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Há anos que ele não via a sua paixão do liceu. Depois, viajou para outro país para a visitar

CNN , Francesca Street
31 jan 2025, 18:29
Arthur e Jenny (CNN)
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Três anos depois de Arthur “Chip” Gaudio Jr. se ter encontrado pela última vez com a sua amiga Jenny Teresia Sundberg, decidiu visitá-la na Suécia.

“Era a primeira vez que nos víamos desde 1992”, recorda Arthur à CNN Travel.

Nos anos que se seguiram, Arthur e Jenny enviaram longas cartas para o outro lado do Atlântico e falaram ocasionalmente através de chamadas telefónicas de longa distância (“aniversários, principalmente”).

Mas nunca tinham passado tempo juntos pessoalmente. E, entretanto, tinham passado de alunos do liceu a estudantes universitários de 20 e poucos anos. E se já não se dessem bem pessoalmente? E se fosse muito estranho? E se a viagem semi-espontânea do Artur fosse um grande erro?

Mas assim que Arthur voltou a ver Jenny, “o nervosismo desapareceu”. “Foi como nos velhos tempos”, diz Arthur. “Parecia muito natural, como se a nossa amizade tivesse sido retomada no ponto onde a tínhamos deixado.”

A paixoneta do liceu

O americano Arthur e a sueca Jenny conheceram-se no verão de 1992, quando ela fez um ano de intercâmbio na escola secundária dele em Laramie, Wyoming.

Para Jenny, a perspetiva de frequentar um liceu nos Estados Unidos era um sonho tornado realidade - imaginava que seria “tal e qual como na televisão”. Na altura, Jenny, de 17 anos, era obcecada por séries de liceu americanas, quase sempre ambientadas em Los Angeles. Antes da viagem, imaginou festas nas praias da Califórnia, centros comerciais ao ar livre e sol.

Foi então que descobriu o seu destino.

No início, Jenny não sabia muito bem onde ficava o Wyoming. Não parecia glamoroso e certamente não aparecia nos seus programas de televisão favoritos. Mas depois de ter ultrapassado a desilusão inicial de “não ser a Califórnia”, Jenny abraçou o estilo de vida de Laramie. Graças ao clima frio e à altitude elevada, poderia, por exemplo. esquiar regularmente na neve.

“Também gostei muito do facto de me sentir nos 'EUA reais’”, diz Jenny à CNN Travel.

Jenny estava quase a terminar o seu ano em Laramie quando conheceu Arthur. Frequentavam o mesmo liceu, pelo que, teoricamente, devem ter-se cruzado em algum momento, mas não faziam ideia da existência um do outro.

Então, com apenas dois meses restantes nos Estados Unidos, Jenny foi numa viagem de estudo de uma semana a Washington, DC, juntamente com sete alunos da escola. Do grupo, quatro, incluindo Jenny, eram estudantes de intercâmbio, sendo os outros da Espanha, Noruega e México. A completar o grupo estavam quatro alunos de Wyoming, incluindo Arthur “Chip” Gaudio Jr.

Hoje, Arthur descreve a sua adolescência como “o tipo nerd da classe”. Passava muito tempo a estudar e geralmente começava o dia a ler o jornal para se atualizar sobre os acontecimentos mundiais. A primeira conversa de Arthur e Jenny aconteceu no primeiro dia da viagem. Arthur tinha acabado de terminar de ler o jornal e Jenny pediu-lho emprestado.

Todos na viagem usavam um crachá, então Jenny, que não sabia o nome de Arthur, olhou para o crachá e chamou-o assim. “Na verdade, ninguém me chama Arthur, chamam-me Chip”, explicou. “Tenho o mesmo nome do meu pai, então assim é mais fácil.” Jenny levantou uma sobrancelha. "Lembro-me de pensar, 'tanto faz'", conta ela hoje, rindo. Jenny só queria o jornal e não estava especialmente interessada na história de vida daquele rapaz - pelo menos não ao início.

Mas nos dias seguintes, em Washington, Jenny e Arthur aproximaram-se. Na verdade, todo o grupo se uniu. "Foi divertido sair com todos os outros miúdos na viagem", diz Jenny. "Visitámos todos os lugares que seria esperado", acrescenta Arthur. "O Capitólio, o Museu Smithsonian, os memoriais de Lincoln e Jefferson, o Cemitério Nacional de Arlington e o Memorial do Vietname."

