mês, o gelo marinho atingiu o nível mais baixo alguma vez registado em fevereiro, marcando o terceiro mês consecutivo de mínimos históricos.
Esta situação segue-se a um ano de sinais preocupantes na região, incluindo incêndios florestais intensos e o degelo do permafrost, que liberta poluição que aquece o planeta.
O cenário é sombrio para uma região que tem estado em rápido declínio nas últimas duas décadas, à medida que os seres humanos continuam a queimar combustíveis fósseis. O Ártico encontra-se agora num “novo regime”, em que sinais como a perda de gelo marinho e as temperaturas do oceano nem sempre batem recordes, mas são consistentemente mais extremos em comparação com o passado, afirmou a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA, na sigla original) no seu exame anual da saúde da região, publicado em dezembro.
Trata-se de um problema com consequências globais. O Ártico desempenha um papel vital nas temperaturas globais e nos sistemas meteorológicos. É “uma espécie de si]stema de ar condicionado planetário”, compara Twila Moon, cientista principal adjunta do National Snow and Ice Data Center (NSIDC) [Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo, na tradução livre. O seu declínio acelera o aquecimento global, aumenta a subida do nível do mar e ajuda a provocar condições meteorológicas mais extremas.
O Ártico é o sistema de alerta precoce para as alterações climáticas e a perda de gelo marinho é um sinal claro de que está em apuros, dizem os cientistas. Nesta altura do ano, o Ártico deveria estar a atingir os seus níveis máximos anuais de gelo, mas, em vez disso, está a registar mínimos históricos.
“Espero que estes três meses não sejam um precursor de um potencial novo mínimo histórico no próximo verão, porque o ponto de partida para a época de degelo não é bom”, receia Mika Rantanen, investigador do Instituto Meteorológico Finlandês.
O gelo marinho do Ártico atinge o seu ponto mais baixo no final do verão, em setembro. Nos últimos 18 anos, atingiram-se os níveis mais baixos de gelo marinho de que há registo, uma espiral descendente que, segundo os cientistas, vai continuar.
O Ártico deixará de ter gelo no verão em 2050, mesmo que os seres humanos deixem de emitir poluição climática, de acordo com um estudo realizado por Dirk Notz, responsável pelo gelo marinho na Universidade de Hamburgo, na Alemanha. “Basicamente, é demasiado tarde para o evitar”, afirma à CNN.
O primeiro dia sem gelo poderá mesmo ocorrer antes do final desta década, de acordo com outro estudo publicado em dezembro.
A perda de gelo marinho não prejudica apenas a vida selvagem, as plantas e os cerca de quatro milhões de pessoas que vivem no Ártico - tem consequências globais. O gelo marinho funciona como um espelho gigante, refletindo a luz solar para longe da Terra e de volta para o espaço. À medida que diminui, mais energia solar é absorvida pelo oceano escuro, o que acelera o aquecimento global.
Parte da razão para a recente série de recordes de gelo marinho é o calor invulgar no Ártico, que tem estado a aquecer cerca de quatro vezes mais depressa do que a média global.
O calor extremo do início de fevereiro “foi um dos mais fortes alguma vez registados”, indica Rantanen, que calcula que se situa provavelmente entre os três primeiros eventos de aquecimento mais intensos na era dos satélites desde a década de 1970.
A paisagem do Ártico também está a mudar, observa Twila Moon, do NSIDC.
Segundo Twila Moon, o degelo do permafrost - um amontoado de solo, rochas e sedimentos mantidos juntos pelo gelo - é generalizado, libertando dióxido de carbono e metano, que aquecem o planeta.
Os incêndios florestais tornaram-se mais frequentes e intensos e as épocas de incêndios florestais são mais longas. O ano passado foi a terceira vez em cinco anos que incêndios significativos e generalizados assolaram o Ártico.
Estas mudanças estão a alterar profundamente o ecossistema. Durante milhares de anos, a paisagem arbustiva da tundra do Ártico armazenou carbono, mas os incêndios florestais e o degelo do permafrost significam que esta região está agora a libertar mais carbono do que armazena, segundo a NOAA.
“Neste momento, está a ocorrer uma quantidade avassaladora de mudanças no Ártico”, avisa Moon.
O que acontece no Ártico tem repercussões em todo o planeta.
Um Ártico mais quente significa que o gelo terrestre - glaciares e camadas de gelo - derrete mais rapidamente, contribuindo para a subida do nível do mar. O manto de gelo da Gronelândia já derrama cerca de 280 mil milhões de toneladas de gelo por ano, o suficiente para cobrir toda a ilha de Manhattan com uma camada de gelo com cerca de três quilómetros de espessura.
O rápido aquecimento na região também enfraquece a corrente de jato, alterando os sistemas meteorológicos que afetam milhares de milhões de pessoas, aponta Jennifer Francis, cientista sénior do Centro de Investigação Climática Woodwell. Uma corrente de jato mais sinuosa “faz com que as condições meteorológicas se prolonguem por mais tempo, levando a ondas de calor mais persistentes, períodos de frio, secas e períodos de tempestade”, explica à CNN.
Os cientistas afirmam que algumas destas alterações podem ser invertidas se os seres humanos deixarem de bombear gases que aquecem o planeta, mas em escalas de tempo que variam entre centenas de anos e muitos milhares. Muitas destas alterações são consideradas “relativamente irreversíveis”, diz Moon.
Há também outra ameaça. A capacidade dos cientistas para acompanharem as rápidas mudanças no Ártico está a ser posta em causa pela agitação geopolítica.
A guerra da Rússia contra a Ucrânia fez com que os cientistas do país, a maior nação do Ártico, fossem excluídos da colaboração internacional. De acordo com um estudo recente, este facto já prejudicou a capacidade dos cientistas para acompanharem o que está a acontecer no Ártico.
Nos EUA, os cortes radicais da administração Trump nos postos de trabalho governamentais na área da ciência climática estão a criar sérias preocupações, especialmente porque muitos sistemas de medição são mantidos pelos EUA. Com menos conhecimentos e menos cientistas norte-americanos, “será muito, muito mais difícil compreender o que está a acontecer” numa altura vital para o Ártico, alerta Notz, da Universidade de Hamburgo.
O que se está a passar no Ártico é uma das indicações mais claras de “quão poderosos nós, humanos, nos tornámos para mudar a face do nosso planeta”, diz Notz. “Somos capazes de destruir paisagens inteiras.”