“Faraós Superstars.” Do preservativo à arte: cinco mil anos depois, eles vivem

26 nov 2022, 10:00
Faraós Superstars, no Museu Gulbenkian

Tudo começou com um preservativo da marca Ramsés e uma pergunta: por que razão alguns faraós sobreviveram até aos dias de hoje? É sobre isto a nova exposição no Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa

Howard Carter e uma pequena comitiva abriram a 26 de novembro de 1922 a porta que deixou à vista o tesouro de ouro e pedras preciosas do túmulo de Tutankhamon. Por que razão perdurou no tempo a imagem de um faraó que viveu mais de 1300 anos antes de Cristo, teve uma vida curta (18 anos) e um reinado ainda mais breve (um ano)? Por que razão, dos 314 faraós da história do antigo Egito, apenas alguns permanecem ‘vivos’? 

“Nos anos 20, a imprensa e a fotografia têm um papel extraordinário na divulgação das imagens do túmulo de Tutankamon descobertas em 1922 por Howard Carter. A imagem é exclusiva do 'Times' mas difunde-se por todo o mundo”, diz João Carvalho Dias, cocomissário da exposição “Faraós Superstars”, que pode ser vista até 6 de março na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. 

Na penumbra da nave central da sala e rodeado de estátuas e outras peças de arte egípcia oriundas da coleção de Calouste Gulbenkian e de outras instituições europeias, João Carvalho Dias nota como essa difusão massificada ajudou “a criar a imagem que ainda hoje perdura” do antigo Egito. Nos arquivos da Biblioteca Nacional encontra-se um livro de ficção (agora emprestado para esta exposição) sobre os achados de Carter. 

Em conflito com o estado egípcio por causa do tesouro do faraó, o britânico fará conferências nos EUA e no Reino Unido sobre os achados, levando ainda mais longe o conhecimento sobre Tutankhamon. Duas fotografias dessa época estão na exposição, lado a lado com câmaras fotográficas, álbuns e livros que documentam o impacto que a descoberta de 1922 teve no mundo e também no colecionador Calouste Gulbenkian, que se correspondeu com Carter logo a partir desse ano e a quem pediu conselho para adquirir obras de arte egípcia no leilão MacGregor, em 1922. 

As obras adquiridas nesse leilão, aquele que mais contribuiu para engordar a coleção de arte egípcia de Gulbenkian, podem ser vistas em exposição, como a estátua da cabeça do faraó Senuseret III, uma das peças mais valiosas arrematadas pelo milionário arménio para a sua coleção. 

A relação de ambos começa com desconfiança, lembra João Carvalho Dias na visita aos jornalistas, e é contada no catálogo da exposição. “Dos treze lotes rematados na venda MacGregor, onze foram adquiridos por Howard Carter, enquanto os restantes dois, que incluíam a peça mais importante e valiosa entre os mil e oitocentos lotes levados a leilão – a cabeça do faraó Senuseret III −, foram comprados por H. Kehyaian, um negociante arménio que licitou usando o nome “Harris”. Entre os muitos telegramas enviados por Howard Carter a Gulbenkian, dando-lhe conta dos lotes que ia adquirindo, encontra-se a comunicação enviada no dia seguinte ao encerramento do leilão: “A cabeça foi vendida por dez mil a um certo Harris”. Fê-lo em nome de Gulbenkian e sem o conhecimento de Carter. 

Embora só tenha pisado o Egito em 1934, onde tirou a famosa foto junto ao deus-falcão, que se tornou estátua (e hoje se encontra nos jardins da Gulbenkian), desde pelo menos 1907 que o arménio se interessa pela arte egípcia. É desse ano a sua primeira aquisição. Mas o gosto é transversal à elite. Em 1903, a rainha D. Amélia, aficionada da fotografia, tinha feito uma viagem com os filhos por estas paragens - o álbum dessa viagem, com vistas de um acampamento bishari, dos colossos de Mémnon e do templo submerso de Fila, é uma das quase 250 peças em exposição. 

O Egito no quotidiano e na arte

“Faraós Superstars” chega a Lisboa depois de ter passado pelo Mucem - Museu das Civilizações da Europa e do Mediterrâneo, em Marselha, onde, pode dizer-se, nasceu a ideia. 

Frédéric Mougenot, o outro curador de “Faraós Superstars”, conta que as primeiras ideias para esta mostra datam de 2016, quando o então conservador do Mucem começou a estabelecer relação entre os objetos do quotidiano e o Egito. No catálogo, vai mais longe - um preservativo com a marca Ramsés chamou a atenção. “De que modo e por que razão veio a dar-se a um contracetivo o nome desse soberano do Próximo Oriente morto há mais de três mil anos? O que terá feito Ramsés – o segundo desse nome e de longe o mais célebre – para merecer tão duvidosa honra? O que é que este facto nos permite deduzir, se não da obra do monarca, pelo menos da sociedade que o fez sair do seu repouso mumificado por razões comerciais e da imagem que nela se faz dos faraós?”, lê-se.

O projeto ganhou forma em 2019 mas é apenas este ano que se concretiza - primeiro em Marselha, agora em Lisboa, em cima de duas datas da maior importância. 

Passam 200 anos desde que o egiptólogo Jean-François Champollion decifrou os hieróglifos e este sábado, 26 de novembro, passam exatos 100 anos desde que Howard Carter, acompanhado de Lord Carnarvon, Lady Evelyn e do seu assistente, Arthur Callender, abriram a porta do túmulo de Tutankamon revelando um tesouro desconhecido. Dois dias antes a equipa tinha encontrado a inscrição do túmulo. 

O fascínio pelo Egito é, porém, anterior - como prova a tapeçaria de Gobelin do século XVII, uma encomenda associada ao rei Luís XIV, que documenta o poder do faraó. E chega aos dias de hoje.

Os artistas inspiram-se nele, dizem-nos a “Cleópatra2” de Joana Vasconcelos (uma vespa amarela coberta de renda) ou a obra “Grey Area” de Fred Wilson a partir do mais conhecido busto da rainha Nefertiti. Elizabeth Taylor tornou-se o rosto de Cleópatra graças ao filme de 1963, declinado depois nos livros de “Astérix e Cleópatra”.

A indústria inspira-se nos faraós: a moto Kéops, os lápis Ramsés, os sabonetes Cleópatra. A cultura pop também: Rihanna foi Nefertiti na capa da Vogue Arabia em 2017, Beyoncé usa o busto da mesma rainha no merchandising de 2018 - a última vez em que a seleção nacional do Egito participou num Mundial, com os jogadores a usar a imagem de Tutankhamon quando levantavam a camisola para celebrar. 

A grandiosidade é a marca desse tempo e pode ser contemplada no átrio do Museu Gulbenkian graças ao punho de granito vermelho que pertenceu a um colosso de Ramsés de 12 ou 14 metros de altura encontrado em Memphis e do qual pouco mais resta. Veio do Museu Britânico, pesa uma tonelada, foi esculpido de um só bloco de pedra, como terá sido o resto da estátua (e era hábito no Egito). Comparemo-lo com a dimensão do punho de cada um de nós. É faraónico.

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