Jenny e Arthur acabavam muitas vezes  a andar lado a lado, rindo e conversando. "Eu estava apaixonado pela Jenny praticamente desde o início, embora ambos soubéssemos que não havia realmente um relacionamento", diz Arthur. Num determinado momento, quando estavam em frente ao Supremo Tribunal, Arthur pegou numa flor e ofereceu-a a Jenny. "Ela colocou-a no seu blusão de ganga e usou-a durante o resto do dia", conta ele. “Tenho quase certeza de que não deveria ter colhido aquela flor…”

Arthur e Jenny conheceram-se numa viagem de estudo a Washington em 1992. Aqui foram fotografados por uma colega de turma em frente ao Supremo Tribunal. Olhando com atenção é possível ver a flor de Jenny no seu blusão de ganga. (Foto: Maria José Cruz Gómez/DR)

No voo de regresso ao Wyoming, Arthur pediu a um dos outros alunos que trocasse de lugar para poder sentar-se ao lado de Jenny. Conversaram durante grande parte da viagem.

“Depois, nos últimos dois meses da Jenny, passámos muito tempo juntos”, conta Arthur. “Tornámo-nos amigos muito próximos… Íamos a todo o lado, às vezes só os dois, às vezes juntamente com todos os nossos amigos. Simplesmente achei que era uma pessoa simpática e adorável.”

Jenny - que tinha passado um ano a tentar manter o contacto com os familiares através dos escassos meios disponíveis no início da década de 1990 - não queria entrar em nada romântico com alguém que vivesse noutro país. Mas deixou a América à espera que Arthur se tornasse um amigo por correspondência, mesmo que não fosse claro quando ou mesmo se se poderiam voltar a ver. “Gostei muito dele”, diz Jenny. “Éramos definitivamente amigos.”

“Pareceu natural que quiséssemos escrever um ao outro depois de ela se ir embora, e assim manter a nossa amizade”, concorda Arthur. E embora não tivesse planos - nem meios - para visitar a Suécia aos 17 anos e vivesse no meio da América, isso não impediu Arthur de sonhar acordado. “A Jenny até me enviou um enorme mapa da Suécia que coloquei na parede do meu quarto, e lembro-me claramente de ter olhado e pensado onde gostaria de ir.”

De amigos por correspondência aos encontros cara-a-cara

No voo de regresso ao Wyoming, após essa viagem de 1992, Arthur trocou de lugar com um amigo para poder sentar-se ao lado de Jenny. (Foto: Maria José Cruz Gómez/DR)

Nos anos seguintes, Jenny e Arthur trocaram cartas e postais regularmente. “Receber uma carta foi sempre muito divertido”, recorda Arthur. “Especialmente a viver em Wyoming. É o estado mais rural do país, por isso é um lugar muito pequeno, e receber uma carta da Suécia era uma coisa importante. Foi muito giro.”

“Foi divertido ter um amigo por correspondência”, concorda Jenny. Quando Jenny e Arthur terminaram o liceu e foram para a faculdade - Jenny para a Universidade de Estocolmo, Arthur para a Universidade de Wyoming - continuaram a escrever cartas, partilhando experiências e pormenores sobre as suas vidas. Ambos escreviam sobre “coisas do dia-a-dia, coisas que aconteciam na escola, livros, o que queríamos fazer nas nossas vidas".

"Eu estava apaixonado pela Jenny praticamente desde o início, embora ambos soubéssemos que não havia realmente um relacionamento"

Arthur Gaudio

Com o passar dos anos, Jenny e Arthur continuaram a pensar um no outro com ternura. Mas quaisquer pretensões de romance eram sempre descartadas por causa da distância entre eles. “Se ele estivesse na Suécia, talvez eu tivesse outras ideias”, diz Jenny. “Mas como estávamos tão distantes um do outro, era divertido, mas não via realmente como poderia acontecer.”

“O tempo de entrega de uma carta era de duas semanas, na melhor das hipóteses”, lembra Arthur. “As chamadas eram ridiculamente caras. Por isso, acho que nenhum de nós realmente pensou que isto iria dar alguma coisa.” Nas suas cartas, Arthur e Jenny contavam quase tudo - exceto os encontros que tiveram com outras pessoas. De alguma forma, partilhar isto sempre lhes pareceu um pouco estranho. Mesmo que não fossem um casal - e nada de romântico tivesse realmente acontecido entre eles, para além de Arthur ter presenteado Jenny com a flor à porta do Supremo Tribunal.

Corta para 1995. Arthur, que estava a meio do seu curso universitário no Wyoming, teve a oportunidade de estudar no estrangeiro, em Londres. Viver em Londres era algo que sempre quis fazer. E havia um bónus adicional numa passagem pelo Reino Unido - ele estaria um pouco mais próximo de Jenny.

Assim, durante uma pausa de uma semana em fevereiro de 1995, Arthur embarcou num voo para Estocolmo. Tinha ligado a Jenny algumas semanas antes para lhe sugerir a ideia, e ela parecia entusiasmada. “Estava animada e ansiosa para vê-lo”, diz Jenny hoje. Apesar do nervosismo de Arthur, o reencontro foi surpreendentemente fácil. Ele e Jenny voltaram à vida um do outro como se o tempo não tivesse passado. Também gostaram de conhecer a personalidade universitária um do outro - mais independentes e mais autoconfiantes.

“Foi divertido”, diz Jenny. “Também é bom, em vez de escrever cartas e esperar uma eternidade por uma resposta, ter discussões e conversas reais.”

“A Jenny mostrou-me todos os locais de Estocolmo e fomos aos cafés e ao cinema”, conta Arthur. “Descobrimos muito cedo que ambos adorávamos ir ao cinema e também tínhamos gostos semelhantes.”

Arthur ficou com a família de Jenny - no quarto do irmão, uma vez que este estava na faculdade. “Conheci os pais de Jenny, e ela também me apresentou a alguns dos seus amigos mais próximos”, conta. No final da semana, Arthur e Jenny despediram-se, na esperança de se voltarem a encontrar. Ao despedirem-se com um abraço, cada um deles questionou-se, pela primeira vez, se aquela ligação profunda poderia ser a base para algo mais. “Quer dizer, ainda parecia impossível, mas também sabia que ela era mais do que apenas uma amiga”, conta Arthur.

Arthur e Jenny mantiveram contacto através de cartas e telefonemas ocasionais durante vários anos (Foto: Cortesia Arthur Gaudio/DR)

Alguns meses depois, no verão de 1995, Arthur estava de volta ao Wyoming e Jenny, que estava a viajar pelos Estados Unidos com a família, fez uma paragem para visitá-lo. “Tornava-se ainda mais claro para mim que a Jenny era a pessoa certa”, diz Arthur. Achava que Jenny sentia o mesmo, mas não tinha a certeza.

Até que, alguns meses depois, Arthur decidiu ligar a Jenny, do nada, para lhe dizer o que sentia. “Acho que vi mal os horários”, conta. “Eram, tipo, cinco da manhã na Suécia.” Mas apesar de Jenny atender o telefone com os olhos estremunhados e meio adormecida, ficou encantada ao ouvir Arthur. “A partir desse momentos, éramos um 'nós'”, é como diz Arthur. “Ficou claro que éramos os dois”, concorda Jenny. “Tínhamos a ligação e tudo, mas simplesmente não parecia possível até decidirmos que era possível", conta Arthur. "E uma vez que decidimos que era possível, tornou-se isto.”

No verão de 1996, Arthur visitou novamente a Suécia. Desta vez, ficou durante todas as férias da faculdade, cerca de seis ou sete semanas. Durante esta visita, Arthur e Jenny conversaram sobre os próximos passos para tornar a vida em comum uma realidade. Em primeiro lugar, Jenny organizou um semestre no estrangeiro, na Universidade de Wyoming, na primavera de 1997. Depois, o casal decidiu que quando Arthur se formasse, no final desse ano, se mudaria para a Suécia. Embora Jenny também estivesse aberta a viver nos Estados Unidos, estava a estudar Direito e era menos óbvio como as suas qualificações seriam transferidas. Entretanto, Arthur formou-se em Inglês e conseguiu um emprego como professor de Inglês na Suécia. A sua mudança fazia mais sentido.

Neste momento, estavam muito entusiasmados por finalmente ficarem juntos, fosse de que forma que fosse. “Estávamos em mundos separados”, diz Arthur. “E, a dada altura, decidimos: ‘Vamos tentar isto’”.

"Uma boa equipa"

Arthur rapidamente se adaptou à vida em Estocolmo, conheceu o círculo social de Jenny e fez amigos. Viver juntos - de forma permanente  foi fácil, diz Jenny. Não houve problemas. Nunca discutiram de verdade. “Parecia perfeito”, diz ela. Arthur e Jenny ficaram noivos em 1997, mas não se casaram imediatamente. Queriam esperar até serem um pouco mais velhos, com empregos e finanças um pouco mais estáveis.

“Estávamos em mundos separados. E, a dada altura, decidimos: ‘Vamos tentar isto’."

Arthur Gaudio

Em 2001, o casal começou a planear um pequeno e íntimo casamento numa igreja do século XII no bairro de Bromma, em Estocolmo. Mas antes, Jenny e Arthur depararam-se com uma situação inesperada e preocupante. “Fiquei muito doente quando tinha 26 anos, antes do nosso casamento”, explica Jenny. Esteve hospitalizada durante vários meses e foi submetida a uma grande cirurgia. “Foi uma época muito difícil”, recorda Arthur. “Não tanto pela nossa relação, mas apenas por não sabermos como a doença afetaria a Jenny e pela incerteza sobre como seriam as nossas vidas no futuro, enquanto ela continuasse a lidar com a doença.” “O Chip acabou por ser a minha rocha”, diz Jenny, que ainda trata o companheiro pelo apelido de adolescente. “Se eu tivesse algumas dúvidas sobre casar com ele -  que não tive - elas teriam desaparecido nessa altura.”

Arthur e Jenny casaram-se na Suécia em 2001. O pai de Arthur tirou esta fotografia e brindou ao encontro casual no seu discurso de casamento. (Foto: Artur Gaudio Sr./DR)

Após a cirurgia e um período de recuperação, Jenny ficou bem. Arthur afirma que saíram da experiência agradecidos por “vivermos num país com um sistema de saúde de primeira linha”. Também tiveram ainda mais certeza de que “formamos uma boa equipa, especialmente quando as coisas se tornam difíceis”.

Arthur e Jenny casaram-se no verão de 2001, e ela adotou o nome dele, tornando-se Jenny Teresia Gaudio. “Foi o melhor dia da minha vida”, diz Artur. “Foi muito íntimo, pois celebrámos com as pessoas que eram mais importantes para nós.” Durante a recepção, o pai de Arthur tirou algumas das fotografias favoritas do casal e fez um discurso memorável, comentando a improbabilidade de Arthur e Jenny se conhecerem, muito menos manterem a amizade de liceu e transformá-la numa relação forte e duradoura. “Ele sublinhou: ‘Uau, que encontro casual’”, recorda Arthur.

"Gratidão e orgulho"

Hoje, Arthur e Jenny são pais de dois filhos e ainda vivem na Suécia. Aqui estão eles, numas férias recentes em Miami, na Florida (Foto: Artur Gaudio/DR)

Hoje, Arthur e Jenny ainda vivem em Estocolmo, na Suécia. Têm dois filhos, de 17 e 20 anos, que têm as suas próprias aventuras. Para Arthur e Jenny, é surreal pensar que o filho tem a idade que eles tinham quando se conheceram - e a filha tem a idade que eles tinham quando se reuniram.

Continuam amigos de alguns dos outros alunos que também estiveram na viagem a Washington em 1992 e gostam de rever as fotos antigas. Mais de três décadas depois, Jenny e Arthur pensam que os seus 'eus adolescentes' ficariam surpreendidos, mas felizes, com a forma como a história acabou. Jenny ri-se da ideia de dizer a si própria, aos 17 anos, que, afinal, teve sorte em ir para o Wyoming, em vez da Califórnia. “Se tivesse ido para a Califórnia, nunca nos teríamos conhecido”, diz Jenny. “Acabou tudo bem. Nós crescemos juntos. Acho que é muito giro, namorados do secundário."

"Acho que é muito giro, namorados do secundário."

Jenny Gaudio

Encontraram-se, nessa altura, por causa de interesses comuns. E embora tenham crescido e mudado ao longo dos anos, ainda gostam de passar o tempo de forma semelhante. “Gostamos dos mesmos livros, dos mesmos filmes”, diz Arthur. “Então divertimo-nos juntos. Gostamos da companhia um do outro.”

Arthur sugere que os anos de amizade anteriores ao namoro também constituíram uma excelente base para uma vida em comum. Quando o casal passou pelos momentos mais difíceis da vida – como a doença de Jenny aos 20 anos e o mais recente falecimento dos pais de Arthur – lidaram com eles juntos. “Cuidamos um do outro e como somos os melhores amigos e um casal há tanto tempo, somos bons a antecipar o apoio que o outro precisa em qualquer situação”, explica Arthur.

Recordando as três décadas que passaram juntos, Arthur diz que o seu principal sentimento é “gratidão”. “Quer dizer, é apenas um encontro casual, podia facilmente não ter acontecido, e estou muito feliz por ter acontecido. Acho que não poderia descrever melhor do que isto”, diz. Mas também está grato e orgulhoso pelo trabalho que ele e Jenny fizeram para tornar o seu sonho realidade. “Quando decidimos mutuamente, algures lá no final de 1995, que iríamos fazer isto funcionar, tornou-se claro que teríamos sucesso”, afirma. “Por isso, estou grato e orgulhoso de nós por termos tido a coragem de tomar esta decisão juntos.”

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